Bairros

A cidade por fios e cabos

Nelson Gonçalves
| Tempo de leitura: 13 min

As pessoas não costumam, no dia a dia, olhar para o alto, mas se o fizessem identificariam que um emaranhado de cabos e fios da energia elétrica, telefonia, Internet e fibra ótica estão sobre nossas cabeças pendurados por 41.553 postes em toda a área urbana de Bauru.

 

Porém, a substituição do modelo brasileiro de fiação e cabeamento aéreos custaria tão caro que os agentes públicos nem arriscam levar para a gaveta projetos nesta área. No Brasil, segundo a concessionária CPFL Paulista, não há cidade com cabeamento enterrado completo, nem parcial. Poucas e dirigidas experiências estão em curso, como em Ribeirão Preto - que está realizando a implantação do sistema enterrado no Centro.

 

Em Bauru, o prefeito Rodrigo Agostinho (PMDB) conta que, em reunião ainda da semana passada em São Paulo, onde discutiu estruturas urbanas, por exemplo, especialistas mencionaram que o quarteirão instalado de fiação enterrada custaria, hoje, R$ 1 milhão.

 

“Durante o encontro foi discutido o projeto de aterramento da fiação na cidade de São Paulo. O custo é muito elevado, de R$ 1 milhão por quarteirão. É muito difícil o financiamento disso, mas seria o ideal. Aliás, o ideal é que as cidades não tivessem postes, mas árvores”, cita.      

 

Em cidades como Madrid, na Espanha, não se veem postes. Todo o sistema está no subterrâneo. Mas no Brasil, como a ocupação urbana já se fez, historicamente, pelo alto, o custo torna projetos do gênero surreais financeiramente. 

 

Em São Paulo, a legislação exige, desde 2005, a substituição. Mas o custo do projeto foi estimado em R$ 250 bilhões em 2010. Resultado: dos 15 mil quilômetros de extensão de fios na capital, se dispostos lado a lado, apenas 15 km estão sob o asfalto em um trecho do Centro. Ainda assim, essa instalação foi financiada pelo setor privado.   

 

Por aqui, a Prefeitura não detém informações completas sobre o sistema. A administração informa que a concessionária não apresentou dados, conforme a norma, que deveriam constar do georreferenciamento. “Nós não sabemos quantos quilômetros de cabos estão instalados, embora isso tenha de ter sido entregue à prefeitura pela concessionária”, informa a administração. 

 

Avaliação

 

O secretário Municipal de Obras, Sidnei Rodrigues, elenca as principais conclusões da análise comparativa dos custos de diferentes redes de distribuição de energia elétrica no contexto da arborização urbana. “O custo de implantação da rede compacta é praticamente o mesmo da rede convencional. Mas há uma redução de 80% no custo de manutenção da compacta quando comparado à convencional.

 

Para Rodrigo Agostinho, a concessionária do sistema tem de priorizar a substituição do sistema ao menos pela fiação compacta, onde os cabos aparecem acoplados juntos, retorcidos, ao invés das linhas horizontais e verticais existentes atualmente. “O sistema compacto traz a fiação próxima uma da outra e isso não gera tanto problema com arborização como é hoje. Com as linhas com vários cabos, as árvores são muito prejudicadas e a prioridade é a questão ambiental, de ventilação urbana e paisagismo”, opina. 

 

A Secretaria Municipal de Obras acrescenta, nessa discussão, que é mais vantajoso o uso de redes de distribuição compacta em vez de redes convencionais, tanto em termos de custos quanto de benefícios e melhor convivência com as árvores viárias. 

 

“O custo de implantação de rede subterrânea é 10 vezes maior quando comparado com a rede convencional. Já a manutenção é duas vezes menor que a convencional no sistema subterrâneo”, aponta. 

 

Planejamento estratégico

 

Para Elaine C. Andreotti Peixoto, consultora de marketing e estratégia, docente e mestranda na área, a falta de planejamento estratégico explica, em geral, porque, quase sempre, o poder público está correndo atrás dos problemas ao invés de atacar a causa dessas questões. 

 

“É frequente constatarmos falta de planejamento estratégico, aquele formatado para o alcance de objetivos a médio e longo prazos, tanto no setor público quanto no privado, embora este seja essencial para qualquer tipo de gestão”, observa.

