Para a maioria dos autores, o ato de escrever dói. E como dói... Lembra uma piada de Bernard Shaw quando lhe perguntaram se é fácil escrever: "Ou é fácil ou é impossível, minha senhora". A ironia do escritor irlandês encontra apoio no poeta chileno Pablo Neruda, para quem escrever também não tem segredos. "É só começar por uma letra maiúscula e terminar com um ponto. No meio você enche de ideias". Justamente aí que mora o problema. Quem não as tem, usa as dos outros como estou fazendo nesta manhã, para preencher a tela em branco do computar. "Lutar com palavras/é a coisa mais vã/ Entanto lutamos/mal rompe a manhã". Esta é do poeta maior, Carlos Drummond de Andrade. O ato literário ? mesmo que seja uma reles crônica ou artigo de jornal ? é uma luta que só acaba com o último ponto. Sei o quanto dói e me admiro diante da determinação de quem escreve. Acabo de receber o livro de "Memórias" de Dolírio da Silva (Editora Idea) conhecido empresário bauruense que, com 85 anos de estrada, resolveu deixar para os filhos, netos e amigos um relato dos seus momentos felizes, outros não tantos e por vezes trágicos. Quem sabe nem tenha percebido a importância que seu depoimento terá, não só para os seus descendentes, mas também para ajudar na reconstrução da sociedade bauruense numa determinada época. João Cabral de Melo Neto disse que sua luta envolvia a necessidade de preencher um vazio. A de Rachel de Queiroz era econômica, não existencial, pois escrevia para se sustentar. "Se eu morrer agora, não vão encontrar nada inédito na minha casa", disse. Para Veríssimo, o adversário é o prazo dos jornais que não dá a suas ideias bastante tempo para incubar.
O escritor Cristovão Tezza, em uma entrevista disse algo que nos ajuda a pensar: "É a infelicidade que produz literatura; pessoas felizes vão ao cinema, namoram sem traumas, dormem tranquilas. Só os infelizes se trancam num quarto escuro para escrever". A escrita é antes de tudo uma luta ? estamos concordes. Você luta não só com as palavras, mas com ideias obsessivas que o sufocam, com pensamentos que não o deixam, com imagens que não o abandonam. Você luta com você mesmo e, se luta, é porque algo deseja modificar. Ariano Suassuna dizia escrever para entrar no mundo dos personagens e suas aventuras enquanto os cria. Para ele, o ato literário é interativo, e a gratificação, imediata. A maioria dos músicos gosta mais de tocar músicas do que de compor pela mesma razão: a recompensa instantânea. Para o ganhador do Prêmio Nobel Orham Pamuk, escrever é o longo processo de "descobrir o ser dentro de si que fala de coisas que todos sabemos, mas não sabemos que sabemos". Concordo. Chorei quando escrevi meu primeiro e último poema para a namorada que me havia abandonado. Nunca tinha ouvido minha mágoa sair de um pedaço de papel de modo tão dilacerante. Para saber o que penso, preciso ver o que digo... Sarei logo da minha dor-de-cotovelo. Produzida pela infelicidade, a literatura, no final, acaba produzindo felicidade. Deve ser por causa do sentimento de libertar-se da própria solidão para chegar, enfim, a um espaço público onde não só o escritor publica seu escrito, mas onde ele divide aquilo que experimentou, embora continue a ser seu. "Poesia é voar fora da asa" (Manoel de Barros).
Sempre quis ser escritor sem nunca conseguir ver o meu nome na capa de um livro. Sofro de preguiça literária. Prefiro a gratificação imediata na leitura de grandes autores. Cada vez que os leio percebo o quanto fui prudente. Jamais alcançaria a criatividade imaginativa de um John Updike, descrevendo sensações de um dos seus personagens: "Desviou a vista dos seios nus de Robin, que pendiam alvos, como abóboras ainda amadurecendo, desprendendo-se do caule". E esta do mestre do new journalism Gay Talese: "Mulheres com compulsões anais compram máquinas de lavrar pratos". Desculpem-me, jamais conseguiria. Perguntaram uma vez para Hemingway como ele conseguia achar frases tão secas e concisas, mas capazes de induzir o leitor a reflexões profundas. Ele explicou que aprendia muito com os classificados dos jornais onde cada palavra custa dinheiro. E citou um exemplo: "À venda, sapatinhos de nenê, nunca usados". Minha mulher, jornalista, diz que jamais sobreviveria na redação do JC. Demoro muito para escrever. Alem do talento, falta-me também a velocidade para produzir "chorumelas", como dizia Carlos Fernandes de Paiva (Mestre Cyrillo), cronista bauruense dos anos 1960.
O autor é jornalista e articulista do JC