Bairros

A vida passa, os botecos ficam

Dulce Kernbeis
| Tempo de leitura: 13 min

O que faz o sucesso de um boteco?  Para alguns é o chope bem tirado, para outros é a cerveja estupidamente gelada. E o que dizer dos quitutes? O bolinho, os aperitivos? Ah! Pode ser a música também, não é? Mas em alguns bares, nada disso é o que atrai tanto. Tem os que não se destacam por algo único em especial, e sim o todo. E existem os que têm algo em comum: seus proprietários são a razão do local existir. 

 

Carismáticos, Fernando, Jovito, Orlando, entre outros, têm a mesma característica: são capazes de transformar cada cliente em um amigo. Cada frequentador vira praticamente um membro da família. Também têm em comum o fato de que trabalham todos em família. Muitos passam de pai para filho.

 

Tradicionais e de nomes divertidos

 

Um dos mais antigos bares de Bauru, que já foi uma mercearia, foi totalmente reformulado e assumiu sua tradição “botequinzeira”. Ele está na parte alta do Jardim Bela Vista, bem próximo à caixa d’água do DAE.  

 

Aliás, aqui vai um parênteses: este bairro é um dos mais bem servidos por bares. Não há levantamento estatístico, mas com certeza está entre os primeiros quando se fala em quantidade de estabelecimentos. E muitos deles tradicionais, mesmo, ou famosos e divertidos. É o caso do nome de um deles - Bar do Brocha, nos altos da rua Alto Acre, perto da casa de carnes. Botequinho pequeno, simpático, com o novo dono tendo assumido há apenas três anos. Mas que prima, claro, pelo nome divertido. Ou esconde. Se você perguntar, todo mundo saberá onde e que existe o bar do brocha, mas não, não está estampado na porta - aliás, o slogan que mais aparece ali é o de uma pet shop. Compreensível, não é mesmo?  

 

Tradição jornalística

 

E existem aqueles que se perpetuam por gerações de profissionais. No caso, os jornalistas e seus companheiros de trabalho. Trata-se do Bar do Hélio, reduto dos jornalistas e funcionários da TV Bauru, depois TV Globo Oeste Paulista, depois TV Modelo e agora TV Tem. Um ícone na praça dos Expedicionários. E que resiste estoicamente com o mesmo layout há pelo menos 30 anos. E modernidade não falta naquela região. Por ali já passou (e não ficou, a bem da verdade) o Botequim das Oliveiras. E o Bar do Hélio resistiu. 

 

Agora, logo na “portaria” do bairro, a praça da Bíblia, acesso pela rotatória do viaduto da 13 de Maio, se instalou o bar e restaurante do Paulinho Payakan. Também tradicional, que trocou a região da avenida Duque de Caxias pelo “Belão”, como o bairro Bela Vista também é chamado. Está em instalações mais modernas e mais nobre. Mas as porções e a comida oriental continuam sendo o seu forte.

 

Opções variadas para o público

 

Se há algo que o bauruense não pode se queixar é de falta de opções para sentar e jogar conversa fora, fato que está incluído na própria designação da palavra boteco.  Sem contar que, além de ser elemento agregador, boteco também é socializador e democrático porque iguala todas as pessoas. Bauru, em todos os níveis e em seus quatro cantos, é bem servida de bares e botecos. É também cheia de histórias dos que se perpetuam há décadas, com uma veia específica. Está aí o Armazém Bar (que por sinal, é bem mais do que um bar ou um boteco, pode ser considerada uma casa noturna com veia roqueira que se perpetuou). 

 

E também a cidade é useira e vezeira em ter bares daqueles que passam rápido mas marcam época. Caso do Bar Imprensa (talvez cultuado por ter esse nome e ser reduto de intelectuais) e o queridinho dos universitários, o Bar do Espanhol, que fez história e já fechou as portas (num passado não tão distante, e em 2011 estava a todo vapor). O Espanhol não nos deixa mentir.

 

Num passado um pouco mais remoto está também um “boteco cult”, o Bar do Epa, que nos anos 80 e 90 fez história como reduto de políticos. Seu dono acabou virando empresário, dono de uma rede de comida brasileira rápida, com franquias em todo o país.

