A sociedade sataniza, combate, proíbe, pune, mas consome amplamente o corpo nu. Em "Toda nudez será castigada", Nelson Rodrigues ridiculariza as taras e a hipocrisia da sociedade burguesa. Todos criticam, mas todos se deleitam com a nudez, principalmente feminina, a mais estética e por isso mesmo sensual. Ao longo da história da humanidade nem sempre o nosso corpo foi instrumento do pecado nas sociedades mais civilizadas. Os soldados espartanos lutavam nus, vestidos somente com o elmo, o escudo e a espada. Enquanto os inimigos persas se abstraíam da batalha pelo estranhamento das genitálias em balanço, perdiam a cabeça num só golpe, literalmente. Os atletas gregos disputavam nus os jogos olímpicos. A palavra gymnásiom significa na origem, "lugar de nudez". Por causa do Velho Testamento e a maldição que recaiu sobre Adão e Eva, os seus descendentes tiveram que cobrir suas "vergonhas": "Então foram abertos os olhos de ambos, e conheceram que estavam nus (...) cozeram folhas de figueira e fizeram para si aventais" (Genesis, 3:7).
Faço esta introdução de almanaque inspirado nos jornais da semana que noticiaram seguidos casos de mulheres flagradas pelas câmeras dos celulares, correndo pelas ruas de Porto Alegre somente de boné, óculos de sol e tênis sem meias. Para os legalistas, seria uma maneira deliberada de desafiar a polícia que poderia tipificar a atitude como "atentado ao pudor". Outros argumentaram tratar-se de uma conturbação psíquica. Em pelo menos um dos casos, a atleta nua havia brigado com o namorado radialista e, por desplante, deixou o calção em casa para correr em frente ao local de trabalho do amado. Nada fora do modismo da utilização do corpo como forma de protesto. A Femem, grupo de feministas criado na Ucrânia, tem na sua estratégia ideológica a exibição dos torsos nus das militantes, com palavras de ordem contra o fascismo, contra a anorexia, em protesto contra as guerras, contra a violência doméstica, mutilação genital e a favor de direitos humanos. As sextremistas já denunciaram até o que seria uma crise de fé: "Game over, Papa". - foi a frase que li abaixo dos seios de uma loira balcânica. Aprendi ontem na palestra do Luciano Pires, Filho que, em marketing, a inovação e a surpresa são armas de sucesso implícito para quem quer vender. Sejam roupa ou a ausência dela.
Lá pelos anos 1970, o mundo ocidental foi inundado por uma onda de streaking. O streaker corria nu em ruas movimentadas, numa aparição relâmpago. Naquela época, em Bauru, a grande diversão dos fins de semana eram os cinemas. Filas imensas na bilheteria do Cine São Paulo (Batista com 13 de Maio). Todos nas suas melhores roupas. Num sábado à noite, um gaiato atravessa essa classe ascendente de bicicleta. Totalmente nu. Um escândalo. Naquele tempo, a gente usava cabelos compridos, calça boca-de-sino de barras sujas pelo arrasto no chão. O Fusca-Fafá era o carro do status, de lanternas traseiras que lembravam os volumosos seios da cantora. Os homens que liam Play Boy, que começava a escancarar pelos pubianos, disfarçavam dizendo que tinham comprado a revista por causa das interessantes entrevistas e matérias de erudição. Em 1974, fez furor o cara que invadiu o palco do Oscar quando David Niven entregava uma das estatuetas. Foi visto por 1 bilhão de telespectadores.
Nessa época viajei de carro com o Marco Brisola para o Sul da França. Numa praia de Cannes demos de cara com uma multidão de mulheres deitadas na areia, todas de topless. Brisolinha não cansava de advertir: "Não fica olhando!"; "Não tira foto, vai dar rolo". Fiquei sem saber se cobria o rosto com as mãos ou olhava para o céu. Escondi a máquina fotográfica, disfarcei, entrei numa sorveteria. Lá também, as meninas de seios à mostra lambendo as casquinhas. Uma delas deixou cair sorvete sobre o colo alvo e os mamilos intumescidos. "Glacé!" - deu um gritinho. Quelle horreur!
Aprendi que existem vários tipos de nudez. Ela pode existir como manifestação do erotismo, do desejo, da sexualidade, mas, também, como maneira de constranger, de humilhar, como nas prisões. Há também a nudez da inocência, do comportamento natural, não sexualizado como no ato de tomar banho ou num momento íntimo qualquer. O problema é o rei estar nu, como no conto de Andersen. Constrange quem é pego com dólar na cueca ou nas variantes mais sofisticadas do propinoduto. Ficamos nus quando estamos vestidos.
Numa das antigas casas de banho de Istambul (banho turco, por óbvio), existe uma placa escrita em árabe: "Aqueles que têm alguma vergonha estão mortos". Durante um incêndio, só se salvaram as mulheres que saíram correndo nuas.
O autor, é jornalista e articulista do JC