"Antes de mais nada", sim... Que me perdoe o corretor ortográfico do "word", é assim mesmo que eu quero iniciar esse texto. Toda vez que começo digitar essa frase, lá vem ele querendo me induzir a escrever "antes de tudo" ou "antes de qualquer coisa". Que enxerido!!! Machado, Rui, Lispector usavam tal locução adverbial sem culpas... Por que eu, um pobre mortal e falho letrado não posso? Continuando... Antes de mais nada, quero fazer uma observação necessária sobre o texto que você começa a ler. Este artigo é escrito por um jornalista, uma das peças da mídia, e publicado num jornal, também peça, bem maior claro, entre inúmeras outras, visíveis ou não, desta aliada indissociável da democracia e, obviamente, também um negócio. Então, qualquer coisa aqui escrita pode ter a parcialidade corporativa, a favor ou contra.
Como em princípio trata-se de um artigo que busca oferecer certa criticidade, mesmo que suave, a este segmento, considere este veículo que o publicou merecedor da sua credibilidade, se muita ou pouca cabe a você decidir, pelo conjunto da obra. Uma parte da mídia, estrategicamente, publica opiniões contrárias à sua linha de pensamento, num charme de imparcialidade, para depois desconstruí-las convincentemente. Então vamos ao ponto. A mídia ?entenda-se aqui, imprensa- tem lado? E se eu, categoricamente, te responder que isto pouco importa, ficaria frustrado? Não fique! Nestas quase três décadas de redemocratização do País, se você ainda não encontrou resposta para esta pergunta pode ter dificuldades em encontra-la nestas frágeis linhas. Mas não por sua culpa, é exclusivamente minha. O objetivo deste texto não é responder ao título em questão, mas propor uma reflexão a partir dele.
Na prática a teoria é assim, enquanto você trabalha para gerar riquezas, viver com bem estar e construir um mundo melhor, a imprensa age como uma extensão de seus olhos e ouvidos para ampliar esse mundo e, com informação sadia, te dar subsídios críticos para interferir com mais qualidade nele. Por isso, o jornalismo é essencialmente crítico, naturalmente livre e, deve ser, necessariamente ético. Em meio a bombardeios de notícias a todo instante, muitas delas espetaculares e contundentes, da política à policia, da economia à demagogia, pouco ou nada se encontra da própria imprensa nos seus próprios espaços. Por quê? Seria como na casa do ferreiro? Uma mídia que tem como missão zelar pelo bom figurino da sociedade poderia se olhar mais no espelho. Quem sabe, se vendo mais, não faria uma "selfie" ainda melhor.
Além da carência de autocritica e da desproporcionalidade na correção de erros, há o mito da imparcialidade, para ficar em alguns poucos dos nossos muitos fantasmas. Respeitados veículos europeus e americanos já superaram isso, mostrando que o ruim para a sociedade não é a mídia ter um lado, necessariamente, mas não assumi-lo. No Brasil, ainda os passos são tímidos. Fazer um "mea culpa", em certos casos, cairia bem com a nossa razão de existir.
O autor é jornalista, colaborador de Opinião