 

Ela reforça que para tanto, é preciso “projetar a ação ou a empresa atual (presente) para a empresa ideal (futuro), identificando as ações e os recursos necessários, além de definir prazos e responsabilidades. As consequências da falta ou falha no planejamento são retrabalhos, recursos gastos de forma indiscriminada e, no caso do setor público, a população passando por situações de transtornos e riscos”, lembra.

 

Elaine cita que “se tomarmos como exemplo o último temporal, que ocasionou o alagamento de vias, o rompimento de cabos e fios de energia na cidade, podemos perceber que os prejuízos da falta de planejamento vão muito além dos financeiros e ameaçam a segurança e a integridade física da população”, finaliza.

 

No caso das prefeituras, o Planejamento Estratégico deveria ser uma “prática” adotada para transformar a “cidade que temos” na “cidade que queremos”, sempre com o objetivo de melhorar a qualidade de vida do povo. É necessário um longo processo para atingir os resultados e desfrutá-los. 

 

Iluminação ‘concorre’ com as estrelas

 

O prefeito Rodrigo Agostinho defende que o sistema subterrâneo seja pensado, a princípio, para a região central de Bauru. “É isso que está sendo feito em algumas cidades. Aqui acho que a região central deve ser priorizada”, defende. Mas não há projeto para isso e nem recurso, por enquanto.

 

Agostinho revela uma curiosidade. A contratação de iluminação pública para a Avenida Carlos Sandrin, com licitação já realizada pela Prefeitura e aguardando a ação da CPFL Energia, gerou controvérsia inusitada. “Além da poluição luminosa e visual com a presença dos fios, como em todos os locais, próximo do Observatório, em especial, há reclamação de que a iluminação pública vai prejudicar aos profissionais a visualização de planetas. Ou seja, a iluminação atrapalha a visualização em área urbana até de estrelas. O pedido de instalação partiu da área, mas os técnicos reclamam da consequência”, conta.          

 

Os técnicos falam

 

Técnicos da Divisão de Iluminação Pública (IP) da Prefeitura de Bauru responderam a questionário elaborado pelo JC sobre curiosidades do sistema. O relatório é assinado pelo engenheiro eletricista José Rodrigo de Oliveira.

 

A divisão esclarece que a disposição de cabos elétricos destinados à distribuição e fornecimento de energia seguem padrões estabelecidos pela concessionária, conforme normas técnicas regidas pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel).

 

Da mesma forma, isso acontece em relação aos cabos de telefonia, TV, internet, micro-ondas e fibra ótica atualmente instalados e suportados pelos postes que sustentam as redes de distribuição de energia elétrica. Os cabos que não são de energia “pendurados” nos postes, nas ruas, dependem de contrato específico com a concessionária. Características de instalação, como altura e tensionamento dos cabos, são determinados pela CPFL Paulista. 

 

Outra curiosidade é que no caso específico da iluminação pública ela é um acessório ao sistema de distribuição e fornecimento de energia elétrica, onde a concepção é de que o poste não é de “iluminação pública”, mas sim da rede. 

 

As regras criam duas situações. A prefeitura é quem tem de custear a implantação de bico de luz em localidades isoladas onde há apenas o poste. De outro lado, a expansão da rede por interesse público também depende do pagamento do custo pela prefeitura para ser realizada. 

 

No escuro

 

A Prefeitura de Bauru não tem informações sobre quantas ruas estão no escuro, sem o conjunto poste, luminária, lâmpada, reator e haste nas ruas. Segundo a Secretaria de Obras, a administração “não dispõe do levantamento de quantas remanescem no escuro, sendo possível afirmar que somente loteamentos antigos restam desprovidos de iluminação”. Isso porque, conforme o governo, a lei de parcelamento de solo vigente à época não exigia a dotação deste item de infraestrutura básica. A estimativa é de 1.500 quadras onde não é permitida a edificação em razão da lei do cerrado.

 

Já no programa de universalização de energia elétrica, a Prefeitura informa que conta com cadastro de serviços a executar na área para 911 pontos. 

 

Para os loteamentos antigos, que não contam com bicos de luz, a administração lista, entre eles, localidades como Pq. Manchester, Núcleo Isaura Pitta Garms, Pq. Giansante, Jd. Tangarás, Vila Industrial, Pq. Val de Palmas, Jd. Eldorado II, Pq. Sta Edwirges e Pq. São Judas, conforme José Rodrigo de Oliveira, engenheiro eletricista da Divisão de Iluminação Pública.

