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Com os braços entrelaçados aos do namorado, a adolescente de 15 anos parecia assustada. Perambulou por ruas de Bauru sem dormir por mais de 72 horas. Na frente da Central de Polícia Judiciária (CPJ), o reencontro colocava fim ao drama da família, que ficou todo esse tempo sem notícias. A decisão de se tornar “invisível” ao fugir de casa seria, segundo ela, por várias brigas com a mãe. O caso registrado na semana passada é um exemplo perfeito da maioria dos desaparecimentos em Bauru.
Levantamento detalhado realizado pela Polícia Civil da cidade aponta que, nos últimos cinco meses, 100 casos de desaparecimento foram registrados. Média de 20 pessoas por mês. O número é grande, tanto que a Delegacia Seccional de Bauru elaborou novo protocolo para tratar dessas situações (leia mais abaixo).
Contudo, a análise caso a caso revela um contexto diferente do que é explicado pelos números frios. “A maior parte dessas pessoas não queriam ser encontradas”, explica o delegado Kleber Granja, da Delegacia de Investigações Gerais (DIG), responsável pelo levantamento.
Do total de casos resolvidos (87), apenas em seis deles, a pessoa havia sido vítima de algum crime, algo em torno de 7%.
O estudo demonstra que, da centena de casos, 47 foram da faixa etária entre 12 e 18 anos. “Tem como padrão o fato de eles não aceitarem regras básicas de comportamento fixadas por seus pais”, detalha o levantamento.
É neste ponto que surge a questão da rebeldia própria da fase de adolescência. “Temos casos de envolvimento do adolescente com drogas, meninas que saem de casa por causa do namoro e outros que querem a atenção de pais e amigos. São casos em que o desaparecimento dura, no máximo, uma semana”, complementa o delegado.
Do universo de 47 casos, quatro tiveram relações com crimes – dois relacionados com abandono, um com estupro e um com lesão corporal.
A faixa etária muda, mas a tendência se mantém. Entre 19 e 39 anos, foram 40 casos. Só dois tinham ligação com crimes. A maioria decidiu abandonar a família. “Uma grande parte tem relação direta e estreita com o uso de crack”. Outros estavam presos e a família sequer sabia (leia mais abaixo).
E, no período analisado, foram registrados 13 desaparecimentos de pessoas entre 40 e 65 anos. Problemas de saúde e desgaste dos laços familiares também fizeram com que essas pessoas fossem embora sem mais dar notícias.
87 encontrados
Da centena de casos levantados pela Polícia Civil, 87 pessoas foram encontradas. “A análise de caso a caso nos permite direcionar o trabalho e até mesmo nos aperfeiçoar para casos futuros”, explica Kleber Granja. “O passo inicial da nossa investigação é traçar o perfil. É isso que direciona o nosso trabalho, já nos dá ideia da gravidade e até indica locais de busca”, complementa.
O delegado afirma que os índices de reencontro sempre foram altos. Contudo, muitos ficavam sem comunicação à polícia. Porém, conforme o JC noticiou em junho 2013, um investigador exclusivo foi designado em Bauru pela Seccional para acompanhar os casos e fazer contato periódico com as famílias. “Essa intervenção policial foi positiva de todas as formas. Até ajuda em outros crimes. A família que se sentiu ajudada passa a colaborar mais conosco dando informações sobre outros crimes graves, como um homicídio, por exemplo”, finaliza Granja.
Protocolo
Desde maio, a Polícia Civil de São Paulo adota um novo procedimento para investigação de desaparecimentos. Antes da medida, os casos registrados eram divididos entre os Distritos Policiais. Apenas as ocorrências mais graves ou com indícios de crimes eram levadas à DIG.
A partir da publicação da resolução pela Secretaria de Segurança Pública, os casos foram centralizados. É elaborado um Procedimento de Investigação de Desaparecimento (PID).
Em convergência com as mudanças, a Seccional de Bauru e a DIG criaram novo protocolo de ações, que agiliza apurações.
O ‘mito das 24 horas’ precisa ser derrubado
Quanto tempo é necessário para registrar o desaparecimento de uma pessoa? “O que o familiar julgar”, é o que afirma, de forma direta, o delegado Kleber Granja. Ele, deste modo, derruba totalmente o “mito das 24 horas”.
Existe, na população, um senso comum de que é necessário esperar, no mínimo, um dia para que o caso se configure como desaparecimento. “Isto não é verdade. E, além de não ser verdade, é algo que nos prejudica muito”, complementa Granja.
Crianças
A preocupação se torna ainda maior com crianças. “Se colocarmos em uma escala de 0 a 100, os casos envolvendo crianças já começam com essa escala em 100. Quando uma criança some é sempre alarmante. Foi o que ocorreu no caso Vitória [Graziela Fernandes, menina de 6 anos que desapareceu e foi carbonizada pelo ex-namorado da mãe em maio de 2012]. Por isso, o desaparecimento de criança deve ser alertado um minuto após o fato”, aponta o delegado.
Para psicólogo, melhor saída é sempre o diálogo
Todo dia, as pessoas convivem com problemas e conflitos. Mas o que leva alguém a decidir romper laços e sumir? “Geralmente, é uma crescente de insatisfações”, explica o professor do departamento de psicologia da Unesp de Bauru, Sandro Caramaschi.
Segundo ele, isso vale para todas as idades, contudo, é mais marcante aos jovens. “A juventude é uma fase de conflito. E os jovens são muito extremados. Os pais precisam conhecer seus filhos melhor”.
Porém, a recíproca é – se não na mesma proporção – verdadeira. “Pais também podem se desiludir com a família, inclusive com os filhos, e decidir romper laços. Outro motivo que faz com que as pessoas de mais idade sumam é o excesso de dívidas. Ver no sumiço a única maneira de recomeçar”.
Em todos os casos, Sandro Caramaschi explica que a melhor solução é sempre o diálogo. “As pessoas têm que dialogar. Elas têm que saber que simplesmente sumir trará um sofrimento enorme para todos. Há alternativas para independência maior. Tudo tem que haver diálogo”, finaliza.
Achados... pela Justiça
Entre a faixa dos que somem entre os 19 a 39 anos, há uma peculiaridade. Segundo a Polícia Civil, em muitos casos, a família realmente não tem notícia dessas pessoas. O motivo? Eles transgrediram a lei e estão presos ou foragidos.
Foi o caso em que uma mãe comunicou o desaparecimento de seus dois filhos há anos. Ela descobriu que ambos estavam condenados. Um deles, preso, e o outro, foragido.
