A economia brasileira está em situação desagradável, mas não à beira do desastre. Seja qual for o resultado da eleição, sua recuperação vai exigir ajustes importantes, mas nada que indique a necessidade de medidas que produzam uma recessão e de eleger o corte de empregos como objetivo. Não se deve ignorar o "querer mais" da sociedade brasileira que sente a melhoria no seu nível de vida. Setenta por cento dos cidadãos que clamam por "mudanças" temem o retrocesso dos bem sucedidos programas de integração social da redução da pobreza e da ênfase ao continuado aumento da "igualdade de oportunidades": ampliação do acesso à saúde e à educação, ambos precários, mas com avanços significativos!
Numa larga medida, a deterioração da economia foi causada pela mudança do ambiente externo não percebido a tempo pelo governo e que exigia uma melhor harmonia entre a política econômica e a social. A disponibilidade de recursos diminuiu a partir de 2010 quando o "vento de cauda" do exterior - a melhora das relações de troca - terminou. Uma parte significativa da deterioração fiscal é devida à dramática redução da taxa de crescimento do PIB interpretada como "falta de demanda" interna do setor industrial. Na verdade, ela não faltou. Foi substituída pela importação de produtos manufaturados, ainda uma consequência da sobrevalorização cambial. A perda do dinamismo do crescimento do PIB se deve, basicamente, à redução da produção de manufaturados nacionais. Na análise das contas nacionais é perceptível a cointegração entre indústria e serviços, que constituem 90% do PIB. Os outros 10%, que impactam tanto a indústria como os serviços vêm da agricultura que tem tido um aumento de produtividade de 3% ao ano, devido à Embrapa e aos Planos de Safra cada vez melhores. Até aqui, a alta dos preços externos a isolaram dos efeitos deletérios da valorização cambial. A má notícia é que a situação parece estar mudando devido à acumulação dos estoques mundiais e pela esperada valorização do dólar.
A situação da economia mundial é de lenta recuperação nos nossos clientes industriais (EUA e Eurolândia), o que atrasa um eventual "efeito câmbio"; é preciso convencer os exportadores que, daqui para a frente, a sobrevalorização cambial não será mais substituta das políticas monetária, fiscal e salarial no combate à inflação. O que se esperava dos dois competidores é que esquecessem o protagonismo teatral e deseducador que os "marqueteiros" lhes impuseram no primeiro turno e explicassem, claramente, como vão enfrentar o problema da volta ao crescimento. O aumento do PIB passa pela recuperação da produção industrial que, para aproveitar as economias de escala, precisa complementar a demanda interna de 200 milhões de habitantes, com uma exportação competitiva que absorva parte dos seus custos fixos.
Restando uma semana para as eleições, não tivemos resposta para ajudar na compreensão de três questões elementares: 1. Como aumentar a poupança pública, sem a qual todo o resto é mais difícil e instável? 2. Como atrair o setor privado para aumentar o investimento em infraestrutura e produzir um ambiente ecológico propício a que ele aumente o seu próprio investimento? 3. Como estimular a construção de mecanismos eficazes para devolver ao setor industrial o seu dinamismo exportador? O melhor espaço foi ocupado pelo "marquetismo" para vender sabonete!
O autor é economista, ex-ministro da Fazenda