Bairros

"Ih! Esqueci! E agora?"

Dulce Kernbeis
| Tempo de leitura: 10 min

Dizem os entendidos do cérebro que esquecemos informações para que a gente continue a aprender coisas novas. Os estudiosos da mente humana, especialmente neurologistas, garantem que esquecer é fisiológico e que não é saudável guardar tudo e todos os detalhes de nossas experiências de vida. Afirmam ainda que o cérebro manda embora, faz uma seleção do que é importante ou não, joga fora experiências para podermos viver novas.

 

 É certo que o cérebro humano é um órgão bem seletivo. E se assim não fosse, teríamos muito mais problemas do que temos quando esquecemos algo.  Esquecer é normal. Assim como errar é humano. 

 

“Quem é você?”

 

Segundo a neurociência da memória, deletar fatos é de lei. Temos uma capacidade imensa no cérebro, milhares de neurônios que se regeneram, mas temos também que substituí-los, Por isso, mandamos embora memórias para esvaziar a mente e preencher com novos fatos. São dados, lembranças, acontecimentos, e até nos acostumamos com isso. 

 

Claro que é ruim a gente não se lembrar do nome daquela professora ou amiga de infância que chega lhe dando um abraço fraterno (você tem uma vaga lembrança) e perguntando pelo seu pai, sua mãe, seu filho... Aparenta saber tudinho da sua vida e você ali, com aquela cara de “ah é, é?”, sem nem sequer lembrar-se de onde conhece a figura, que dirá quem ela é? Atire a primeira pedra quem não passou por isso, ok? É horrível. A gente sabe disso. E a coragem numa situação dessas de perguntar - “desculpa, mas quem é mesmo você?”. Nessa hora a chave que abre o compartimento da coragem também está perdida. Some como num passe de mágica. Não é mesmo?

 

Há também o esquecimento de coisas que gostaríamos de lembrar. De repente o tempo passa e você se dá conta que não se lembra mais de tantos detalhes do casamento, do nascimento do filho, da formatura. Também faz parte e é da natureza humana. É preciso contar com as fotos, com familiares, com outros acontecimentos para poder, então, avivar essa memória e de novo ter a vivência esquecida de volta. E com ela o sentimento de satisfação proporcionado naquele momento.

 

Deixar coisas para trás

 

Se esquecer um acontecimento feliz do passado é ruim, é mais  terrível quando não apenas esquecemos um fato - aquela amiga quase desconhecida que nos perdoe! -, mas também esquecemos coisas, objetos que são importantíssimos nos dias de hoje. Exemplos: chave de casa, chave do carro, celular, documentos. 

 

Imagina chegar em uma praça de pedágio e descobrir que o dinheiro ficou em casa? Ou ir pagar uma conta em um caixa eletrônico e o celular que estava à mão e foi deixado de lado para poder digitar as senhas bancárias... ficar ali, inerte, você simplesmente virar as costas, com o dever de pagar sua conta cumprido e ir embora? Minutos depois, cenas de desespero. Você volta e cadê o celular? Claro, ficou sem seu aparelho. Bem ao estilo “achado, não é roubado”, ali não há mais nada. 

 

Achados e perdidos

 

Mas também há outro ditado:  “o malfeito um dia é descoberto”. Em outras palavras, o desaparecido nunca fica totalmente escondido, sempre aparece! Sim, pode ser encontrado. Para isso é preciso contar, claro, com a boa vontade de quem achou, com conhecidos nos bairros que fidelizam a clientela e, por isso mesmo, devolvem o que está esquecido e com um serviço que não cai de moda, o de “achados e perdidos”. 

 

237 documentos são entregues todos os meses nos Correios 

 

Não há muita diferença entre esquecer e perder. Pelo menos quando se trata de reaver o objeto. O caminho para consegui-lo de volta é o mesmo. 

 

Todo mundo tem uma história para contar sobre algum objeto importante esquecido. Em especial,  esquecimentos de objetos de conotação sentimental, aliança, anel, correntes, brinquedos, presentes, fotos, mas há  até (pasmem!) quem tenha esquecido de buscar o cachorro. E o que dizer de devolução de prótese dentária, a famosa dentadura?

 

“Isso mesmo. O objeto mais estranho que já tentaram deixar na agência foi uma prótese dentária”, conta a assessoria de comunicação dos Correios, onde funciona o mais famoso serviço de “achados e perdidos” de Bauru, para não dizer do Brasil.

