Quioshi Goto |
|
|
O Conselho Tutelar se comprometeu a realizar abordagens periódicas para saber quem são esses jovens e localizar as famílias |
Autoridades do município estão preocupadas com o consumo de álcool e drogas entre adolescentes que se reúnem em grandes grupos na rua Marcondes Salgado, na Vila Antarctica, nas noites de sexta-feira. Para tentar encontrar uma solução para o problema, Polícia Militar, Ministério Público, Conselho Tutelar e Vara da Infância e Juventude decidiram se mobilizar.
Em reuniões para debater o tema, houve consenso de que os responsáveis por fornecer bebidas alcoólicas e entorpecentes - quase sempre maconha - aos jovens precisam começar a ser identificados. O Conselho Tutelar, por sua vez, se comprometeu a realizar abordagens periódicas para saber quem são os adolescentes que fazem uso abusivo destas substâncias e, imediatamente, localizar suas famílias para orientá-las.
Estratégias como filmagens da movimentação do local onde ocorrem os chamados “rolezinhos”, bem como o emprego de profissionais à paisana, não estão descartadas. Juiz da Vara da Infância e da Juventude, Ubirajara Maintinguer prefere não antecipar as medidas, mas revela que as operações não contemplarão abordagens diretas, que poderiam provocar tumultos generalizados, visto que os policiais militares são numericamente inferiores aos grupos de jovens.
“O fornecimento de bebidas a menores de 18 anos é considerado contravenção penal e a polícia deve agir, mas estamos estudando a melhor forma de fazer estas abordagens. Já há algumas ações previstas, porém, por questões estratégicas, não posso adiantar”, afirma.
Como medida preventiva, uma das propostas já testadas em parceria com a Secretaria Municipal do Bem-Estar Social (Sebes), ainda não de maneira sistemática, foi a apreensão de garrafas de vidro e cessão de copos de plástico para que os frequentadores possam acondicionar as bebidas.
O objetivo é evitar o uso das garrafas como armas em eventuais brigas, atos de vandalismo ou até mesmo possíveis confrontos com a PM, como já ocorreu em outras ocasiões.
“Nos preocupamos com a segurança destes jovens, mas também com a da comunidade e dos próprios policiais. Em uma briga registrada no Calçadão da Batista de Carvalho, para onde eles vão no fim da noite, vitrines de algumas lojas foram quebradas. Viaturas policiais também já foram atingidas por garrafas”, pontua o capitão Samuel Gomes, da PM.
Acompanhamento
Como não são raros os casos em que adolescentes são encontrados em situação crítica devido ao consumo abusivo de álcool e entorpecentes, também estão sendo reforçadas as orientações para encaminhamento e acompanhamento do tratamento a que estes jovens precisam ser submetidos, conforme sustenta o promotor da Infância e Juventude, Lucas Pimentel de Oliveira.
“São vários os focos de atuação. Os locais que os adolescentes frequentam são públicos e eles têm direito de se reunir. Nossa intenção não é impedi-los. O que buscamos é um controle para coibir as atividades ilícitas”, acrescenta.
Uso abusivo de álcool não ocorre apenas entre jovens de periferia
O abuso de álcool na adolescência não é um problema exclusivo dos moradores de periferia que participam de “rolezinhos”. Ele também ocorre entre jovens de famílias abastadas, que frequentam festas “open bar” regadas a uísque, vodca e drogas sintéticas.
Mas, como os grupos de renda mais baixa se reúnem em locais públicos para consumir álcool sob os olhos das autoridades, o problema se torna bem mais visível. Vale destacar, ainda, que estas famílias possuem menos condições financeiras e estruturais para garantir a recuperação dos adolescentes, quando a situação foge de controle.
“Mas, de maneira geral, o problema é sempre bem delicado e difícil de ser contornado de maneira definitiva”, pontua a vice-presidente do Conselho Tutelar 1 de Bauru, Adriana Providello. Ela afirma, contudo, que o órgão já realizou algumas ações para orientar os jovens que frequentam a rua Marcondes Salgado.
