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Assessor para polêmicas

Vitor Oshiro
| Tempo de leitura: 2 min

Olha, meu filho, é o seguinte: estou muito sumido ultimamente. Preciso de um plano bom para aparecer na mídia. Afinal, você é meu assessor ou não?

- O senhor ter razão. O senhor sempre tem razão. Mas estou com umas ideias ótimas aqui que vão fazer o senhor sair em tudo quanto é jornal e TV.

- Opa. Pode falar.

- Que tal falarmos mal dos gays?

- Será que vai colar? Já fiz isso um monte neste ano.

- Verdade. O senhor ter razão. Mas, e se falarmos que eles são aberrações e nunca poderão ter filhos?

- Repetitivo. Aí eles falam do tanto de héteros que abandonam seus filhos e ficamos sem resposta...

- É. Aí complica mesmo, doutor. Ah! Que tal o senhor dar uma declaração polêmica sobre as mulheres? Diga que elas vieram da costela de Adão e, por isso, não podem ser comparadas aos homens. Vamos falar da inferioridade biológica da mulher e de como nós, machos alfas, não precisamos delas para viver. Fantástico!

- Se eu falar isso, vão descobrir que eu sou... opa... eu sou não. Vai parecer que eu sou gay. O que eu não sou, ok? Naquela noite, foi apenas um deslize. Uma curiosidade.

- Ok, ok. O senhor tá falando, eu acredito.

- Mas, por via das dúvidas, é melhor não tocar neste assunto.

- Verdade. Já sei. Este é infalível. Está havendo novas ondas de ataques a caixas eletrônicos no Interior. Vamos falar de como a polícia tem que ser melhor equipada para matar os bandidos. Matar. Isso mesmo! Aí você termina com uma das duas frases célebres: "Bandido bom é bandido morto" ou "Direitos humanos para humanos direitos". A galera delira quando o senhor fala isso.

- Boa! Mas estamos falando de todos os bandidos? Porque, meu filho, tem muita gente daqui de dentro que tá roubando bem mais. E se eles usarem isso contra a gente?

- Aí complica. Aborto? Células troncos? Uso da maconha para fins medicinais? A volta do Tite para o Corinthians?

- Já tentamos tudo isso e não vem surtindo efeito. Temos que ser mais radicais.

- Eureca! Vamos falar de estupro. Mas não de um estupro simples. Por que o senhor sabe que muitas mulheres pedem para ser estupradas com aquelas roupas curtas e danças provocantes, né? O senhor, doutor, tem que ser mais incisivo. Fale que vai estuprar alguém!

- Sensacional!

- Ou melhor, fale que queria estuprar. Mas que não vai! Aí o senhor sai de bonzinho. E escolha um desafeto. Aí o senhor fala que não vai estuprá-la porque ela é muito feia.

- Fantástico, meu assessor. Fantástico! Você é brilhante. Vou até conseguir uma ?boquinha? para aquela sua cunhada por aqui. Me dê um abraço aqui. Opa. Foi mal. Minha boca escorregou sem querer e tocou a sua. Mas eu não sou gay, ok?

*Diálogo meramente ficcional.

O autor é editor do JC, jornalista responsável da TV USP Bauru e especialista em Linguagem, Cultura e Mídia

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