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Entrevista da semana: Roger Guedes

Ana Paula Pessoto
| Tempo de leitura: 7 min

Divulgação

Roger Guedes, o número 1 do mundo

Certamente, 2014 foi o melhor ano de todos os que eu joguei. Disputei 11 torneios, cinco na Europa e seis na América do Sul. Ganhei todos eles. E o mundial coroou tudo isso”, avalia o tenista Roger Guedes, que novamente fez história ao vencer, no último dia 26 de outubro, o World Tennis Championship Sêniors, categoria 60 anos, e conquistar o título inédito de campeão do mundo. A disputa foi promovida pela Federação Internacional de Tênis (ITF) e realizada na cidade de Antalya, na Turquia. A vitória rendeu a ele a posição de número 1 no ranking mundial da categoria.

Mas a trajetória campeã do entrevistado de hoje teve início ainda na infância, quando ele fez do tênis o seu esporte. Aos 17 anos, Roger venceu o Banana Bowl, torneio internacional juvenil. Com a vitória, ele ganhou uma bolsa para fazer faculdade e jogar pela Hampton University, na Virgínia, Estados Unidos, quando sua carreira decolou de vez.

Entre os inúmeros feitos, o tenista bauruense conquistou a posição de 93 do mundo em ranking mundial da Associação dos Tenistas Profissionais (ATP) de 1979. Leia mais, a seguir.

Jornal da Cidade - Quando o tênis passou a fazer parte indissolúvel dos

seus dias?

Roger Guedes - Meu pai era tenista de fim de semana e o Bauru Tênis Clube (BTC) era o point da cidade, com suas piscinas, quadras de tênis e sede social. E eu fui conhecendo os esportes. Jogava de tudo: tênis, futebol de campo, de salão, basquete... Tudo o que aparecia. Na escola, tínhamos um time de basquete, ganhamos os jogos colegiais e disputaríamos um campeonato regional. Eu tinha uns 10 ou 11 anos e estava super empolgado, porém, acabamos não indo porque os pais de um colega não achou uma boa ideia, um outro ficou doente... Fiquei decepcionado e decidido a buscar um esporte que não dependesse de outros jogadores. E o tênis foi esse esporte. Foi um empurrãozinho, digamos.

JC - Qual é o maior desafio de um tenista sênior?

Roger – Na maioria dos esportes, um atleta com 32/33 anos já está no fim da carreira. No tênis, aos 35 anos você entra no sênior e começa uma nova carreira. Tem a oportunidade de continuar competindo e conhece lugares maravilhosos, cidades por todo o mundo. Eu comecei no sênior aos 43 anos. No profissional, você ganha dinheiro toda semana, já no sênior o dinheiro é bem mais restrito. Mas o maior desafio está na parte física. Quem estiver bem fisicamente levará vantagem.

JC - Em 2014 você chegou ao auge com o mundial na Turquia...

Roger - Ah, quando você entra para o sênior, o auge é ganhar o mundial. É o que todo mundo busca. Há uma série de torneios que se joga o ano inteiro, mas o mundial com certeza é o mais importante. Eu já havia ganhado o mundial por equipe, em 1999. Ganhei o mundial de duplas, com um australiano, e só faltava este título conquistado agora, na Turquia. Cheguei a três finais e perdi por alguns erros de preparação, mas este ano eu acredito ter feito minha melhor preparação, com direito a nutricionista esportiva, já estava com preparador físico... Fui para a Europa duas vezes jogar como os melhores tenistas para saber o nível dos adversários, enfim, fiz tudo isso porque gosto do tênis. Certamente, 2014 foi o melhor ano de todos os que eu joguei. Um ano magnífico. Joguei 11 torneios, cinco na Europa e seis na América do Sul. Ganhei todos eles. E o mundial coroou tudo isso. E foi um torneio duro. 


JC - Depois de chegar ao topo, quais são as perspectivas para 2015?

Roger - Tudo era feito em torno do mundial. Era a minha meta. Agora estou meio perdido para dizer a verdade (risos). Outro dia eu me peguei fazendo esta pergunta: “E agora?” Bom, mas eu já tenho contratos assinados com um clube da Alemanha e vou jogar por lá de 15 de maio a 15 de julho. Essa é uma das poucas vezes em que você ganha alguma coisa com o sênior. 

JC - O que leva um tenista a ser um campeão?

Roger - Além da parte física, é claro, você tem que entrar em quadra campeão. O que eu quero dizer é que a parte mental conta muito e tem que ser forte. Não existe brecha no pensamento. Não é possível ganhar se você pensar que o jogo é impossível. Tem que ganhar. É preciso ter o pensamento positivo. Nada é impossível. Você vai ganhar. Tem que ficar firme, desde o primeiro ponto. É isso! O tenista vai aprendendo isso com o tempo. E quanto mais rápido você aprender isso, melhor.

