Ao longo da história republicana brasileira tivemos 48 anistias, a primeira se deu em 1895 e a última em 1979, todas elas norteadas pela categoria conciliação, que sempre livraram de responsabilidades os vencedores (entenda-se, as forças armadas). No caso da última, o senador Jarbas Passarinho introduziu o conceito "crimes conexos" com o objetivo de absolver todos os transgressores dos direitos humanos. A ditadura instaurada em 1964 tratou de punir todos os seus opositores, prendeu, torturou e assassinou.
A alguns que resistiram cabia somente uma aberração jurídica, a privação de nacionalidade e do direito de viver em sua pátria, o que ocorreu comigo, portanto, não posso admitir que chamem a Comissão da Verdade de comissão de meia verdade. Afinal, que outras punições o missivista ainda pretende imputar aos que foram presos, torturados e degradados, quando não mortos?
No entanto, eu sugiro ao missivista que solicite da comissão municipal da verdade de nossa cidade que me convoque para prestar esclarecimentos sobre os ocorridos no período de 1964 a 1985, inclusive sobre o "pseudotaxista" da Guanabara. Por ora, gostaria de esclarecer alguns equívocos que constam na referida carta. O condutor do táxi, mencionado na carta, era um policial que nas horas de folga, ou não, fazia um suposto "bico" de taxista. E, naquela tarde, parou seu táxi dando carona a um soldado que fazia a segurança do banco e ao gerente, iniciando uma perseguição por mais de um quilômetro, efetuando disparos contra os militantes da VPR, que fugiam do local da ação em um carro com cinco pessoas, colocando em risco a vida dos civis que por ali transitavam.
Havia a necessidade de se fazer algo, pois não se tratava simplesmente de um inocente taxista e sim de um policial no exercício de sua função, onde a única diferença era o veículo por ele conduzido, um táxi e não uma viatura policial ou uma C14 do DOE CODI. Os números apresentados pelo senhor Márcio, aqui, de 434 mortos, está longe de ser o número real, onde centenas de famílias foram privadas de velar seus entes, pela prática comum dos golpistas em ocultar cadáveres, muitos foram incinerados, jogados ao mar ou em cemitérios clandestinos, impossibilitando assim o levantamento exato de homicídios no período. Ao sr. Márcio M. Carvalho, ou a quem possa interessar, estou publicamente concedendo uma procuração para vasculhar quase 30 anos de minha passagem pela administração pública municipal, onde desempenhei 11 cargos de confiança.
Minha primeira providência, ao longo dessas quase três décadas, ao assumir a diretoria administrativa e financeira da então Emturb (atual Emdurb), foi a de contratar uma auditoria permanente para evitar todo e qualquer ato lesivo ao patrimônio público. Ressalto que o pagamento no inicial da empresa foi feito com meu próprio salário de diretor, até posterior contratação através de carta convite e essa postura mantive nos demais 10 cargos que desempenhei.
Sem mais o que acrescentar no momento, me coloco à disposição para quaisquer esclarecimentos.
Darcy Rodrigues