 

Curiosidades

 

O JC perguntou e os técnicos da Divisão de Iluminação da Prefeitura de Bauru responderam (as questões também foram enviadas à CPFL Energia, que não enviou respostas): 

 

Quantos postes de iluminação pública há em Bauru? 

“O número de postes exatos existentes em Bauru por nós é desconhecido, sendo certo que em levantamento apresentado à Prefeitura pela CPFL em 05/2014 o número de pontos existentes foi de 41.553. Mas em vias como a Avenida Nações Unidas, Rodrigues Alves, Duque de Caxias e Comendador José da Silva Martha existem braços duplos, o que evidencia que o número de bicos de luz não implica no exato correspondente ao de postes”.

 

Qual o tamanho padrão de um poste de IP?

“De acordo com as normas da concessionária local, os postes da rede de distribuição de energia elétrica que sustentam os pontos de IP variam de 9 a 12 metros dependendo das características específicas de cada projeto”.

 

Qual a distância padrão de um posto de IP e altura máxima de circulação de carga nas vias?

“Na atualidade a distância permitida pelos postes admitida pela CPFL é um vão de 35 metros para a rede secundária. No entanto, existem vãos de até 45 metros em bairros mais antigos. A estimativa para a altura máxima de carga na área urbana é de 5,5 m. O dado tem de ser submetido à CPFL”. 

 

Quais os tipos de cabos e fios instalados no sistema de IP em alta, média e baixa tensão?

“As redes da concessionária para distribuição e fornecimento de energia elétrica operam em média tensão (classe 15 kV) e baixa tensão (127/220V), excetuadas as torres e pórticos destinados a transmissão de energia elétrica para subestações de energia elétrica (44 e 138kV), cuja especificação por ser obtida junto à CPFL.

 

Fiação baixa ‘alimenta’ alguns vícios

 

O furto de cabos e o rompimento de fiação de energia elétrica, sobretudo na periferia, são crescentes e viraram rotina em Bauru. Segundo a Secretaria Municipal de Obras e a Defesa Civil, quase todas as ocorrências registradas pelo governo estão ligadas ao consumo de drogas. Adolescentes e jovens avançam sobre a fiação, apesar do perigo, para vender os cabos e financiar o consumo principalmente de crack.

 

Os viciados, sobretudo em crack, se aproveitam da fiação baixa e se penduram na rede. “Eles fazem isso em geral à noite, quando não são percebidos. O furto dessa natureza tem servido para alimentar o vício, infelizmente”, conta o secretário de Obras, Sidnei Rodrigues.  

 

Outra “técnica” utilizada pelos “noias” é alcançar a fiação subindo em árvores e muros. “A arborização, que já sofre os prejuízos do sistema de iluminação pública antigo, feito por fios separados e não em conjuntos compactos, também sofre com o acesso pelos jovens que arrancam galhos e não medem perigo para arrancar e puxar a fiação”, acrescenta o coordenador em exercício da Defesa Civil, Josué Gomes de Moraes.

 

Conforme Josué, a frequência de furtos preocupa. “Isso está acontecendo em vários bairros. O noia está cortando onde tem árvore para derrubar o fio. Depois ele puxa até dar um bom comprimento. Em outros pontos ele se pendura na rede. É para fazer dinheiro para a droga”, comenta.

 

Mas o furto também está sendo feito para fios que estão embaixo da terra. “Na avenida Nuno de Assis, somente neste ano nós já refizemos a instalação enterrada de fios três vezes. Já foram consumidos R$ 100 mil com solo cimento para garantir o não acesso de noias à fiação enterrada em quadras da avenida”, revela Sidnei Rodrigues.             

 

A Defesa Civil alerta para os riscos no contato com a fiação. Além dos furtos, a administração adverte para motoristas que estão desfiando a fiação que estoura e fica exposta nas vias. “Na última chuva em vários pontos da cidade aconteceu rompimento e muita gente passa com o carro por cima dos fios. Isso é muito perigoso. Se pega um cabo no outro, fecha curto circuito e as consequências podem ser graves”, aponta Josué.

