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Sem estrutura, eles moram no beco


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O gueto social não está somente nas moradias de áreas de risco em Bauru. O isolamento em sentido amplo alcança dezenas de moradores que sobrevivem em becos formados pela acomodação irregular de barracos, e até moradias de alvenaria, em pontos extremos da cidade. Essas moradias não sobrevivem somente da improvisação de instalação, mas não encontram, literalmente, saída para a via pública.

 

A ocupação clandestina de bairros inteiros, ou sem regulamentação, atinge mais em cheio quem vive em terrenos ao fundo de lotes onde as ruas não chegaram. O aglomerado de barracos, no tempo, foi tornando as ocupações irregulares também do ponto de vista do arruamento. Como o poder público não interveio, nos espaços destinados à rua agora existem construções. Com isso, os que vieram algum tempo depois das ocupações se consolidarem ficaram ainda mais isolados.

 

E se os vizinhos das ruas recortadas em chão de terra pelo menos contam com endereçamento postal - ainda que sem regulamentação -, instalação de energia elétrica e abastecimento de água, os do fundo ou improvisam ou permanecem em condições ainda piores. Lá estão os bauruenses que moram “no quintal do isolamento”.

 

É em um lugar nessas condições que Clayton de Oliveira está erguendo tijolos no Jardim Niceia. O bairro espera, há anos, regularização de ruas e endereços para que seja possível tanto a emissão de documentos de titularidade de imóveis como a chegada de benfeitorias como galerias de águas pluviais e pavimentação.

 

Mas Clayton não pode esperar. E muito menos sua filha, neste momento com 2 meses de vida na barriga da esposa. “Minha esposa tropeçou aqui na escuridão para conseguir chegar em casa. Eu comprei o terreno com saída para o que deveria ser a Rua 6. Mas outros moradores foram construindo no alinhamento de onde seria a rua e eu fiquei isolado, ao fundo”, conta.

 

Única saída

 

Não restou a Clayton outra alternativa a não ser se valer de um beco. Para isso ele contou com a colaboração de moradores que construíram com a testada (de frente) para a Rua 5 no Jardim Niceia. “Eu consegui que eles deixassem para meu acesso um pequeno corredor de um metro de largura por onde eu consigo acessar a Rua 5. Meu terreno fica ao fundo. Fiquei isolado de tudo, no meio do nada”, explica Oliveira.

 

Sucessivamente, os vizinhos que foram se instalando nos terrenos adjacentes também “respeitaram” o corredor de um metro. “Felizmente eu tive essa compreensão. Mas muitos moradores não contaram com a mesma sorte. É preciso que a Prefeitura resolva isso porque construções foram erguidas fora da área permitida no traçado da Rua 6, que por causa disso não existe. Eu fiquei no beco”, acrescenta. 

 

A ligação de esgoto na moradia em construção por Clayton será realizada de improviso. Alguns lugares utilizam fossa no bairro. As ligações de energia elétrica e abastecimento de água seguem o mesmo “padrão”. Para minimizar a escuridão no beco com corredor de mais de 10 metros, da Rua 5 até o fundo, o morador instalou, no meio do caminho, um bico de luz para minimizar.

 

Pela mesma razão, Joel Lopes foi chamado por familiares para ajudar nas instalações das tubulações de esgoto na mesma rua, mas em outro beco. O caminho que ele percorre para chegar até o fundo é maior que o de Clayton. “É apertado. Não cabe uma bicicleta aqui nesse corredor. O material para trabalhar tem de trazer nas costas. Está muito difícil viver aqui e os canos de esgoto estão aparecendo.”

 

Da viela para o corredor

 

Não é fácil acessar a casa de Artur Francisco Castilho no Núcleo Ferradura Mirim por coordenadas geográficas naturais. Ele mora entre uma viela e um beco, em uma extensão transversal do que seria a Rua B do núcleo. Para encontrar o trabalhador informal como coletor de materiais recicláveis é aconselhável ir perguntando, entre os moradores. Até porque, no isolamento a solidariedade pela sobrevivência e a proximidade entre os barracos costumam falar alto.

 

“Olha, eu não consigo sair com o carrinho de reciclável pelo beco. Porque saindo da viela fica tão estreito lá na frente que é impossível passar. Então é preciso contornar tudo pela rua B para ir para o outro lado”, explica Artur.

 

A iluminação (se valendo do costumeiro “gato”) foi “puxada” uns 50 metros ao fundo de sua residência, assim como a água. “Aqui não vem carteiro e a passagem da viela para o beco só dá para passar a pé e uma pessoa de cada vez”, acrescenta.

 

Próximo dali, Adriana Carvalho varre a poeira sob o sol escaldante do horário do almoço da sexta-feira. Mãe de sete filhos, ela desabafa: “Não tem como sair aqui à noite e as crianças andam na terra e com essas poças de água de esgoto parada. Mas é a nossa rua e é preciso varrer”, justifica.

 

José Nicolau desabafa, enquanto se “esconde” do calor à sombra da parede de tapume do barraco onde mora: “Aqui não é nada legalizado. O postinho de energia ficou na outra rua e os demais moradores puxam de lá. De noite é uma escuridão enorme aqui na viela”, diz.

 

Silvanira Maciel, que mora com José e outras três crianças, apresenta uma conta de energia do postinho do fundo que serve à sua moradia. Ela costuma pagar entre R$ 30,00 e R$ 40,00 mensais. “Mas aqui tem mesmo dois bicos de luz, uma televisão e uma geladeira só.”

 

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