Bairros

Trânsito "grita" por educação

Ana Paula Pessoto
| Tempo de leitura: 5 min

Horário a cumprir, atraso, calor, muitos veículos nas ruas, semáforos, ônibus, caminhões, motos, carros e mais carros, ciclistas, pedestres. Buzina por todos os lados. Ofensas, caras e gestos feios. Comum para quem pega o trânsito em Bauru, a cena descrita pode ser sinônimo de estresse. E é no trânsito que está uma das maiores fontes da falta de paciência, educação e da intolerância no dia a dia. Alguém discorda?

Em artigo intitulado “Paz no trânsito!”, publicado na coluna “Opinião” do JC, no último dia 25 de julho, o padre Luiz Antônio Lopes Ricci, pároco da Igreja de São Cristóvão, faz uma reflexão sobre a importância da conscientização para a questão da paz no trânsito, especialmente em Bauru, por conta do aumento da impaciência, agressividade, imprudência e do índice de acidentes com vítimas fatais, feridos e sequelados.

Ele ressalta que a paz no trânsito é um imperativo ético para todos os motoristas profissionais e condutores. E com o considerável aumento do número de veículos e motos nas cidades, o trânsito se torna um elemento que potencializa o estresse. O que é facilmente observado nas buzinas, agressões verbais e gestuais, irritabilidade e impaciência em situações que deveriam exigir tolerância e gentileza.

“Não há mais tempo para dar preferência ao pedestre, para aguardar uma manobra ou dar passagem a quem sinaliza. Há muitos motoristas que praticam a cordialidade e gentileza no trânsito, atitudes naturais que não deveriam causar surpresa quando praticadas. O crescimento econômico e o consumo devem ser acompanhados pelo progresso humano e ético para se evitar a desumanização e violência”, grifou Ricci em seu artigo.

Ao extremo

São muitos os casos de intolerância que levam à agressões. Em julho de 2013, por exemplo, um rápido desentendimento no trânsito quase terminou em homicídio em Bauru. No trecho urbano da rodovia Marechal Rondon, um homem de 43 anos levou tiros de outro motorista nervoso que tentava ultrapassar o carro da vítima e não conseguiu. Com os veículos emparelhados, os motoristas teriam trocado ofensas e, em seguida, veio o disparo. A vítima teve ferimentos em uma das mãos e seguia com o filho de 8 anos pela via.

Pedestres 

Já o consultor automobilístico Marcos Camerini lembra que pedestres também precisam ser mais educados no trânsito. Fazer a sua parte. Abusos como atravessar a rua onde querem e o desrespeito com o semáforo de pedestre são vistos com frequência em qualquer lugar da cidade. “Falar ao celular e ao mesmo tempo atravessar a rua sem olhar é acidente na certa. Mesmo que um veículo esteja a 40 km/h, o choque será inevitável. A educação no trânsito deve contemplar também os pedestres. Todos somos. E um pedestre sempre será a parte mais fraca se bater contra um veículo”, aponta.


Nos circulares, há pouco respeito com os idosos

A pensionista Magali Martins Theodoro tem 59 anos e muita coisa a dizer sobre a rotina de quem precisa pegar ônibus para se locomover de um bairro a outro, em Bauru. Moradora da Vila Nova Esperança, Magali é usuária de ônibus da linha Edson Silva/Nova Esperança, e sempre às manhãs toma o ônibus para ir ao Centro. Rotina que a deixa desanimada pela falta de respeito das pessoas umas com as outras, principalmente contra os idosos.

“Tomando ônibus, tenho que viajar todo o trajeto em pé, segurando no estribo, porque os assentos de idosos estão ocupados por crianças e jovens que fingem dormir. Quase apanhei de uma mulher um dia desses porque sua filha estava sentada no banco reservado e eu tomei as dores de uma senhorinha”.

Sem saber como proceder e onde encontrar a solução, Magali já falou com motoristas sobre a possibilidade de pedirem para que crianças e jovens não sentem nos assentos reservados. “Mas parece que eles têm medo de barracos e agressões. Realmente, não sei a quem recorrer. De quem é a responsabilidade?”, indaga.    

A gentileza persiste

Para conferir de perto a rotina relatada por Magali, percorri um pequeno trajeto da linha “Cerejeiras”, em horário de pico. O percurso foi feito na última terça-feira, das 17h30 às 18h30, mais ou menos. Foi cerca de uma hora de caminho. Parece muito, mas percorri um pequeno trajeto de ida e volta da avenida Rodrigues, altura do cemitério da Saudade, em direção à Praça das Cerejeiras, onde fica a Prefeitura Municipal.

O ônibus estava praticamente vazio no início do meu percurso. Apesar de haver muitos lugares vagos, boa parte dos bancos reservados para idosos, gestantes, deficientes físicos, obesos e mães com crianças no colo estava ocupada por adultos jovens.

A ida até a Praça das Cerejeiras foi tranquila. Ônibus vazio. Na volta, bastou chegar perto do Centro da cidade para que o coletivo começasse a ganhar passageiros. Na Rodrigues Alves, cada vez mais. Os corredores rapidamente ficaram repletos. Maioria formada por trabalhadores do comércio e consumidores voltando para casa, todos visivelmente cansados e com sacolas e mochilas. As idades variavam bastante. Lugar em pé é luxo em  horário de pico. Encontrar um banco vago nos pontos do Centro é quase como acertar na raspadinha. 

A volta para casa pode ser longa e é cansativa. Para a espera, muitos com celulares nas mãos. Poucos com livros e outros jogando conversa fora ou desabafando sobre o trabalho e a família.

É com o ônibus lotado que se vê a educação. Ou a falta dela. Na frente, novamente a cena se repete: crianças, adolescentes e adultos jovens disputam os bancos reservados. Os mais velhos, alguns sentados. Outros, em pé. Cansados e só desejando chegar em casa, quem se atreve a pedir lugar e a levar um não ou uma ofensa?

“Ninguém tem educação com a gente, menina. Muitos fingem que estão dormindo para não dar lugar para os idosos. Isso sem falar nos motoristas que não têm paciência com a gente. Tenho medo de falar alguma coisa e ser maltratada, porque já vi isso acontecer”, desabafa uma senhora no auge de seus 70 anos, com sacolas nas mãos. Ela desce. E eu, estou quase chegando.

Mas, esperem! Uma quadra depois e duas antes de voltar para o meu ponto inicial, uma luz no fim do túnel. Uma mulher entra no ônibus, acomoda suas sacolas sobre os pés, para não ocupar o espaço concorrido do corredor e ouve: “Moça, por favor, sente-se aqui”. Ela, encabulada por ter 30 anos, uns 20 a menos que o gentil senhor, disse que não precisava. “Precisa, sim. Ainda estou moço e forte. Você está cheia de sacolas. E é mulher. Precisamos tratar bem as mulheres. Eu aprendi assim”.

Era o meu ponto final. Desci do ônibus. O sorriso estava no rosto. E a fé no ser humano, no coração.

Aceituno Jr.

Ponto de ônibus lotado após as 18h, horário de pico: cansaço, descaso e alguma cordialidade

 

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