Numa ordem quase natural, em termos de mobilidade, inicialmente, aprendemos a andar, correr, andar de bicicleta. Alguns, mais abastados, ganham, ainda na infância, uma moto ou um carro motorizado como brinquedo. No entanto, costuma ser depois da maioridade o momento em que aprendemos a dirigir veículos motorizados, automóveis... alguns aprenderão a pilotar aviões, helicópteros, mas a maioria de nós, não tirará um brevé, mas uma carteira de motorista... e, ao mesmo tempo, utilizaremos - com mais ou menos frequência - o transporte público como ônibus, vans, metrô, trem... Seja dirigindo ou sendo ?levados? por um desses meios de transporte terrestres, todos, sem exceção, em algum momento já nos depararemos com uma cena semelhante a essa retratada na famosa Abbey Road com uma travessia - na faixa - de pedestres. Supostamente protagonizada, em 1969, pelos jovens Beatles, decorre dessa imagem e do nosso cotidiano, uma pergunta que tem me inquietado: se estivessem em algumas cidades do Brasil, como Bauru, eles teriam conseguido atravessar a rua pela faixa de pedestres, em segurança? Provavelmente, não.
Se a resposta é essa, surge outra pergunta: por que em outras cidades, como Brasília ou São Paulo, seria diferente e os motoristas parariam? Se o Código de Trânsito Brasileiro (1997) é o mesmo e válido para todo território nacional, por que ainda não funciona em cidades mesmo de porte pequeno ou médio? Talvez, seja porque não nascemos conhecendo todas as regras... Talvez, seja porque algumas normas de conduta no trânsito surgiram mais recentemente e não nos fomos avisados em todas as cidades... Por casualidade, vivi, nessas duas cidades quando o processo de (re)educação de pedestres e motoristas teve início a partir da tomada de consciência de que a regra era para ser cumprida. A primeira cidade ? Brasília ? promoveu essa mudança na década de 1990 e, a segunda, São Paulo, mais recentemente, em meados de 2006. Para começar, de fato, estamos falando de novas formas de comportamento de pedestres pois, os motoristas são, a priori, pedestres que, por uns momentos, se tornam condutores de carros, motos, ônibus, vans... Nesses instantes, ocorre algo interessante e até esperado: esquecemos que somos todos pedestres. Por isso, nessas duas cidades, inicialmente, foi necessário relembrar que somos pedestres que precisam ir e vir com segurança.
Foi exatamente desse modo que as campanhas publicitárias e as aulas de educação para o trânsito nas escolas, colônias de férias e eventos culturais deram início ao processo: passaram a difundir a informação de que, num importante esforço de convivência civilizada nas cidades, foi criada a faixa para que os pedestres atravessassem. Nesse lugar convencionado e devidamente sinalizado, antes de atravessar, o pedestre deveria sinalizar para os motoristas estendendo o braço para que vissem e soubessem que precisam parar. Esse sinal decisivo ficou apelidado pelas campanhas como ?sinal de vida?.
O motorista, por sua vez, ao ver o sinal, entende o que significa, para o automóvel e liga o ?pisca-alerta? para avisar àqueles que estão atrás que há um pedestre cruzando a rua pela faixa. Trata-se, portanto, de algo que ?parece? simples: cumprir uma regulamentação já existente. Exatamente nesse período de exercício do direito de escolha dos representantes que elaboram (Legislativo) e fazem valer as leis (Executivo), seria interessante pensar numa forma de acompanhar como reconhecem e as executam... quem sabe, começando por algumas que parecem tão simples, como esse artigo 70 do Código de Trãnsito Brasileiro que nos faz lembrar de algo simples: mesmo neste início de século XXI, somos todos pedestres (e cidadãos)!
A autora é professora doutora pela Unesp ? FC/Departamento de Educação