 

Na favela, ‘gato’ é luz

 

Outro problema enfrentado na cidade é a fiação baixa em diferentes bairros, além de instalações clandestinas que favorecem a ocorrência de curtos circuitos e, em geral, provocam incêndios. Em algumas regiões, a instalação irregular de energia elétrica gerou uma linha de energia de apenas um metro de altura do chão. 

 

Na Favela do Jardim Europa o problema é antigo. Segundo o prefeito Rodrigo Agostinho, a concessionária CPFL teve boa intenção, há alguns anos, ao instalar postes com registro de consumo de energia elétrica nas imediações da ocupação irregular.

 

“A intenção na época, ainda antes do início de meu mandato, foi de eliminar a clandestinidade. Mas os postinhos foram instalados e bastou as contas começaram a chegar para que os moradores passassem a mudar as linhas com novos gatos, para não pagar pelo consumo. Isso gerou um cemitério de postes perto da entrada da favela”, menciona.

 

A administração municipal diz que a situação será regularizada com a remoção das 250 famílias que ocupam área de proteção permanente com moradias precárias na Favela São Manuel, Ilha de Capri e Parque das Nações. “Nós fizemos o cadastramento do local e o projeto foi incluído no Minha Casa Minha Vida, mas demorou para conseguir a documentação para liberação da área. Agora teremos de chamar a segunda colocada no processo de aprovação da construtora, porque a primeira colocada faliu. Aí vamos buscar a aprovação da construção das moradias, com infraestrutura, junto à Caixa, o que inclui iluminação e elimina os gatos”, disse.

 

Curto circuito

 

Moradores do Jardim América estão cansados de pedir que serviços de instalação de telefonia e TV a cabo sejam refeitos em ruas dos bairros. Caixas de distribuição do sistema, chamados de armários pelos técnicos, permanecem abertas em várias ruas, como a Edu Chaves e Aviador Mário Fundagem Nogueira. O problema se repete em vários outros endereços.

 

Além disso, moradores como Pedrina Egídio Pereira permanecem, por meses, preocupados com o perigo da fiação baixa. “O fio é baixo assim desde o ano passado aqui na rua”, fala a moradora da quadra 4 da rua Lázaro Rodrigues.

 

Enquanto isso, na Favela São Manuel, Valderez Virgílio segura o neto Hugo Gabriel, de apenas sete meses, no colo. “Eu tenho medo que ele acabe tocando os fios que estão tão baixos e no chão que até um bebê pode se acidentar. Ontem (quarta-feira) meu filho tirou um menino que ficou preso no cabo por causa da descarga. Isso está aqui na rua com altura de uma criança e com um monte de fiação emendada. Com vento leve já tem faísca aqui todo dia e sempre tem barraco pegando fogo na favela”, informa.

 

Com seu barraco incendiado recentemente, Valdelino Alves Pereira conta que não teve outra alternativa a não ser emendar fios para “restabelecer a energia”. “Tem muito curto circuito por isso, mas não temos o que fazer até ter moradia boa. Não dá para ficar no escuro”, lamenta.  

 

Cada um tem um fio

 

A CPFL Paulista não pode mexer em fios e cabos de empresas de TV a cabo ou telefonia e as manutenções e substituições de postes que possuem serviços compartilhados com as empresas de comunicação são programadas. Assim, cada um responde pelo seu fio no sistema. 

 

Apesar de não ter atendido aos pedidos de informação enviados pela reportagem, a concessionária vem orientando que a ocorrência de cabo de energia elétrica rompido ou caído no chão deve ser comunicado ao serviço emergencial da empresa pelo telefone 0800 010 1010, pelo e-mail  paulista@cpfl.com.br ou pelo site www.cpfl.com.br.

 

A Telefônica/Vivo realiza manutenções preventivas conforme as normas técnicas brasileiras e atende pelo número 103-15 o dia todo. A NET tem boa parte de sal rede localizada em áreas externas compartilhadas com postes de energia elétrica. O reparo nos cabos deve seguir procedimento por telefone (106-21), ou diretamente na Avenida Duque de Caxias, 466 – Jardim Marambá. A GVT atende, nos mesmos moldes, pelo 103-25.

 

O titular da Defesa Civil de Bauru, Álvaro de Brito, lembra que, apesar de não conduzirem energia elétrica, fios e cabos telefônicos não devem ser manuseados pela população porque podem estar desencapados e em contato com a rede elétrica, o que gera acidentes por descarga.

 

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