 

Botequim, boteco, baiúca, birosca

 

Boteco, botequim, baiúca, bodega, botequim, tasca, birosca, muquifo - tudo é sinônimo de famoso “bar do pé sujo”. Ou seja, são bares simples, onde as pessoas vão geralmente para beber e conversar. 

 

Boteca e botequim são termos oriundos do idioma português de Portugal e  do espanhol da Espanha, bodega. Os termos por sua vez derivam, os dois, do grego apothéke, que significa depósito.

Em Portugal a botica era um depósito, ou loja onde se vendiam mantimentos e miudezas, mesmo significado se atribui à bodega espanhola. 

 

No Brasil, o boteco ou botequim ficou tradicionalmente conhecido como lugar de encontro entre “boêmios”, onde se procura uma boa bebida, petiscos baratos e uma boa conversa sem compromisso.

 

Função de igualar

 

Além de ser agregador, estudos mostram que o boteco tem o poder de transformar todos os seus frequentadores em iguais. Ou seja, tem efeito democrático. No boteco todos são tratados da mesma forma, têm o mesmo objetivo e trazem a mesma linguagem: passatempo puro e simples. Do ponto de vista social, além de agregador, aglutinador um boteco funciona como escamoteador das desigualdades econômicas, culturais e sociais existentes na vida do seu frequentador.

 

Estabelecimentos são ‘trintões’

 

Como em muitas cidades, em Bauru bares novos abrem e fecham numa velocidade impressionante. Nesse vaivém, alguns conseguem se manter por terem diferenciais.  Porém, é coisa rara encontrar quem sobreviva por mais de 10 anos. Mas nós achamos. E  mesmo trocando de mão, a história deles continua.

 

Bar do Fernando

 

É lá no bairro Bela Vista que fica o “Bar do Fernando”. Com ares mais modernos, TV de última geração para agradar a todos os clientes amantes do futebol, revestimento interno em todas as paredes, parece uma franquia moderna. Engano.

 

 Se a gente olha logo atrás do caixa, “saltam” duas coleções: uma de garrafas de aguardente e outra de canecas de chope. As canecas são bem antigas e caracterizam as décadas de 70 a 90.  Através delas fica evidente que aquele é um “boteco antigo, da época do pé sujo”.

 

Mais de trinta

 

E é mesmo. O  Bar do Fernando abriu suas portas em 22 de novembro de 1982, há quase 32 anos. E quem dá nome ao bar é o Fernando Pereira Lima, um pernambucano que veio de Triunfo “cidade mais alta e mais fria de Pernambuco”, faz questão de enfatizar. Veio trabalhar na construção civil  e primeiro morou na região do Parque São Geraldo, até se estabelecer definitivamente na região da Bela Vista, onde está o bar, na rua Carlos Marques. “Comecei pequeno e minha casa chegou a ser aqui”, lembra ele de trás do balcão, onde em plena noite de terça-feira as mesas estão todas lotadas. Ele abre às 9h da manhã e funciona até 23h. “Quando está no verão, noites muito quentes, a freguesia fica um pouco mais, mas em geral é nesse horário que fechamos”, diz ele, para lembrar que até o ano 2000, além do bar funcionava ali também uma mercearia. Aí, 5h30 da manhã ele já pegava no batente. 

 

Integração

 

Totalmente integrado na “paisagem bauruense”, o pernambucano Fernando diz que só volta para o Nordeste para passear: “Aí até vai”, diz. Afirma que gosta mesmo daqui e não tem do que se queixar. De fala mansa e muita empatia com a clientela, Fernando tem muita história para contar. Mas isso é assunto para levar à mesa de um boteco...

 

No bar, ele recebe tudo à vista. Tem pouco fiado, não leva calote e, para melhorar, “nunca tive uma briga aqui, nem por política, nem por futebol”, garante, com ar de satisfação.

 

O segredo do sucesso? Pode estar no carisma dele, no atendimento, no esforço em família mas ele credita aos quitutes da cozinha. Lá ficam a mulher e o filho Paulo César, de 33 anos, que reforçam o cardápio e fazem tudo com o carinho como se fosse em casa. “O cliente gosta dos bolinhos”,  diz, modesto, sem acreditar que gostam mesmo é dele, de suas histórias e sua simpatia. 

