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Tranquilidade para todos

J.F. da Silva Lopes
| Tempo de leitura: 3 min

As pessoas em cargos de governo não são más, não se adestram para a prática de perversidades e nem mesmo são treinadas para suportar as conseqüências pessoais negativas das suas ações. Porque vinculadas e obrigadas a seguir a lei, devem impor respeito, não medo. Quando se veem obrigadas, por dever de ofício, a agir em sigilo fora de algum marco sabendo que podem provocar consequências desagradáveis para outros, são elas as primeiras que sofrem porque sabem que aquilo que vier a ser feito pode repercutir desde sua origem para atingir - e sem alerta prévio - avós, pais, tios, irmãos, filhos, primos, sobrinhos e amigos próximos, porque dificilmente encontram-se pessoas solitárias e que não se vinculam a ninguém por laços de sangue ou de afeto. Ações desse tipo quando devam atingir um grande universo demandam cautela, reclamam justificações e exigem integral respeito à ordem jurídica, inúteis lamentos ou tardios pedidos de perdão. O bloqueio de ativos financeiros autorizado contra a Constituição pelo presidente Collor, verdadeiro confisco, gerou consequências devastadoras para a comunidade nacional evaporada a credibilidade da moeda e do próprio sistema financeiro e até estes nossos dias milhões de brasileiros a vista de mínimo rumor ainda partem em busca de refugio seguro que proteja moedas poupadas com sacrifício. Collor está por aí, entrincheirado numa bancada senatorial remoendo em prudente silêncio o estrago nacional que provocou e dona Zélia Cardoso de Mello não se sabe onde anda, talvez ainda vertendo discretas lágrimas quando ouve "Besame Mucho" e lamentando em anonimato sua responsabilidade por aquele inútil e terrível desatino. Linguiça não retorna a ser porco e consciências pesadas são irremediáveis e vitalícias.

Nos pelotões de fuzilamento, quando deva ser cumprida ordem legal de morte - supina perversidade estatal -, alguns atiradores recebem balas de festim para criar dúvida que atenua consciências quanto à responsabilidade pelos tiros fatais. Mas são muitas, talvez milhares e bastantes complicadas as ações de governo engendradas em sigilo e que provocam conseqüências graves e que não permitem utilização de balas de festim ou dúvida similar. Então a responsabilidade de cada envolvido fica marcada e exposta pelo resto de sua vida e pode comprometer, até, relacionamentos familiares, mesmo que assentados em vínculos de sangue, de amor ou de afeto.

Momento delicado vive a presidente. Em campanha se disse disposta a fazer o diabo para renovar seu mandato e, nessa linha, permitiu que seus marqueteiros exibissem impactante - e artificial - mesa ocupada por famintos e vazia de alimentos insinuada tal situação quando a ordem econômica é comandada por banqueiros. Agora, todavia, com propósito de tranqüilizar o sensível mercado escolheu justamente banqueiros para recuperar credibilidade e reacender a economia. O mercado parece tranqüilizado, os cidadãos não. A sigilosa trama de alternativas econômicas que deve estar em linha de gestação relembra o passado, desperta aflições coletivas, provoca difuso temor e recomenda que, além do mercado, também os cidadãos sejam tranqüilizados, esclarecido aos quatro ventos - do norte, do sul, do leste e do oeste - que ativos financeiros não precisam ser escondidos e nem alimentos essenciais estocados porque o novo governo fará o diabo para obedecer a Constituição, sem confiscar patrimônio, sem rasgar contrato, sem impor barbaridades assemelhadas.

Afinal, para quem não está preparado para maldades e nem adestrado para perversidades, mesmo que não esteja treinado para suportar as consequências pessoais de suas ações deve, no mínimo, preocupar-se em tranquilizar os cidadãos e anunciar respeito e obediência à Constituição independentemente do juramento na posse, para evitar situações penosas que arranham biografias diante de históricos e lamentados acontecidos no passado recente.

O autor é advogado e articulista do JC

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