Até agora, tive uma vida de mentira. Chega a hora da verdade. Peço profundas desculpas à minha esposa e aos meus filhos. Perdão aos bons amigos de tantas saídas. Lamento decepcionar: fingi prazer. Como não revelar o que trago trancado no peito? Melhor sair logo do armário ? digo, do forno. Odeio escondidinho.
Odeio escondidinho. Desculpem, cozinheiros e afins. Grandes profissionais dos pratos, dos temperos e das mesas. Esses anos todos, sofri calado. Reconheço valores estéticos e nutricionais da cremosa iguaria, mas não dá. Desculpem, batatas e mandiocas, ali tão solícitas no preparo. Desculpem.
O jornalista Sérgio Pais não se dá com rúcula. Foge dela. Certa vez, eu e outro amigo combinamos com o garçom: assim que Sérgio chegasse, diria: "A porção de filé com rúcula já está saindo". Assim foi feito.
Mas Sérgio percebeu de cara o trote e apenas sorriu, balançando a cabeça em divertida reprovação. Chegou o filé (com brócolis).
O professor Ricardo Alexino Ferreira tem, vou entregar, desespero com cebolas ? como bem sabem Elaine, Auren e Marisa. Certa vez, ele saiu da própria casa quando, ao voltar do trabalho, flagrou um amigo ou amiga a cortar intermináveis rodelas de cebola para a panela de pressão. Por segurança, Alexino também evita cebolinhas.
O escondidinho até que é agradável, mas se quero carne seca, quero carne seca ? e não fiapo de carne seca. Desculpem o desabafo. E, sim, admiro vegetarianos, mas ainda não cheguei lá. Há dilemas a respeito. Como escreveu o novelista Walcyr Carrasco a "Época": "Para superar dramas éticos, cada vez mais querem comer algo que não pareça o que comem de fato. Loucura! Por exemplo: filé de frango, e não o próprio frango assado com farofa. Estrogonofe, bife. Tudo o que distancia do animal em si. Algumas crianças nunca viram galinha de verdade. Ou uma vaca. Imaginam que são itens de supermercado."
Sei que estamos na semana da eleição e sou minimamente conhecedor das tragédias do mundo. Igualmente, fico solidário às dores alheias da mesma forma com que busco incentivar sonhos belos.
Peço paciência com minha revelação gastronômica inútil, mas foi só singela tentativa de divertir o domingo. Está tudo tão sombrio. Podem criticar total: joaopedro@jcnet.com.br. Melhor crítica franca que sorrateira, leviana, pelos cantos ? tipo escondidinha.
O autor é editor executivo do JC