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Fim da racionalidade?

Luiz Antonio Lopes Ricci
| Tempo de leitura: 3 min

Algumas mensagens divulgadas nas redes sociais durante a campanha presidencial, sobretudo nos dias que precederam o segundo turno, me fizeram recordar uma conversa que tive com um colega sacerdote, doutorando em filosofia. Era uma manhã de inverno, em Roma, caminhava com ele em direção ao metrô, tendo como destino a Universidade, na estreita calçada da Via Aurélia. Dialogávamos sobre algum tema que nos preocupava, não me recordo qual. Num determinado momento ele me disse: "Ricci, enquanto houver racionalidade saberemos resolver as questões e o mundo estará salvo". Além dessa fala, que naquele momento me tranquilizou, recordei-me também do filósofo Descartes, cuja sentença é bastante conhecida: penso, logo existo!

A questão central que gostaria de colocar é a seguinte: como explicar que pessoas esclarecidas, dotadas de racionalidade, são capazes de repassar ou encaminhar, nas redes sociais, textos, "notícias", boatos e mensagens sem autoria e verificação da veracidade da informação, de modo quase mecânico, sem uma análise crítica e busca da fonte? Confesso que fiquei preocupado. Seria o fim da racionalidade? A Internet está roubando a nossa capacidade de refletir e de pesquisar? À luz da ética estamos diante de uma questão crucial para garantir a verdade e a boa convivência entre os semelhantes, independentemente da orientação política e partidária. O cidadão tem um compromisso primeiro com a verdade e posteriormente com o partido e candidato(a). Sem esse pressuposto a convivência harmoniosa, tolerante e respeitosa fica comprometida e, por conseguinte, a democracia autêntica.

Dentre tantas inverdades e acusações utilizadas durante a campanha eleitoral e propagadas nas redes sociais, pelas duas partes e respectivos partidários, que merecem repúdio e indignação, gostaria de destacar apenas uma - de modo ilustrativo e imparcial, por ser bastante emblemática - que foi lançada no dia da eleição, não se sabe por quem, mas certamente repassada por muitos. Trata-se da "notícia" da morte do doleiro Alberto Youssef. O texto, sem autoria, dizia que a fato era verdadeiro e que seria anunciado apenas após o término da votação, indicando até a causa mortis e o possível culpado. Pois bem, a notícia se espalhou justamente no dia em que a serenidade era fundamental para o exercício do nobre direito de votar. Pergunto: após a notícia ser oficialmente desmentida, será que aqueles que a repassaram tiveram a responsabilidade ética e a virtude da humildade de enviar aos seus contatos um pedido de desculpa por repassar algo não verídico? Se alguém o fez, parabéns! Seria o mínimo que a racionalidade ética exigiria neste e em tantos outros casos semelhantes.

A responsabilidade deriva da ética. Quando repasso uma mensagem, sem verificação da autenticidade, estou colaborando para a difusão de algo duvidoso ou mentiroso. Antes de repassar urge verificar a autenticidade. Sem essa atitude nos comprometemos, perdemos a credibilidade, prejudicamos pessoas e colaboramos para criar um clima contraproducente de tensão e de boatos. Sem contar que podemos ser vítimas da mesma armadilha. Cabe recordar o que nos ensinou o Mestre da Verdade: "faça aos outros o que gostaria que fizessem a você" (Mt 7,12). Eis a "regra de ouro", infelizmente um pouco esquecida nos dias atuais.

Por fim, volto ao meu colega filósofo: prefiro confiar na racionalidade. A emoção desmedida não pode colocar a verdade em segundo plano. Por essa razão, a pergunta de Pilatos segue atual: "o que é a verdade?" (Jo 18,38). Penso que tudo é um aprendizado. Quais as lições que tiramos da realidade que acabamos de vivenciar? Como posso utilizar de maneira ética as redes sociais, um valioso instrumento de comunicação da verdade, do bem e do amor? Passado o calor das eleições, que por vezes pode ofuscar a nossa racionalidade, volto àquela manhã fria de inverno e renovo minha confiança no ser humano e na sua racionalidade. O que nos cabe agora é cicatrizar as feridas e rezar para que os eleitos e eleitas tenham um bom e profícuo mandato, pautado pelo bem comum.

O autor é pároco da Paróquia de São Cristóvão e diretor da Faculdade João Paulo II

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