Articulistas

A comédia do pastelão

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 3 min

A democracia brasileira deveria ter evoluído a um ponto em que os níveis de civilidade dos candidatos alcançassem padrões mais respeitosos. Numa disputa acirrada, como disse a candidata Dilma Rousseff, "faz-se o diabo" para conquistar os votos de quem ainda nem sabe para que lado pender. O empate técnico nas pesquisas de intenções de votos levou Dilma e Aécio à tática suicida de baixarem o nível da campanha. O objetivo seria os 12% de indecisos, suficientes para decidirem a disputa no fotochart - aquele método fotográfico usado em corridas de cavalo para identificar o animal que cruzou em primeiro a linha de chegada, nas disputas nariz a nariz. Depois do acontecido, os indecisos devem estar pensando que é melhor não votar em ninguém.

Dizem os americanos que "em tempo de guerra, a primeira vítima é a verdade". A guerra não precisa ter tiros. Antigamente, era ideológica. Hoje, apenas pelo poder. Se puder e enquanto puder. E a mentira nem precisa ser completa. Bastam insinuações não comprovadas. Um diálogo de ataque-defesa inventado pelos marketeiros, como se fosse real. A mentira repetida mil vezes vira verdade, gabava-se Joseph Goebbels, ministro da propaganda nazista. O que ele pretendia, no sentido prático, era provocar repercussões e instilar o ódio contra os inimigos políticos. A tática na política brasileira continua a mesma. Mal sabem os candidatos que é preciso respeitar a inteligência de milhões de brasileiros sensatos e que se mantêm integralmente lúcidos.

O País está diante de uma crise financeira internacional, cresce pouco e a inflação ameaça escapar. Deixamos de exportar, há pressões cambiais e o superávit primário, cada vez mais maquiado, é insuficiente para pagar os juros da dívida. Ambos os candidatos sabem que não têm como cumprir as promessas de campanha aumentando os custos sociais. Os preços administrados terão que ser realinhados. Os preços do petróleo despencaram, mas o etanol tem custos de produção cada vez maiores. Os usineiros vivem dependurados nos empréstimos do BNDES e, mesmo assim, terão que fechar as portas e deixar milhares no desemprego.

Como lamentava ontem nesta coluna o ex-ministro Delfim Netto, as questões que interessam ao País foram substituídas pelas agressões entre candidatos. Ambos preocupados muito mais com os seus projetos políticos. Vendem suas candidaturas na televisão como se fossem sabonetes. A campanha descambou e o perigo é a divisão do País e a oposição sem tréguas no próximo governo. Seja qual for o vencedor, com as denúncias que estão pendentes de apuração, o futuro presidente corre o risco de nem terminar o mandato. E ainda querem transformar a disputa eleitoral num confronto de pobres contra ricos, ou de uma região geográfica contra outra.

Em reportagem sobre o processo eleitoral brasileiro, o jornal espanhol El País chama a atenção para a simplificação da campanha, argumentando que o discurso de uma classe social contra outra está ultrapassado. Há ainda menos sentido nisso num país como o Brasil, que saiu do mapa da pobreza, na avaliação das Nações Unidas, e tem uma maioria de classe média. Foi dessa parcela da sociedade, que hoje tenta assegurar conquistas ameaçadas pela instabilidade econômica, que muitos jovens saíram às ruas lutando por mais qualidade de vida no cotidiano. Alguns pressupostos de um salto nessa área - como melhorias no transporte urbano, mais segurança, maior eficiência na saúde e na educação - seguem entre as aspirações dos brasileiros. Ainda assim, nem merecem o destaque apropriado por parte dos candidatos, que preferem o diálogo digno das comédias de pastelão.

Os dois partidos, que se enfrentam pela sexta vez, devem considerar que o desgaste que os atinge decorre também da incapacidade de fazer com que as idéias preponderem em relação às agressões. Nesta última semana, antes do encontro com as urnas, os candidatos ainda têm a chance de poupar os eleitores da repetição cansativa da atual tática do ódio. O vale-tudo ultrapassou o limite. O País merece um pouco mais de grandeza e sensatez para consolidar sua democracia e sobreviver aos momentos difíceis.

O autor é jornalista e articulista do JC

Comentários

Comentários