Relatarei aqui, por achar oportuno nessa época de eleições, duas histórias, daí serem escritas com "h" inicialmente. Meu pai, João Pinzan, hoje com 94 anos, trabalhava em São Paulo, com arquitetura, desenhos e decorações de ambientes. Foi contratado pelo empresário Antônio Ermírio de Moraes, nome que dispensa maiores referências. Na época, disputava um cargo público com Paulo Maluf. Terminado o pleito eleitoral, meu pai questionou se o empresário continuaria a disputar eleições. Ele respondeu que passou por grandes humilhações quando fazia campanha, inclusive recebendo cusparadas de malufistas e que não precisava daquilo, pois considerava que poderia fazer o bem para São Paulo, através de seus trabalhos e ações beneficentes.
Na outra história, fui ouvinte desse diálogo que se segue. Dava aulas em São Paulo, numa entidade (SPO) de cursos especializados em Ortodontia (minha área). Existia um aluno, chamado Celso, que me transmitiu esse fato. O Celso foi convidado para uma festa na casa de um sobrinho do Maluf. Quando o Maluf chegou, o sobrinho disse: "Tio, o Celso não gosta de você." Pura saia justa. Maluf perguntou-lhe: " Por que você não gosta de mim?" O Celso, surpreso com tudo o que acontecia, respondeu, muito sem pensar, segundo ele: "Não gostei do que você fez durante a campanha contra o Antônio Ermírio de Moraes." Maluf, com rapidez, respondeu: "Vou dizer o seguinte: quando o Antônio Ermírio de Moraes estava disposto a disputar um cargo público, conversei com ele avisando que durante a campanha muitas coisas aconteceriam, muitas desagradáveis, pois deveríamos trocar farpas na conquista do eleitorado. Passada as eleições, encontro-me frequentemente com ele nas reuniões da Fiesp, da qual ambos somos afiliados." Nos meus tempos de juventude, na televisão aparecia aos sábados um programa chamado "Luta Livre". Esses lutadores se hostilizavam durante suas apresentações, transferindo alegrias e repulsas para a plateia. Chegaram ao ponto de terem um ônibus que os levavam a fazerem apresentações pelo Interior de São Paulo. No ringue se atracavam, acabava a apresentação, todos subiam no mesmo ônibus, contando o lucro obtido. Os fatos que acontecem hoje, nesta polarização da campanha presidencial, como as "uniões" mais esdrúxulas para conquistar alguns minutos a mais de propaganda, antigos adversários políticos se reunindo numa "coalisão", onde embriologicamente os projetos dos partidos são antagônicos, deixando de lado a ideologia política, não me parecem diferentes das histórias ocorridas há muito tempo.
Quem colocaremos para nos representar na Casa onde as leis são propostas, analisadas e aprovadas? Quantos de nós já pesquisamos e escolhermos nossos candidatos a deputados estaduais e federais? O mesmo para senadores? Para governadores? Quantas raposas colocaremos para tomar conta do galinheiro? Essa brincadeira que o palhaço Tiririca faz durante sua campanha me parece que está colocando o nariz de palhaço em todos nós, que votamos irresponsavelmente e delegamos a esses eleitos, os destinos da nossa nação, família, saúde, educação, emprego e respectivas infraestruturas.
Não só ele, mas vendo as propostas parece que acordaremos, no dia seguinte, com um Brasil totalmente diferente. Temos que acordar do "deitado eternamente em berço esplêndido". Somos, no presente, os responsáveis pelo nosso futuro. Os políticos devem ser a expressão da nossa representação e anseios. As consequências, teremos que arcar.
O autor é professor FOB-USP e membro de diretoria do Lions Clube de Bauru Centro