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?Doce como uma uva?

Marcus Libório
| Tempo de leitura: 3 min

Há uma década conheci a solidariedade e a boa vontade de um senhor de 90 anos. O seu Olívio, como é conhecido em Pirajuí, preenchia parte do tempo prestando serviços valiosos à comunidade, sem nunca almejar algo em troca. Tomar conta de uma horta simplesmente por amor ao trabalho o mantinha sorridente durante o dia todo. A satisfação dele, contudo, era distribuir o resultado da colheita para os amigos e vizinhos. A rotina do aposentado não era das mais comuns para uma pessoa na terceira (melhor) idade. Religiosamente, a partir da 1h da madrugada, seja embaixo de chuva ou frio, seu Olívio varria todo o quarteirão da empresa onde mantinha a sua plantação. Só pelo fato de querer ajudar. Os funcionários da coleta de lixo agradeciam e ainda brincavam: "Hoje tem ouro!", referindo-se às latinhas que Olívio juntava. Um gesto raro.

Raro também seria encontrar outras pessoas (me incluo nessa) com atitudes tão nobres assim, pensei. Estava certo, pelo menos até a semana passada. Em meio a histórias tristes de famílias que perderam tudo com o temporal que atingiu Bauru no dia 2 de setembro, atos de amparo e compaixão. Dona Maria, 67 anos, me fez lembrar de seu Olívio. Em sua casinha simples e de chão batido, na Vila Aviação, ela tinha como júbilo cuidar dos cinco cães de estimação - enquanto muitos abandonam animais diariamente nas ruas. Para passar o tempo, ouvia cânticos religiosos em um radinho, que a chuva também levou.

Sem nada e nem para onde ir, a aposentada acabou sendo acolhida em um abrigo da prefeitura. "Quero um cantinho só pra mim", disse, enquanto eu a entrevistava. O episódio comoveu os leitores. Após a veiculação da matéria, mais de 15 pessoas procuraram o Jornal da Cidade e ofereceram doações. Um grupo no Facebook foi criado para ajudá-la. Até domingo, a página "Salve uma Sobrevivente" já contava com, aproximadamente, 800 membros. Tais fatos me fizeram pensar que nem tudo está perdido.

Outro caso de benevolência também me chamou a atenção na semana que passou. Quem viu a reportagem no Fantástico (Rede Globo) contando a luta contra um câncer no fígado travada pelo pequeno João, de apenas quatro anos, deve ter refletido (um pouco que seja) sobre a vida. Em uma igreja de Palhoça (SC), a avó do menino, já sem muitas alternativas, pediu para que uma desconhecida se habilitasse a ser doadora. Comovida com a situação, Tatiane, 33 anos, aceitou a missão, mas precisou perder quase 30 quilos para estar apta ao transplante. Depois de muito esforço, conseguiu.

Um casal da cidade de Agudos se sensibilizou com a história de superação de João e Tatiane e emplacou uma campanha para arrecadar dinheiro e suprir com os gastos extras em São Paulo, durante o pós-operatório. Confesso que tanta boa ação assim em pouco tempo me causou certa estranheza. Talvez seja eu que, por algum motivo, não as estivesse enxergando antes, em outras situações. Ou, quem sabe, com as ciscurstâncias do dia a dia perdi um pouco da fé nas pessoas.

Seja lá como for, me fez perceber que ainda tem muita gente boa por aí. Gente humilde e prestativa, assim como o seu Olívio, que tanto admiro. No mês que vem, ele completa 100 anos de idade, com lucidez, saúde e disposição de um jovem (sem exagero). Vale lembrar que o aposentado ainda cultiva uma horta em sua casa e distribui verduras para a vizinhança. Belo exemplo. E escasso. Creio que o segredo da longevidade de seu Olívio se resume em uma frase que ele costumava dizer: "Se todos doassem um pouco de si para o próximo, o mundo seria doce como uma uva".


O autor é repórter do Jornal da Cidade

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