 

Outro setor que rivaliza com o dos Correios no atendimento às perdas é o do departamento de Achados do Terminal Rodoviário de Bauru. E ali também há histórias até bizarras. “Um caso estranho que  ocorreu foi o esquecimento de um “galo” que estava na mala de um viajante. O galo começou a cantar e fazer barulho, sendo descoberto pelo funcionário”, informa a assessoria.

 

Apenas 'oficiais'

 

Alerta importante: os Correios só atuam na recuperação de documentos. Ocorre de pessoas devolverem ou tentarem devolver objetos como chaves, controles de alarme, óculos e  aparelhos celulares. Só que os Correios só fazem o recolhimento para o Serviço de Achados e Perdidos de documentos oficiais. “Quando se trata de outros objetos, os Correios não aceitam, pois não é possível efetuar o lançamento e cadastramento desses objetos no banco de dados.  Os documentos são cadastrados em um banco de dados interligado nacionalmente. Portanto, em qualquer cidade é possível saber onde o objeto perdido está guardado e isso pode ser feito via Internet”, alerta o responsável pelo setor, Maurício Claro. E acrescenta: “A coisa mais estranha que já tentaram deixar na agência foi uma prótese dentária (dentadura)”. Obviamente o funcionário não sabe dizer em que situação ela foi achada, visto que dentadura é algo mais fácil de se perder dentro de casa, no próprio quarto ou banheiro (quanto muito!).

 

Correios: tradição de 30 anos em guardar documentos perdidos; banco de dados digital tem alcance nacional

 

Todo mundo sabe: há mais de 30 anos, documentos extraviados podem ser encontrados nas agências dos Correios. O serviço de Achados e Perdidos dos Correios foi instituído no dia 1º de outubro de 1981 e tem como objetivo encurtar o tempo e reduzir o custo da busca por documentos perdidos.

 

Na verdade, não se trata apenas de documentos esquecidos ou perdidos. Há também o fruto de roubos e furtos. Quando a pessoa é vítima, costuma fazer boletim de ocorrência para se resguardar de eventuais lesões por atos feitos por pessoas que podem utilizar esses documentos. Como o ladrão costuma descartar documentos ficando só com o que havia de mais valioso em bolsas, mochilas e sacolas, a praxe de quem encontra é entregar nos Correios.

 

Os Correios constatam que o RG  e o Cartão de CPF são os documentos que dão mais entrada na Agência Central de Bauru. 

 

Colaboração

 

Os que encontrarem documentos de terceiros podem colaborar, depositando-os no guichê da agência ou em caixas de coleta, sem a necessidade de fornecer dados pessoais à empresa. A população pode ter acesso ao serviço de Achados e Perdidos em qualquer agência própria dos Correios. Uma vez recebidos, os documentos são acondicionados em envelopes e guardados na unidade, ficando disponíveis para retirada durante 60 dias. Após esse período, eles são devolvidos ao órgão emissor.

 

Comércio faz o ‘resgate solidário’

 

Se os grandes magazines, supermercados e atacados mantêm um acervo de objetos achados e perdidos em dia e, ao menos uma vez por ano, fazem doação para instituições de caridade dos objetos nunca reclamados (essa é a praxe), são os pequenos comerciantes dos bairros que mais sofrem com a precariedade da memória dos seus clientes. Mas, em muitos casos, são salvos pela fidelização dos clientes que, mais dia, menos dia, voltam ao comércio.

 

Um dos exemplos dessa fidelização está no Jardim Brasil, onde funciona uma farmácia de manipulação. Ali o esquecimento torna-se crucial. Imagine que o receituário de fórmulas têm 30 dias de validade e alguém tem que tomar essa medicação e durante 15 dias esquece de ir buscar o medicamento já pronto. Não é difícil isso acontecer. Para não ocorrer, as sócias da empresa, Heloisa Ventrilho e Roberta Solci, fazem questão de manter o cadastro dos clientes em dia.

 

“Não tem jeito, telefonamos mesmo. Avisamos que está pronto. Se a pessoa tiver dificuldade, contrata-se o serviço de entrega, porque na nossa área é fundamental a pontualidade, não dá para dar margem ao esquecimento.”

