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Após 75 anos, Banda do Liceu é extinta

Marcus Libório
| Tempo de leitura: 5 min

Mais uma vez, a Banda Marcial Liceu Noroeste encantou o público presente durante a Cantata de Natal anteontem à noite, na Catedral do Divino Espírito Santo. O clima era de alegria, menos para o maestro Adalberto Alves da Costa. Ele sabia que seria a última apresentação e ainda teve a missão nada agradável de comunicar o fato aos 50 integrantes. “Parecia mentira quando contei a eles”, disse. 

 

De fato, foi a última nota tocada pela mais tradicional banda marcial de Bauru, que acaba após 75 anos de história marcada por inúmeros prêmios e reconhecimento internacional (leia mais na página ao lado). Esta semana, a diretoria da Colégio Liceu Noroeste, até então mantenedora da banda, anunciou que não será mais possível prestar suporte financeiro ao grupo. 

 

A decisão foi tomada em reunião realizada há 20 dias, porém, somente na terça-feira, o comunicado foi oficializado ao maestro Adalberto. De acordo com coordenador do Liceu, José Ranieri Neto, os fatos que levaram ao término da banda estão ligados à questões de ordem financeira.

 

“São diversas situações que vão desde a compra de instrumentos novos e a manutenção dos que já temos, além de gastos com uniformes. A prefeitura cobre os custos com viagens e alimentação. Porém, a banda traz pouco recursos para o colégio, em virtude do investimento mensal que se faz nela”, explicou. 

 

Neto destacou que a banda não é mais o foco e que precisa investir no crescimento do Liceu. Para isso, segundo ele, é preciso deixar o projeto musical de lado por um tempo. “Quando estivermos com a ‘casa’ em ordem, voltaremos com a banda em outra situação”, adiantou. 

 

Para isso, ele diz que será necessário recursos externos. “Só com o auxílio do colégio fica difícil. Além dos gastos com instrumentos e uniformes, mantemos o salário mensal do maestro e de seu assistente”, completou, lembrando que os demais músicos e apoiadores são voluntários. 

 

Secretário de Cultura em Bauru, Élson Reis lamentou o fim da banda. “É uma grande perda para a cidade, principalmente pela tradição feita em cima de uma qualidade musical fantástica”, ponderou. Questionado sobre a possibilidade do município financiar o grupo, Reis disse que será feita uma análise sobre a situação. 

 

“Não sabemos ainda os gastos que eles têm, para avaliar como podemos ajudar. Vou me reunir com o prefeito (Rodrigo Agostinho) e, o que estiver ao nosso alcance, vamos fazer”, garantiu o titular da pasta. 

 

‘Triste despedida’

 

Para o maestro Adalberto Costa, a última apresentação da banda na quinta-feira teve “um gosto amargo”. “Triste despedida. Por falta de recursos, já vínhamos perdendo qualidade e a tendência seria mesmo caminhar para o fim. Cheguei a receber mensagem de conforto do Chile, de fãs que adquirimos quando tocamos por lá”, disse.  

 

O músico dedicou sua vida à banda do Liceu, colégio no qual estudou desde a primeira série primária. Foi lá, inclusive, que ele se encantou pela banda e acalantou o desejo de participar dela. Começou a tocar em 1976: primeiro trombone e depois bombardino, este último por dez anos seguidos. Em 1990, assumiu o comando dos músicos. 

 

“Tenho orgulho de ter levado o nome de Bauru por todo o Brasil. Além de propiciar uma atividade cultural muito importante, a banda marcial sempre foi referência de educação, disciplina e aprendizado”, pontuou. 

 

Hoje, o grupo contava com cerca de 50 integrantes entre corpo musical, porta-bandeiras e pessoal de apoio. Os ensaios aconteciam todos os dias em uma sala do Colégio Liceu. na avenida Rodrigues Alves. 

 

O anúncio sobre o fim da banda “calou” os cerca de 100 instrumentos de percussão e metal mantidos no local. A direção do colégio, contudo, ainda não decidiu o que fará com eles. “Vai restar o silêncio aqui”, lamentou Adalberto. “Ainda não tenho nenhum projeto em andamento, mas estou disponível no mercado”, completou.

 

Tradição premiada que chega ao fim

 

Não é de hoje que a população bauruense tem o privilégio de ouvir boa música em desfiles cívicos ou eventos festivos dos mais diversos tipos na cidade. Afinal, o primeiro registro fotográfico da Banda Marcial Liceu Noroeste, fundada por José Ranieri foi feito em novembro de 1939. 

 

De lá para cá, segundo o maestro Adalberto Costa, foram mais de mil apresentações levando o nome de Bauru em diversas cidades do Brasil e até para o Exterior. “Em 2004, gravamos comercial para uma marca de refrigerante, que foi veiculado nas salas de cinema dos Estados Unidos”, orgulha-se. 

 

Enquanto maestro, Adalberto teve a oportunidade de tocar em diversas cidades do Chile e Argentina, além de receber convites para apresentações na Venezuela e nos EUA. A banda participou de  inúmeras competições e venceu várias. 

 

“Nossa última disputa foi em Presidente Prudente, no ano de 2010. Depois, por falta de recursos, paramos de competir”, lamenta Adalberto, e acrescenta que, apesar das dificuldades, a banda marcial revelou grandes nomes no cenário musical brasileiro. 

 

“Tem o Tiquinho, que integrou a banda do Liceu na década de 1980. Ele já tocou com Jorge Bem Jor e, atualmente, é trombonista do Seu Jorge”, orgulha-se. 

 

‘Chegava a parar o carro para ouvir os ensaios’

A notícia do fim da Banda Marcial Liceu Noroeste deixou muita gente inconformada e triste. Foi o caso do funileiro Benedito Sérgio de Castro, 56 anos, que, hoje, reside na cidade de Cerqueira César. Apaixonado por bandas de fanfarras desde quando tinha apenas 8 anos de idade, ele confessou a admiração que tem pelo grupo de Bauru, onde morou por cerca de 20 anos. 

“Eu tinha uma oficina na Rodrigues Alves e sempre passava em frente o Liceu. Eu chegava a parar o carro para ouvir os ensaios”, lembrou, em tom nostálgico. O gosto pela banda era tanto, que ele convenceu a filha Beatriz Albuquerque e Castro, na época com 13 anos, a fazer teste para entrar no grupo. 

 

“Ela tocou por uns quatro anos e isso foi fundamental para formar sua personalidade e o seu caráter. Hoje (ontem), quando ela me deu a notícia, fiquei muito triste”, disse. A filha de Sérgio, hoje jornalista e com 24 anos, confirma que a banda foi essencial para o seu desenvolvimento como pessoa. 

 

“Aprendi a trabalhar em grupo, nunca desistir, ser solidária, lidar com as diferenças e ter disciplina”, disse Beatriz. “Sempre me emocionava ao ver uma apresentação da banda ou ao ouvir uma música que tocávamos. Conheci muitas cidades”, acrescentou. 

 

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