Hoje a sociedade humana ergue-se enrijecida, caminha cegamente contra as mudanças que são necessárias caso queiramos manter a dignidade e a vocação original da existência humana. Hoje nossa sociedade é excessivamente materialista, narcisista, intoxicada pelo superconsumo e obcecada pela eficiência e pelo prazer. Vive uma intensa anemia espiritual ao sucumbir ao engodo do marketing, que transforma inutilidades em artigos imprescindíveis. Aqui vale a citação: "Antigamente o que tinha valor não tinha preço; hoje em dia o que tem preço não tem valor".
Por conta disso, a ação humana exerce tamanha pressão sobre as funções naturais do planeta que sua capacidade de responder às necessidades das gerações futuras já não pode ser considerada como certa. Os sinais de esgotamento dos ecossistemas podem ser vistos com nitidez, se multiplicam com forte insistência, mas a humanidade dá pouca atenção a esses sinais porque se move por avidez.
Se para termos um ecossistema robusto o suficiente para garantir a sobrevivência humana, temos que evitar ultrapassar 10 bilhões ou até reduzirmos nosso número de 7 bilhões, onde já estamos, o que fazer para que a humanidade abrace a ideia de limitar o que é tão natural para a maioria de nós que é: fazer cópias de nós mesmos? Atualmente temos um crescimento anual de 80 milhões de pessoas, ou seja, um milhão a mais de nós a cada 4 dias!
Se uma população sustentável para a Terra é menor do que 10 bilhões ou até menos que os 7 bilhões de hoje, como elaborar uma economia para uma população em encolhimento ou estável? Como elaborar uma economia que possa prosperar sem depender de um crescimento constante ou sem se alicerçar no consumismo desenfreado?
Precisamos de uma inflexão com uma lenta prosperidade sustentável que precisa ser muito mais intelectual, emocional e espiritual do que física porque o planeta não é, definitivamente, uma mesa de jantar para as criaturas favoritas de Deus ou do mercado. Não é possível que um crescimento exponencial dure para sempre num mundo que é finito!
É um grande engano pensar que temos que legar um bom planeta para nossos filhos, mais importante do que isso é deixar bons filhos para o planeta. No entanto, parece-me que a maioria dos jovens está embriagada pelo entretenimento, comportam-se como turistas cujo objetivo é se divertir, portanto, sem nenhum conhecimento ou preparo para o que está por vir. Por isso seria interessante que a cosmologia fosse incluída como assunto em todos os níveis de ensino formal, do fundamental ao superior. Assim tentaríamos dar as futuras gerações um mínimo de preparo para lidar com um mundo mais agressivo, mais limitado e portanto, mais complexo.
Enquanto ainda ouvimos o beijo das ondas nas praias, o estrondo das cachoeiras, o espocar do trovão, o sibilo gostoso da brisa, o farfalhar das árvores; enquanto ainda sentimos o choro das núvens; enquanto ainda vemos o cintilar das luzes no céu, precisamos fomentar a discussão sobre os temas que ameaçam a humanidade e agir.
O autor é professor Titular aposentado do Departamento de Engenharia Mecânica da Faculdade de Engenharia da Unesp - câmpus de Bauru SP