 

Bar do Lori vira do Nico: 44 anos de história

 

Igualzinho ao Fernando, Lorival Martinez Silveira viu o bairro se desenvolver sob seus olhos. Quando ele montou seu estabelecimento na rua Piauí, no Higienópolis, próximo ao Sesc, não havia quase nada naquela região. 

 

“Fui criado trabalhando com hortifrutigranjeiros, entregava jornal, então a escolha pelo bar foi natural. Nesta quadra só tinha minha casa. Até o Sesc ali embaixo era só mato, e daqui até a Cruzeiro do Sul (avenida) também não tinha nada”, mostra ele, apontando para os 200 metros que o separam da avenida, agora cheios de casas e pequenos edifícios ocupados por universitários.

 

“Comecei como mercearia N. Sra. Aparecida, em 1970. Depois virou bar, mas imagina que o Sesc só veio a existir depois, na década de 80”.

 

O bar fica anexo à sua residência. Ali ele criou quatro filhos, dois homens e duas mulheres, mas nenhum deles seguiu a tradição familiar. Cansado, há quase quatro anos transferiu o ponto para Nico. 

 

Nico, apelido de Cosme Blay, está mantendo a tradição, sob os olhos de Lori, que morando ao lado funciona como embaixador. Hoje já introduziu algumas modernidades, como o espetinho na porta. E se orgulha de ser um bar sossegado, aliás, Lori lembra que “em 40 anos nunca veio um único policial na minha porta”, pois não foi necessário. Nico tem experiência na área  porque já dirige outro estabelecimento do ramo no Jardim Guadalajara. Ou seja, tem expertise para continuar, talvez, por mais 40 anos.

Trabalho em família garante sucesso

De onde vem a tradição da cidade? Poucos sabem, mas uma coisa é certa: os bares mais famosos sempre tiveram o trabalho em família em destaque. Também se sabe que Bauru já tinha seus bares e botecos tradicionais desde os tempos em que era referência ferroviária, ninguém duvida. Ao lado da padaria da Praça Machado de Mello, vários deles disputavam a preferência de quem ia embarcar ou chegava pela antiga estação ferroviária. Sabe quando? Lá por 1910, 1920. Nos primórdios da grande Bauru como entroncamento ferroviário. 

 

Bauru hospitaleira era o chão de passagem para o oeste, para o Mato Grosso e ligação com a capital São Paulo. E, claro, isso combinava com hotéis, pensões,  bares, restaurantes e botecos. Muitos botecos.

 

Quase 80 anos depois, anos 2000, não é que Bauru tinha continuado sua tradição botequeira? Também com a vocação universitária grande, há a  mudança de perfil. E jovem, estudante e boteco têm tudo a ver. De lá para cá esse binômio estudante/barzinho só se fortaleceu. Hoje eles se concentram também bem próximos aos centros universitários. 

 

Resistência histórica

 

O que não quer dizer que muitos não resistam ao tempo: especialmente no Centro antigo da cidade. É o caso do La Tasca. Incrustrado na parte baixa do Edifício Carmen, praticamente na esquina das ruas Agenor Meira com Ezequiel Ramos, o bar é administrado há 26 anos por Jovito Lopes de Oliveira. “Quando chegamos aqui eu não tinha 10 anos”, conta a filha de Jovito, Érika Malanini Lopes de Oliveira, de 36 anos. Ela ajuda o pai e a mãe Ida no atendimento à freguesia.

 

É bom deixar claro que para acompanhar o horário comercial, o bar abre um pouco antes para servir o café dos trabalhadores e, que a rigor o consumo de cerveja mesmo começa após as 11h, “quando vem os aposentados, os que podem dormir até mais tarde. E no final da tarde, na hora do fechamento comercial, o local ferve”.

 

O bar existe desde 1972 quando o edifício foi inaugurado, segundo a moradora do primeiro andar, justamente dona Carmem, que dá nome ao prédio. São mais de 40 anos que o local serve à clientela. 

