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Uma nova visão de cidade

Archimedes Raia Jr.
| Tempo de leitura: 3 min

Paris, cidade luz. Ela é chamada de cidade luz porque durante muitos séculos as mentes mais iluminadas, dos mais variados campos do conhecimento, eram para lá atraídas, podendo-se citar expoentes como Van Gogh, Pablo Picasso, Santos Dumont, Frédéric Chopin, dentre outros. Na Paris de hoje a iluminação continua.

Em dias úteis, em Paris, mais de 40% dos deslocamentos diários são feitos a pé e por bicicleta, índice similar ao de muitas cidades brasileiras. Porém, os motivos que os originam são distintos. Enquanto que no Brasil grande parte deste contingente usa esses modos por absoluta falta de opção, inclusive para distâncias que extrapolam em muito o recomendável, em Paris a antelação é voluntária.

Na capital francesa, a escolha ocorre devido à disposição da cidade em oferecer ambientes seguros aos pedestres e ciclistas que, em anos passados, respondiam por mais da metade das mortes em acidentes de trânsito. O Vélib, serviço público gratuito de empréstimo de bicicletas, criado pela prefeitura parisiense, inaugurado em 2007, possui 10 mil bicicletas e 750 estações automatizadas, além de 400 km de ciclovias.

A opção pelos modos mais sustentáveis teve início pela mudança de paradigma, a partir da priorização dos modos não motorizados em relação aos motorizados individuais. A criação de espaços públicos, nos últimos anos, alavancou a mobilidade parisiense, possibilitando que as viagens a pé e por "bike" passassem a ser realizadas com conforto e segurança.

Áreas de estacionamento foram transformadas em amplos passeios e calçadas, ciclovias, áreas públicas e bicicletários. Enfim, espaços destinados anteriormente aos carros estão sendo devolvidos às pessoas, se constituindo em locais de encontro, relacionamentos e lazer.

Adicionalmente, essas ações foram associadas à implantação das chamadas "Zonas 30". Por quê? Limites de velocidade de 30 km/h salvam vidas. Desde a criação da primeira Zona 30, por meio de um projeto piloto na cidade alemã Buxtehude, em 1983, que inúmeras cidades europeias e americanas passaram a adotá-las. Em todos os locais onde elas foram regulamentadas, a quantidade e a severidade dos acidentes foram significativamente reduzidas.

Ao final de 2013, Paris possuía 560 km de sistema viário em Zonas 30, 33% das vias parisienses. A prefeita Anne Hidalgo, em função dos resultados positivos, explicitou seu desejo de aumentar essas áreas, reduzindo para 30 km/h o limite de velocidade em quase toda a cidade. É óbvio que tudo isto pressupõe a existência de sistemas de transporte coletivo de qualidade.

Além de aumentar a segurança dos pedestres e ciclistas, e reduzir a morbimortalidade no trânsito, a medida contribui para mitigar a poluição, pois ela é um incentivo para que um número maior de pessoas escolha realizar seus deslocamentos a pé ou por bicicleta. Com isso, tem-se menos carros congestionando as ruas. Os espaços roubados pelos automóveis precisam ser devolvidos às pessoas. Alguns podem dizer: pura utopia! Mas, por que será que tudo o que dá certo em outras plagas é utópico no Brasil?

O autor é doutor em Engenharia de Transportes e especialista em trânsito, professor da UFSCar, diretor de Mobilidade da Assenag e articulista do JC

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