 

Mas nem tudo funciona assim. Rose Lopes, costureira na Bela Vista, conta dos inúmeros serviços que já fez e a cliente não foi buscar. “É chato porque não dá para esticar o tempo. No lugar de quem encomenda a costura poderíamos ter outro que vai pagar mais em dia. Nosso dinheiro e mão de obra são contadinhos”, diz. Dona Rose, que é bastante solidária, ajuda na Casa da Sopa e em outras atividades beneficentes da Igreja, não raras vezes faz doação de tecidos e reformas para pessoas carentes. “Isso porque está na papeleta da entrega que os não resgatados em 30 dias serão doados”.  

 

“Mas em geral eu espero bem mais, até um ano. Outro dia aconteceu de encontrar uma cliente no supermercado e eu fui logo perguntando: - ‘Você não vai buscar o uniforme da sua neta, não?’. Imagina que ela tinha esquecido, e já estamos no final do ano. No outro dia apareceu, veio buscar”, conta, rindo.

 

Ela também diz que as clientes sempre voltam. “Recentemente uma delas veio fazer uma barra de calça e há mais de seis meses tinha deixado um vestido para ajustar comigo. Era outra que nem se lembrava mais, mas a gente conhece as clientes né? Daí aconteceu que o vestido nem servia mais para ela. Resultado: me autorizou e já reformei de novo para minha filha, mas fiquei com o prejuízo da reforma né?” .

 

Casos de prejuízo

 

Prejuízo também grande é o de dono da vidraçaria do bairro Santa Edwirges. “Mesmo a gente cobrando 50% do valor no pedido, acabo ficando com muito serviço empatado”, diz Luiz Toledo, que tomou a medida após “levar muito calote em molduras de quadros e fotos. E como a gente vai vender um quadro com a foto de um casamento?”, diz, citando o caso em que o prejuízo é certo. “Se for espelho não, espelho não encalha e dá para vender e minimizar”, complementa.

 

Animais esquecidos movimentam rede

 

Se alguém encontrar na rua um animal “esquecido” pelo seu dono, pode se valer de um serviço que cresce cada vez mais: o de doação de animais “esquecidos”. Na verdade, na verdade, abandonados pelos seus antigos donos. Um esquecimento, digamos assim, voluntário. Numa rápida passagem pela rede social Facebook, só em Bauru há mais de uma dezena de grupos assim. Cada um deles com um mínimo de 200 membros e mais de 2 mil curtidas. E não raro, todos os dias um cãozinho ou gato encontra um abrigo, um novo lar.

 

O que diz a lei 

 

O consumidor tem prazo para buscar o produto na assistência técnica ou de consertos a contar da data do reparo. O Código de Defesa do Consumidor não prevê data para o consumidor retirar o produto da assistência técnica após o efetivo reparo. Isso é um trato entre as partes. E precisa estar bem explícito. E estando escrito na O.S. - Ordem de Serviço, torna-se que a assistência técnica, por exemplo, estipule um prazo para a retirada do produto após o reparo. Esse prazo deverá ser respeitado pelo consumidor. A doação ou simplesmente o descarte após o prazo é amparada legalmente porque supõe-se que, quando fica em qualquer estabelecimento para reparo, melhoria, troca, orçamento, avaliação e não é retirado, pode-se pensar que houve o abandono do bem.

Terminal Rodoviário é um caso à parte em ‘achados e perdidos’

Um dos locais que tem um setor de Achados e Perdidos dos mais eficientes é a Rodoviária de Bauru. Nele, diversos objetos são mantidos até que o cliente venha reclamar. Paulo André, gerente de Intermodais da Empresa Municipal de Desenvolvimento Urbano de Bauru (Emdurb) que administra o terminal deixa claro também que “documentos são os objetos mais esquecidos. Já celulares são mais difíceis de resgatar, tendo em vista que o cidadão deixa a bagagem, mas mantém o celular sempre em mãos”. E não há caso de esquecimento recente de celular.

 

O acesso ao setor é simples e tudo é cadastrado. Mas é preciso que quem esqueceu o objeto se identifique e prove que é seu.

 

Cão esquecido

 

Paulo conta um caso curioso: “Em certa ocasião, o cidadão deixou um cão, que não poderia  embarcar, devido à  falta de autorização. Deixou avisando que viria buscar depois, mas não o fez, quando então acionamos o setor de Zoonoses (CCZ - Centro de Controle de Zoonoses da prefeitura), que o recolheu”. A princípio, esse animal nunca foi resgatado pelo dono viajante. “Outro caso foi o esquecimento de um galo, que estava na mala, o qual começou a cantar e fazer barulho, sendo descoberto pelo funcionário”, lembra também Paulo.

 

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