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Do Tiro de Guerra ao metrô de SP

Bruna Dias
| Tempo de leitura: 5 min

O engenheiro Mariano de Mariano, 69 anos, conta ter sido um dos responsáveis pela construção dos primeiros túneis de metrô de São Paulo. Mas, ontem, a parte de sua trajetória ressaltada com emoção foi o período em que passou no Tiro de Guerra (TG), em Bauru. Formou-se na turma de 64, após fazer parte do Grupo de Combatentes, integrado apenas por cinco atiradores competentes.

Detalhes de sua história foram compartilhados com outras 50 pessoas, que participaram ontem do 1.º Encontro dos Antigos Atiradores do Tiro de Guerra de Bauru, idealizado pelo subtenente Sálvio Condé de Oliveira Souza, atual chefe da instrução do TG (leia mais abaixo).

“Eu tinha 18 anos quando fui convidado a participar do Tiro de Guerra de Bauru. Morava no Jardim Bela Vista, estudava e trabalhava na antiga Casa Lusitana. Era um universo totalmente diferente. Foi muito especial porque éramos todos jovens da mesma idade com os mesmos objetivos e mesmos ensinamentos”, contou.

Já no Grupo de Combate sua função era ficar “na ponta” da tropa. “Ficávamos à frente. Rastejávamos, atirávamos, aprendíamos estratégias de guerra, o silêncio, a comunicação, os sinais. Era como em uma guerra mesmo. Hoje temos muita tecnologia, naquela época, o que predominava era o conhecimento e a nossa esperteza”, disse.

Outro aspecto destacado diz respeito ao Golpe de 1964, dia em que recebeu um fuzil. “Era noite, quase madrugada. Eu estava de plantão naquele dia, não tinha muita informação como temos hoje com Internet. Poucas pessoas tinham televisão. De repente me entregaram um fuzil 1905, cujas balas guardo até hoje, e ficamos prontos esperando que algo poderia acontecer. Depois que fui saber que era noite no Golpe de 64”.

Obra

O plantão terminou, como de costume, e se tornoue uma data histórica para o País e para o mundo. Depois que saiu do TG, Mariano estudou engenharia em São Paulo. Na nova condição, participou da construção dos primeiros túneis de metrô de São Paulo. Denominada originalmente Linha Norte-Sul, a Linha 1 do Metrô de São Paulo começou a ser construída no final da década de setenta. Sua operação começou no dia 14 de setembro de 1974, com os trens circulando nos seus primeiros sete quilômetros. Na ocasião, foram aplicadas as mais novas tecnologias disponíveis na ocasião.

Posteriormente, Mariano aposentou-se e hoje é escritor. “Moro em um sítio em Minas Gerais e gosto muito de lá. Acho que cumpri a minha missão na profissão e hoje continuo fazendo o que amo, que é escrever. Volto hoje (ontem) a Bauru com muita alegria por poder vivenciar novamente tudo o que aprendi aqui”, finalizou.


Mais antigo

Aos 89 anos, João Cardoso foi homenageado ontem como o mais antigo atirador. Enquanto alertava: “Só tenho 89!”, contou ser da turma de 1947, a primeira do TG de Bauru. Para ele, a vida militar deve ser admirada e respeitada. “Eu morava na zona rural e vinha para o TG. A vida militar merece respeito. Tudo o que aprendi me acompanha até hoje”.


‘Ainda ouço o ruído das máquinas’, conta coronel

O coronel Carlos Brasil Santos, que já foi chefe da 6ª Circunscrição de Serviço Militar (CSM) de Bauru, também esteve presente no evento de ontem. Apesar de ser natural de Botucatu, ter feito Tiro de Guerra lá, e ser formado na Academia Militar das Agulhas Negras (Aman), foi Bauru que ele escolheu para viver.

“Eu digo que a vocação militar tem que despertar em cada um, não é para todos. Eu tive esse despertar no Tiro de Guerra e ingressei na Aman em 1969. Em 1972 saí como aspirante a oficial na engenharia, que nada mais é do que um engenheiro. Atuei em grandes obras de expansão do País no Rio Grande do Sul, Amazônia, São Paulo, Nordeste, Brasília, Acre. Às vezes, me pego lembrando e chego a ver os rostos e ouvir o ruído das máquinas”, finaliza, com saudosismo, o coronel.


O treinamento completo forma para o Exército

Podem ser convocados para fazer parte da tropa do Tiro de Guerra, jovens com 18 anos completos, brasileiros natos, que gozam de boa saúde e são do sexo masculino.

Durante sua trajetória nos TGs, eles têm aulas de civismo e legislação, permanecendo das 6h às 8h no quartel, e ainda aprendem a manusear o fuzil 762, conforme explica o subtenente Sálvio Condé de Oliveira Souza, atual chefe da instrução do TG.

“Além das aulas teóricas, na prática eles têm todo o treinamento operacional de sobrevivência, guerra. Entre os meses de abril e novembro, eles se revezam em plantões. Cada um permanece duas horas aqui no quartel. Após a formatura, eles ainda ficam cinco anos como reservistas do Exército e podem ser chamados para missões”, explicou.

Durante o evento de ontem, houve entrega de homenagens aos atiradores presentes da turma de 1947 (1ª. Turma do TG de Bauru) e aos atiradores presentes da turma de 1964 (que completa 50 anos), canto do hino nacional brasileiro, desfile dos antigos atiradores à frente da tropa e desfile da tropa de atiradores de 2014.

“É um evento que quero deixar como marco para os próximos anos”, frisou o subtenente Sálvio.


Seguindo carreira

Com lágrimas nos olhos, Arquimedes Antônio de Azevedo, 75 anos, atirador da turma de 1958, falou a sua história com ternura. “Sempre venho aqui no TG conversar com o pessoal e lembrar as histórias. Outro dia cheguei e fui abraçar aquela árvore (apontou para um pequizeiro), que era pequenina quanto eu fazia parte da tropa. Ela chorou e eu também. Aprendi aqui a ter amor à pátria e à bandeira brasileira e segui a carreira de guarda civil, depois policial militar, até 1960”, contou.

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