O índice de perdas de água em Bauru, que consiste na diferença entre a produção do líquido e o consumo medido pelo DAE, impede o município de obter recursos externos para sanar, ao longo dos próximos 20 anos, os problemas apontados pelo Plano Diretor de Água (PDA), apresentado oficialmente em audiência pública ontem, na Câmara Municipal.
O governo federal, seja a fundo perdido ou por empréstimos, só libera verbas para custear obras de produção, setorização de rede e reservação de água aos municípios cujos índices de perdas sejam inferiores à média nacional, de 37%. Dentre as 100 maiores cidades do Brasil, a média é de 39,5%.
Em Bauru, como já noticiado pelo Jornal da Cidade, essa relação é de 49%. Ou seja, por diversas razões o DAE deixa de receber por quase metade da água que produz. Em 2009, quando o prefeito Rodrigo Agostinho (PMDB) assumiu o governo, o índice era de, justamente, 37%.
Diante disso, o engenheiro Luiz Di Bernardo, da empresa Hidrosan, responsável pelo plano, afirmou que o ataque ao alto volume de água perdida deve ser a prioridade de Bauru em curto prazo. Até porque, invariavelmente, será necessária a busca por recursos externos para a execução das obras apontadas como essenciais pelo estudo até 2034, pois o custo do conjunto de intervenções será de aproximadamente R$ 256 milhões.
Bernardo apontou que, ao longo dos próximos 20 anos, é possível reduzir o índice de perdas de Bauru para cerca de 25%. “Esse índice ainda está longe do ideal. Em Limeira, ele é de 14%. O sistema de lá investiu pesado na rede de distribuição, na setorização”.
Para o DAE, a receita é a mesma. No entanto, a setorização completa da rede custa R$ 96 milhões e consiste em intervenções complexas, que dobrariam a quilometragem da tubulação.
Essas obras combateriam de forma sistemática os vazamentos, as rupturas de rede, além das perdas em reservatórios e na Estação de Tratamento de Água (ETA). “Não dá para ficar consertando cano de forma pontual e achar que vai resolver o problema. Atualmente, não existe controle de pressão nem macromedição”, pontuou o técnico da Hidrosan, responsável pelo PDA.
Curto prazo
Luiz Di Bernardo alertou, no entanto, que é possível, “em curtíssimo prazo”, reduzir o nível de perdas de água a um índice que, ao menos, permita que o município possa pleitear recursos junto ao governo federal para viabilizar as obras necessárias.
Fiscalização
Para isso, o DAE terá que ampliar a fiscalização sobre hidrômetros fraudados e promover a troca de hidrômetros velhos e não calibrados. Dessa forma, segundo o engenheiro, a redução nas perdas já chegaria a 10% ou 12%.
Essa mudança já criaria a possibilidade de que Bauru pudesse buscar os recursos externos para financiar as grandes obras necessárias. Além disso, o faturamento dessa água que hoje é perdida ampliaria em mais de R$ 10 milhões a receita do DAE.
Outro ponto importante é que a medida atrasará de 2024 para 2030 o risco de o consumo de água superar a produção de Bauru, caso as demais intervenções sugeridas pelo Plano Diretor de Água não saiam do papel.
Mudança
Para viabilizar o combate às perdas provocadas pelas deficiências no parque de hidrômetros, o DAE terá que assumir a responsabilidade pela troca dos equipamentos nas 130 mil ligações de água. Hoje, ela é de atribuição dos próprios munícipes. O custo estimado para essa ação é de R$ 16,7 milhões.
“Se for esperar que cada morador resolva os problemas de seus hidrômetros, a proposta não vai para frente”, afirmou o engenheiro da Hidrosan.
Rodrigo Agostinho reconhece que, na maior parte das cidades, o poder público já assumiu essa tarefa, assim como a CPFL é responsável pela compra e instalação dos relógios que medem o consumo de energia das residências e demais estabelecimentos.
Apesar disso, questionado pelo Jornal da Cidade, o prefeito não deixou claro se levará ou não a proposta adiante. “O que vamos fazer é priorizar o combate aos vazamentos. Compramos duas máquinas muito boas e estamos contratando 20 encanadores. A ideia é tapar o que já existe e conseguir, depois, passar para a prevenção”, insistiu o peemedebista.
Imediato
Dentre as ações propostas pelo Plano Diretor de Água (PDA), Rodrigo Agostinho (PMDB) diz que conseguirá viabilizar a perfuração de sete poços e a construção de cerca de 10 dos 22 reservatórios elencados.
No mais, o prefeito pretende, a partir do ano que vem, contratar os projetos executivos para as grandes obras indicadas, como a reforma da Estação de Tratamento de Água (ETA), a setorização da rede e a captação em um novo ponto do rio Batalha, próximo ao Distrito de Tibiriçá.
No entanto, essa última intervenção, que exigirá a construção de uma adutora de 22 quilômetros, precisa ser viabilizada em médio prazo para que a ETA continue produzindo os atuais 550 litros de água por segundo.
Esse é o volume retirado pelo DAE da lagoa de captação do rio Batalha; muito acima do permitido pela outorga estadual (360 litros por segundo).
Segundo o engenheiro Luiz Di Bernardo, essa outorga vence em 2019, quando o volume autorizado cairá para 288 litros por segundo. A captação nesse novo ponto do rio Batalha seria a solução para suprir a diferença, de acordo com o PDA, que descarta, para os próximos 20 anos, o abastecimento de Bauru pelo córrego Água Parada ou pelo rio Tietê.
“Isso é muito mais complicado do que parece, pois envolve custo para licenças ambientais e desapropriações, sem contar a elaboração do projeto técnico, que não se faz em menos de um ano”, alerta Rodrigo Agostinho.
Tarifa
O engenheiro Luiz Di Bernardo destacou ainda que é fundamental que o DAE promova uma tarifa justa pelo consumo de água.
Durante a audiência, ele revelou que o valor da tabela cobrado pelo metro cúbico de água para os bauruenses que consomem menos (R$ 1,18) é inferior ao custo da produção (R$ 1,54).
Por outro lado, o responsável pelo Plano Diretor de Água (PDA) afirmou que se o índice de perdas não fosse tão grande em Bauru, esse custo cairia para R$ 1,10.
“É possível tornar o DAE superavitário. Essa atividade dá lucro. Não é à toa que grandes empresas têm interesse em serem concessionárias dos serviços de água”, exemplificou.