Jogos Abertos 2014

Atletismo em casa

Marcus Libório
| Tempo de leitura: 3 min

Ovento assobiava. O terreno, apesar da pista de primeiro mundo construída para as provas de atletismo no estádio Milagrão, era de muita poeira. Ao final, enquanto eram entregues as medalhas e troféus, teve até corrida extra: desta vez, para se abrigar da chuva. 

 

Essas eram as condições que, tanto atletas de ponta como Franck Caldeira, campeão da São Silvestre em 2006, que correu 10 mil metros e ficou em terceiro lugar, e jovens promessas bauruenses como Evelin Passos, 18 anos, enfrentaram ontem no último dia de disputas do atletismo nos Jogos Abertos do Interior. 

 

Em meio a tudo isso, distante da pista de provas, mas atento a cada movimento da competição, lá estava ele: um homem movido pelo amor ao atletismo e pela determinação em transformar cidadãos através do esporte. Alcides dos Santos Gonçalves, ou Cabo Alcides, de 75 anos, é figura conhecida em Bauru e revelou muitos esportistas de ponta no Brasil, principalmente na década de 1970. 

 

Ele acompanhou as provas e, sobre a determinação dos atletas bauruenses, mesmo sem medalhas ontem, bancou: “Hoje temos mais condições de formar equipes competitivas e de alto nível do que antigamente. Competiram com vontade, com ânimo e sem medo. Estão virando combatentes”.

 

TUDO EM CASA 

 

Pode-se dizer que o atletismo de Bauru está em família. Ao lado de Alcides, seu neto, de 32 anos, segue os passos apressados do avô. “Com 15 anos, comecei a adquirir rendimento e, depois disso, não parei mais”, orgulha-se Neto Gonçalves, no esporte desde os doze anos. 

 

Ele é treinador de atletismo na Associação Bauruense de Desportes Aquáticos (ABDA), de uma equipe com atletas de base entre 13 e 18 anos. “Estamos trabalhando forte com planos para o futuro, para formar equipes com capacidade de competir em nível nacional”, aponta. 

 

Ele diz ter se surpreendido com o desempenho dos atletas de Bauru na disputa das provas ontem. “Superaram as expectativas. Competiram contra atletas das melhores equipes do Brasil e encararam o desafio sem se intimidarem. Foi uma grande experiência para que, no ano que vem, possam disputar as principais competições da categoria”, completa Neto. 

 

Destaques 

 

Os destaques ontem vieram de fora. Na prova de 1.500 metros rasos feminino, pela Primeira Divisão, a competidora Zenaide Vieira, de São Bernardo, cravou 4.36.23, garantindo a medalha de ouro.  

 

Também na prova de 1.500 metros raso feminino, mas pela Segunda Divisão, quem levou a melhor foi a corredora Juliana dos Santos, de São Caetano, ao concluir a etapa em 4.33.74. 

 

Quem levou a medalha de ouro nos 1.500 metros rasos masculino da Primeira Divisão foi o competidor Carlos Antônio dos Santos, de Piracicaba, ao concluir a prova em 3.49.92. 

 

Já por Bauru, Evelin Ianca Passos, principal promessa local na modalidade, não garantiu medalhas, mas avaliou como positiva sua atuação. “Fechei bem o ano. Consegui baixar quatro segundos em relação às disputas anteriores. Agora vou me concentrar para os torneios do ano que vem (competições de Cross Country e Troféu Brasil de Atletismo)”, diz.

 

‘Hoje nossa luta é contra celular e computador’

 

Cabo Alcides, que já foi preparador físico do Esporte Clube Noroeste, respira atletismo há mais de cinco décadas. Ele falou das dificuldades para conquistar espaço na modalidade na década de 70, quando Bauru também recebeu uma edição dos Jogos Abertos.  

 

“Era complicado treinar no campo do Noroeste, pois tínhamos contendas com a diretoria e técnicos de futebol. Até que pediram para que a gente saísse de lá. Os portões foram fechados para nós. E foi nesse espaço que saíram grandes atletas”, lembrou. 

 

Hoje, contudo, “a coisa anda”. “Como coordenador do projeto Zopone Incorporações (projeto ABA/Z. Incorporações/Semel), estou tentando fazer o meu melhor. Em Bauru, temos apoio suficiente. Somos federados e confederados e viajamos para todas as competições”, observa Cabo Alcides, ressaltando que, hoje, a luta para motivar os jovens é contra a tecnologia. “As crianças não chegam até nós com tanto preparo físico como antes. Hoje é só celular e computador. Os jovens estão praticando esportes cada vez menos”, lamenta. 

 

 

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