Diálogo
“Em uma delas, nos deparamos com adolescentes embriagados que precisaram ser levados para casa com a ajuda dos pais, que foram acionados pelo conselho. Embora não seja suficiente para resolver todos os problemas, acreditamos que este trabalho preventivo, por meio do diálogo, é importante e necessário”, finaliza.
Polícia Militar propõe implantar mais atrações de lazer nos bairros
Para o tenente-coronel Flávio Jun Kitazume, comandante do 4º Batalhão de Polícia Militar do Interior (4º BPM-I), a oferta de atividades noturnas nos bairros contribuiria para reduzir o consumo de álcool e drogas entre os jovens. Como estariam mais próximos de casa e também do campo de visão de seus pais, vizinhos ou conhecidos, as chances de infringirem as leis seriam menores.
“Faltam equipamentos e opções de lazer gratuitos ou mesmo a preços populares. A proximidade com a comunidade, a meu ver, não combate apenas o uso abusivo de álcool, mas também o vandalismo ou qualquer outro comportamento extremo que estes jovens, longe de casa, podem vir a ter”, analisa.
O prefeito Rodrigo Agostinho, no entanto, avalia que esta não seja a melhor solução, já que seria impossível oferecer atrações em todas as sextas-feiras aos cerca de 400 bairros de Bauru. “Além disso, os jovens querem se reunir para paquerar, conhecer gente diferente, em um lugar movimentado, como as imediações dos shoppings”, frisa.
Mesmo assim, segundo ele, a prefeitura tem buscado realizar eventos culturais e esportivos fora da região central e zona sul, embora não seja um objetivo da administração manter os jovens da periferia isolados em seus guetos. “Não dá para esperar que isso ocorra. Às vezes, ver aqueles grupos enormes em um mesmo local pode assustar, mas é algo com que nós temos de nos acostumar”, avalia.
Apesar de relativizar as consequências do fenômeno, o chefe do Executivo demonstra preocupação quanto ao consumo de álcool e drogas no local e diz que também está disposto a contribuir para evitar que o problema se agrave. “Sabemos de muitas crianças que já se tornaram alcoólatras, com prejuízo para o rendimento escolar, e que não recebem a devida atenção das famílias”, frisa.
Migração
Além de esbarrar na ilegalidade, reprimir os grupos de jovens que participam dos “rolezinhos” não resultaria na vitória contra o uso de álcool e drogas entre eles. Apenas os levaria a migrar de um local para outro. Até porque, mesmo sem repressão, é sempre assim que acontece. Bem pouco tempo atrás, por exemplo, eles se concentravam na rua Henrique Savi e, depois, caminhavam até a quadra 29 da avenida Nações Unidas. Bastou a abertura de um grande empreendimento na Vila Antarctica para que, nos últimos dois anos, passassem a se encontrar na rua Marcondes Salgado para, depois, encerrarem a noite na Praça Rui Barbosa.
Até criança de 10 anos estava em ‘rolezinho’
Embora os grupos que participam de “rolezinhos” na rua Marcondes Salgado sejam formados quase totalmente por adolescentes e jovens com pouco mais de 18 anos, até mesmo crianças já foram flagradas no local consumindo bebida alcoólica, conforme informações prestadas pela Polícia Militar.
Em uma abordagem recente, um menino de 10 anos foi encontrado em meio à aglomeração, desacompanhado de seu responsável legal.
“O Conselho Tutelar foi imediatamente acionado e, em seguida, os pais foram localizados”, conta o capitão Samuel Gomes. Ele explica que, para muitos destes jovens, o consumo de álcool é o que motiva os encontros, tendo apenas como fator secundário a possibilidade de interação entre seus pares.
“Na verdade, o município não conta com atividades que despertem o real interesse desses jovens para outras coisas. Eles precisam de mais alternativas de lazer”, analisa. De acordo com o capitão, não raro os jovens - já embriagados e impulsionados pelo comportamento de massa - também encontram “diversão” em atos de vandalismo, como a depredação de ônibus circulares, utilizados por eles para o retorno às suas residências.
“Não temos, por exemplo, reclamaçãões de perturbação de sossego entre moradores e comerciantes das imediações onde eles se concentram. Mas as queixas das empresas de ônibus são recorrentes”, lamenta o capitão da PM.
