Tribuna do Leitor

Uma luta chamada Gisele


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Quando conheci Gisele Moretti, confesso que achei a figura meio maluca. Primeiro pela alcunha pela qual se apresentava: era "Gisele do Ferradura" ? sem armas e sem drogas, aquela grande mulher de 1,50m liderava um dos bairros mais perigosos de Bauru.

Envergonhado pelo julgamento, mas ser humano que sou, confesso que mantive o pé atrás quanto à sanidade de Gisele ? a achava meio doida.

O tempo passou e fui conhecendo os esforços empenhados por aquela Gisele do Ferradura em suplantar o sofrimento dos seus iguais. Ou nem tão iguais assim. Não importa quem seja ? conhecido ou não -, Gisele sempre vai estar pronta pra ajudar.

Em paralelo a isso, desde sempre conheço Dona Neusa. Ou não a conheço tão bem assim. Moradora de rua, tem no estacionamento do supermercado, na feira e na missa de domingo de manhã o sustento de seus filhos e netos ? uma das filhas, sofredora do vício do crack.

Aos 60 anos, sua história de vida se perde em meio a memórias confusas de alguém que já sofreu muito. Não a conheço tão bem assim, mas Neusa nunca foi invisível aos meus olhos. Sempre soube que as moedas não curariam a ferida.

A vida é mesmo um caminho complicado. Dá voltas e rodeios que a gente não entende o porquê. Mas na quinta-feira (06/11) soube por que eu havia conhecido Gisele e Neusa.

Agora, Neusa não mora mais na rua. Neusa não depende mais da nem-tão-boa-vontade assim dos que lhe davam esmola para sobreviver. Neusa tem onde dormir e tem emprego. Graças à Gisele Neusa não será mais invisível aos olhos da sociedade.

A chuva que ensaiara a semana toda para cair veio com força naquela quinta-feira à noite e eu agradeci pela Dona Neusa não estar sob as gotas geladas da tempestade tão esperada por uns.

Uso essa tribuna não pra contar a história de Neusa ? a partir de ontem, ela é escritora, testemunha e difusora da sua própria história, mas pra contar a história de Gisele. A história da luta diária pela inclusão social, pela igualdade. Da luta de alguém que já sofreu os estigmas da fome e que não se esqueceu jamais das suas raízes. E que usa essas raízes para fazer do mundo um lugar melhor. Ah, como seria bom um mundo com uma luta chamada Gisele em cada "Ferradura" por aí.

Estendo esse agradecimento por todo o apoio recebido pela Secretaria do Bem-Estar Social de Bauru, em especial à secretária Darlene pelo sempre tão atencioso trabalho desenvolvido. À assistente social Nilza, cuja atenção dispensada àquela até então invisível Neusa me deixou marcas no coração e a todas as "Meninas da Sebes" como carinhosamente Gisele insiste em chamá-las. Em tempo: seja a mudança que você quer ver no mundo. Obrigado, Gisele.

Adham Marin

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