Oator e diretor de Hollywood Michael Douglas, disse uma vez que tinha dó dos seus filhos porque eles nasceram ricos. Na prática, essa reação aos que são ricos por herança, bate com uma das teorias de Thomas Piketty, autor do livro O Capital no Século XXI. Em menos de um ano vendeu mais de 1,5 milhões de exemplares. Ganhei o meu exemplar de presente de Natal e me achei na obrigação de dar conta das suas quase 700 páginas. É evidente que há algum modismo por trás de todo esse sucesso. O livro pode ser lido como uma história da economia dos últimos cem anos, período atingido pelas pesquisas. "A desigualdade na distribuição de renda cresce no mundo" é a sua premissa maior. Ele mostra que o 1% mais rico responde por uma fração gigantesca da desigualdade de renda e a coisa evolui. Incluídos entre os 99% menos aquinhoados, nós acabaremos por concluir, um dia, que isto nada tem de democrático. Daí para frente estará em risco o próprio capitalismo.
Todos os que chegaram a profeta começaram como hereges. Piketty foi tratar do tema mais precioso, espinhoso e incerto da economia política, a distribuição de riqueza. A igualdade democrática somente pode ser restabelecida com a promoção da igualdade econômica. Para consegui-la, os governos têm que aumentar a tributação sobre o capital e sobre as heranças. Neste último caso, a ponto de praticamente anular as vantagens de quem nasce em berço de ouro. "Capital", na sua origem, se referia às cabeças de gado, quando esse era o principal investimento que as pessoas podiam fazer. Hoje, o capital é investido em outras modalidades, e se reproduz na forma de rendimentos de aplicações financeiras, de poupança, lucros comerciais e industriais e até mesmo aluguéis e provisões de fundo de pensão privados. Capitalista não é apenas o multimilionário que vive de rendas, mas todas as pessoas que em maior ou menor grau se beneficiam da renda do capital. Você conhece alguns. A desigualdade, diz Piketty, crescerá se os seus rendimentos forem maiores que o crescimento da renda do trabalho. É a tal ciranda financeira. O dinheiro trabalha por nós.
Muitos encaram a economia como um jogo de soma zero, em que João é rico porque Manoel é pobre. Como se tirar dos americanos para dar para os africanos seria a receita do sucesso. Mas é verdade que um terço dos lucros tributados pelo governo americano foi obtido em outros países e remetidos para os Estados Unidos Em outro tipo de raciocínio dizem que o capitalismo é capaz de levantar a maré toda, permitindo que todos os "barcos" subam de nível com os ganhos de produtividade no tempo. Já ouvimos isto antes. Durante a ditadura, Delfim Netto cansou de dizer que era preciso esperar crescer o bolo para depois repartir. O povo espera até hoje.
Enquanto o velho Marx solitário fazia suas pesquisas na biblioteca do Museu Britânico, Piketty durante 15 anos foi auxiliado por 20 cientistas de primeira linha e mais um exército de auxiliares. É o Marx da modernidade. Infelizmente, as pesquisas não abrangem o Brasil "por falta de dados confiáveis". Aqui, a concentração de renda nos dados tributários do Imposto de Renda é tratada como segredo. O que é impossível esconder é que a renda, no Brasil, é extremamente concentrada e o patrimônio, ainda mais. De acordo com o Censo de 2010, quem tem salários de mais de R$ 10 mil já pertence ao 1% mais rico da força de trabalho. No geral, temos uma das maiores cargas tributárias do mundo, que chega a 36% e continua a aumentar. O imposto de renda, por ser progressivo - portanto, mais justo - aqui ainda é camarada. Nos Estados Unidos, as alíquotas vão a 40%. Aqui também já temos um arremedo de imposto sobre "fortunas". Doações aos filhos de mais de R$ 46 mil pagam imposto. O problema é que o sistema tributário nacional carece de retorno. Deveria ser uma das maneiras de reduzir a desigualdade com melhorias na educação, saúde e proteção social. Gastamos em 2014, US$ 11,6 bilhões com a Copa do Mundo, quer dizer, o triplo da Copa da África do Sul, em 2010. Esse custo representa 60% do orçamento da educação pública do País e 30% da saúde. Thomas Piketty acaba de dar uma demonstração de que não quer as luzes do palco e, sim, contribuir para a justiça social. Rejeitou a Legião de Honra, distinção máxima criada por Napoleão Bonaparte. Disse que "não cabe ao governo decidir quem é honorável (...) faria bem melhor em se dedicar ao relançamento do crescimento na França e na Europa". Essa recusa não é inédita. Entre os mais famosos estão os escritores Paul Sartre, Simone de Beauvoir e Albert Camus, a atriz Brigitte Bardot e o abade Pierre, símbolo da defesa dos sem-teto da França.
O autor, é jornalista e articulista do JC