 

Tranquilidade 

 

E nestes mais de 20 anos, Jovito, que é cearense e antes de aportar em Bauru morava e já trabalhava com bar em São Paulo, viu muita coisa mudar no Centro da cidade. Ele recorda que chegou “no paraíso quando vim para cá. Bauru estava se desenvolvendo, era ótima, uma tranquilidade, a convivência com todos era excelente”. 

 

Ele reconhece que o centrão perdeu boa parte do glamour e, aos 71 anos, não cogita ir para uma zona mais nobre. “A gente tem uma clientela fiel e o mais importante é que construí muitos amigos”, conta Jovito. 

 

Um deles é o aposentado Dias Augusto Daré, frequentador do Bar La Tasca desde 1973. Aliás, La Tasca, quer dizer em espanhol “o boteco”. E Darezinho, como é chamado com intimidade, fala que o segredo da longevidade do bar está justamente na amizade, na convivência diária e na receptividade do dono do bar.

 

Felicidade

 

Nestes mais de 30 anos, Jovito também é daqueles que nunca teve problemas policiais. “Bebum aqui não, não temos disso”, conta ele. Com riso fácil, contador de histórias, Jovito cativa a clientela. Às vezes não dá para saber se o que está falando é brincadeira ou verdade. Outro dia mandou um amigo/cliente comprar queijo numa casa de venda de ração para cães próxima dali. “Ele foi, e claro que não encontrou”, conta a filha. Ele se diverte com a história e ri muito pela “palhaçada que aprontou com o outro”. Brincadeiras inofensivas, claro. Mas felicidade mesmo ele teve quando um dos seus amigos ganhou o primeiro prêmio da loteria federal. “Faz tempo e ele até já morreu, mas aproveitou o prêmio. Era um cliente que mesmo tendo mudado para Arealva vinha a Bauru todo final de semana. Na sexta-feira ele comprou três pedaços do bilhete até para ajudar o bilheteiro, o seu Agustinho, famoso. Na semana seguinte quando voltou, eu contei que ele havia ganho”. Mas como Jovito é muito brincalhão, o cliente só acreditou quando foi à lotérica. “Três frações premiadas deram um bom dinheirinho. Ele ainda demorou para morrer, viveu mais alguns anos, com certeza viveu melhor”.

 

Bar do Tatu

 

E se trabalhar em família é garantia de sucesso, o bar de Antonio Carlos Santos, no Jardim Marambá, pode se preparar para comemorar mais 20 anos de sucesso. Ah! é bom lembrar o leitor que Antonio é o Tatu, apelido que dá nome ao bar.

 

A casa tem uma peculiaridade, além do churrasquinho na rua pilotado por um cunhado do Tatu, o Helton Canho, que trabalha há 18 anos em família, não fecha nem um dia. Trabalha de segunda a segunda. E fica sempre lotado. O horário de funcionamento da casa é a partir das 16h, ficando aberto até 23h30 nas noites mais quentes.

 

Ah! sem querer provocar a discórdia em família, apesar do churrasquinho e grande saída de porções, o dono Antonio diz que não sabe o porquê do sucesso. “Começamos com afinco e aconteceu” comemora.

 

Doze horas de trabalho

 

O mesmo cuidado de deixar o café prontinho logo cedo para a clientela tem a dona Diva Caviquioli Cruz, 83 anos, que divide com o marido Orlando Cruz, de 88, e o filho Guto, Antonio Augusto Cruz, de 53 anos, a administração do bar do Orlando, na Vila Cardia, em frente à Tilibra.

 

Os pais de Guto acordam às 5h30 da manhã e às 6h30 já estão com o bar aberto. Dona Diva vai dormir entre seis e sete da noite, doze horas depois de começar o turno. Mas o bar fica aberto até as 21h, sob o comando do filho. 

 

O que leva dona Diva a fazer essa jornada extenuante? “É só assim que sei viver, mais da metade da minha vida passei aqui”. De fato, atendendo à clientela fiel especialmente os da fábrica ali próxima ela  fica feliz. 

O bar, que é tradicionalíssimo, tem também uma homenagem ao radialista já morto Walter Neto. No local, uma placa lembra que ali funcionava o “escritório do Walter Neto”, que apresentava programas sertanejos na madrugada. Nada melhor que ter o amigo, o locutor preferido, como frequentador assíduo de suas cadeiras, não é mesmo?

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