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Taque-tique

Paulo César Razuk
| Tempo de leitura: 3 min

O tempo é implacável, está sempre em ação: na erosão das rochas, no amor que se inicia e que se esvanece, nas amizades que vêm e vão, no amadurecimento dos filhos. O tempo não tem cheiro, sabor ou som; não emite luz, não pode ser tocado. Não dispomos de nenhum sentido ou órgão para percebê-lo. Podemos, apenas, senti-lo por meio de seus efeitos, como o envelhecimento, mas não sabemos se vivemos dentro dele ou se ele vive dentro de nós. Assim como os peixes são incapazes de descrever o aspecto externo dos oceanos, talvez estejamos dentro do tempo e, portanto, nos encontramos impossibilitados de descrevê-lo por fora. Frequentemente o tempo é associado ao dinheiro, assim como o corpo é citado como uma máquina: duas metáforas insatisfatórias e impróprias. O tempo não pode ser economizado como o dinheiro. Da mesma forma, uma máquina não mantém a si mesma, não se reproduz, não se autorrepara e não ama, como um ser humano.

Tomamos o tempo por algo real, quando na verdade ele resulta de uma percepção construída no âmago de nossa consciência: o tempo voa quando estamos possuídos por muita alegria e se arrasta quando sentamos na cadeira de um dentista. Talvez o tempo seja válido apenas para nossa específica escala de tamanho. Um milésimo do nosso segundo é uma eternidade no mundo atômico. Nossos séculos não passam de alguns milissegundos no relógio geológico da Terra e não passam de nada no relógio do universo. Nada é recente ou tardio, nada é rápido ou vagaroso. O que é recente para um pode não ser para outro e a sensação de lentidão depende das escalas e das referências de quem observa os fenômenos.

O tempo já foi cíclico no calendário dos maias. Nele o eterno retorno tinha um ciclo de 260 anos, quando, então, tudo se mesclava e recomeçava. A vida se repetia em ciclos, infinitas vezes, num tempo interminável. Com o passar dos séculos, se fortaleceu a noção de um sentido linear e contínuo do tempo: o tempo irreversível, com memória, sensação e expectativa, isto é, com o ontem, o hoje e o amanhã. Passamos a viver aflitos com a frustação do que se passou e angustiados ou esperançosos com o que está por vir. Passamos a entender que tudo no universo caminha para estruturas diferentes, imprevisíveis, cada vez mais complexas, e a vida se constitui em um bolsão de complexidade que vagueia pelo espaço. Mensurável por relógios, o conceito de fluxo linear do tempo é hoje tão profundo que poucos se lembram que estamos lidando com uma concepção abstrata bem recente e cujo conceito foi completamente alterado depois do trabalho de Einstein. O tempo passou a ser elástico, como uma borracha. Ele se estica ou se encurta conforme o movimento relativo do observador.

Neste subúrbio cósmico de nossa galáxia, o tempo é ilusório e útil, como foram as constelações para nossos navegadores, o geocentrismo para muitas religiões e o devaneio do antropocentrismo para nossa soberba. Para finalizar, já que o tempo passa, vale citar o velho ditado popular que nos lembra como temos dificuldade em explicar tudo sobre o tempo: "o tempo perguntou ao tempo quanto tempo o tempo tem. E o tempo respondeu ao tempo que o tempo tem tanto tempo quanto tempo o tempo tem".

O autor é professor titular aposentado do Departamento de Engenharia Mecânica da Faculdade de Engenharia da Unesp - câmpus de Bauru

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