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Manufatura e o câmbio

Antonio Delfim Netto
| Tempo de leitura: 2 min

Por definição, dois trimestres consecutivos de retração da economia definem o que se chamou de recessão técnica. É esta a situação desagradável em que nos encontramos, mas não significa que vamos continuar com a economia em recessão. Isso só aconteceria se o governo deixasse de enfrentar os desequilíbrios que nos acompanham há vários anos, notadamente nas políticas cambial e fiscal e deixasse de reagir, à espera do encerramento da disputa eleitoral.

Na inflação ? a despeito de alguns controles ? continuamos a namorar o limite superior da banda de tolerância, que fingimos ser a "meta". A "boa notícia" é que a distância entre a taxa de inflação registrada nos preços "administrados" e nos preços "livres", que era menor do que 10% no final de 2011 e chegou a mais de 150% em 2013, foi reduzida e se encontra ao redor de 40%. Na área fiscal a situação em 2014 piorou visivelmente, em parte porque o crescimento do PIB murchou. O déficit fiscal/PIB aproxima-se de 4%. A promessa de superávit primário de 1,9% do PIB, arrancado a fórceps no sufoco da ameaça da perda de rating pela agência S&P, tornou-se irrelevante e a Dívida Bruta/PIB aparenta um viés de crescimento.

A situação é delicada, mas perfeitamente reversível e sem custos exorbitantes se adotarmos programas monetário e fiscal coerentes e transparentes, capazes de dar previsibilidade às políticas públicas e tranquilizar o "espírito animal" do empresariado, assustado por intervenções pontuais bem intencionadas, mas erráticas. Irreversível é o crescimento perdido que vai nos acompanhar pelo resto do tempo.

Onde o ajuste será mais complexo é na política cambial. Voltamos a cometer o erro que nos tem perseguido há décadas: o uso da taxa de câmbio como coadjuvante do controle da inflação como substituto das políticas monetária e fiscal, cada vez que somos premiados com uma melhora nas "relações de troca", ou seja, cada vez que os preços de nossas exportações crescem mais rapidamente do que os das nossas importações. Não pode haver dúvida sobre as causas de um fato, o emagrecimento da produção industrial: não foi apenas a valorização cambial, mas foi principalmente a valorização sistemática do câmbio, prolongada, previsível, sustentada pelas maiores taxas de juros reais do universo que permitiu a destruição do sofisticado setor manufatureiro nacional. De 2011 a 2014, o déficit comercial do setor da manufatura foi da ordem de 199 bilhões de dólares. É por isso que a queda persistente no crescimento da indústria, que encolheu cerca de 0,7% ao ano no período, foi a principal causa da murcha do PIB para 1,76% ao ano e , sem nenhuma dúvida deu importante contribuição para a retração da economia nos dois trimestres deste ano, o estado de "recessão técnica" que estimulou as críticas dos partidos de oposição.

O autor é economista, ex-ministro do Planejamento e articulista do JC

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