JC - Como o tênis brasileiro é visto no Exterior?

Roger - Bom, teve a “Era Guga”, quando falavam que o Brasil era o País de um tenista só. Mas, sei lá, na época em que eu jogava pelo profissional nós tínhamos mais tenistas entre os 100 melhores do mundo. Éramos eu, o Júlio Góes, Marcos Hocevar, João Soares... Havia vários nomes entre os 100 do mundo, então sempre tínhamos brasileiros nos torneios. Hoje temos dois: Bellucci e Feijão, até o mês passado era apenas um. Precisamos de mais.

JC - Ainda na adolescência, o tênis o levou a estudar nos Estados Unidos. Como tudo aconteceu? 

Roger - Minha vida sempre foi pautada pelo tênis, é claro. Aos 17 anos, eu ganhei o Banana Bowl, que é um torneio internacional juvenil. Com essa vitória, eu consegui uma bolsa para fazer faculdade e jogar Hampton University, na Virgínia. Formei-me em business manager, que é diretor de empresa, e joguei durante quatro anos pela universidade, que foi fundada em 1888 e, pela primeira vez, foi campeã nacional. Para eles, aquele foi um feito incrível. Para se ter ideia, há um mural com nossos nomes e tudo mais por lá. Eu não tinha em mente o quanto era importante para eles ganhar aquele torneio. Para mim era só mais um torneio. Para eles era “o torneio”. Quando chegamos no aeroporto da cidade, todo mundo estava lá para nos receber, até o prefeito.

JC - Quais foram os seus próximos passos?

Roger - Quando eu terminei a faculdade, eu já estava no ranking mundial e jogava torneios profissionais, porém, não recebia dinheiro porque era estudante. Lá os estudantes são considerados amadores, entram no ranking, mas não recebem. Terminei a universidade e fui direto para os torneios funcionais. Morava em Nova Iorque, jogava na Europa... Meus primeiros pontos no ranking mundial eu fiz em 1976, em Berlim, na Alemanha, quando ainda era universitário. Naquela época, ainda existia o Muro de Berlim.

JC - E você acompanhou de perto uma parte dessa história mundial...

Roger - Isso me marcou bastante. Eu tinha uma amiga alemã e disse a ela que queria entrar no lado oriental. Entramos de manhã e tínhamos que sair até as 17h. Foi uma experiência única. Vi edifícios, casas, comércio... Tudo com marcas de balas por todos os lados. Construções detonadas mesmo, como se a guerra tivesse acabado há uma semana. Carros e eletrodomésticos velhos. Foi como voltar no tempo. No tempo da guerra mesmo. Você só podia andar em lugares determinados. As pessoas eram vigidas. Na hora de sair também havia uma certa tensão, pois os guardas ficavam nos olhando fixamente nos olhos para ver nossa reação. Mil coisas passaram pela minha cabeça. Há alguns anos eu tive um parceiro da Alemanha Oriental. Perguntei como era a vida lá e ele me disse que achava que era boa, porque não conhecia o outro lado.  

JC - Com o tênis você também encontrou o amor?

Roger - Conheci minha esposa disputando torneios em São Paulo, ela também jogava. Eu fui jogar na Bélgica e também nos encontramos por lá. Ela nasceu no Brasil, mas os pais são da Bélgica. Começamos a namorar e nos casamos. Temos três filhos. Ela sempre me acompanha e minha “nota 10” vai para ela e minha família. Minha volta para Bauru se deu quando eu já estava parando de jogar profissionalmente e São Paulo estava ficando muito barulhenta, populosa... Eu já tinha negócios por aqui e ela gostou da cidade. Por aqui, mexo com construção há muitos anos para a geração de renda, e isso me deixa livre e tranquilo para viajar e jogar. 

Perfil

Nome: Roger Guedes

Idade: 61 anos

Local de Nascimento: Bauru

Signo: Escorpião

Esposa: Graziella Rousseau Guedes

Filhos: Roger, Gabriel e Patrícia

Hobby: Ficar em casa e mexer com as plantas, com o quintal  

Livro de cabeceira: “O Advogado” 

Filme preferido: “Bastardos Inglórios”

Estilo musical predileto: Clássicos do rock

Para quem dá nota 10: Para minha esposa e minha família 

Para quem dá nota 0: Para a Vivo em Bauru, tanto para a telefonia quanto para a internet

E-mail: rogerguedes7@gmail.com

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