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Simplicidade e positivismo são receitas para encarar desafios

Dulce Kernbeis
| Tempo de leitura: 13 min

O ano acabou de começar cheio de incertezas. Qual caminho é mais adequado, do ponto de vista do estilo de vida, para encarar os desafios de um ano inteiro ainda pela frente? 

 

Para alguns, a resposta está na busca de uma existência mais simples, de menor ostentação, e com sólidos princípios “dos tempos de antigamente”. 

 

Em um 2015 que sinaliza ser marcado por tormentas econômicas e desfechos de denúncias, “pouco” pode ser o porto seguro em busca de um “equilíbrio feliz”. 

 

Uma forma de começar nessa linha, se ainda não o fez, é adotar a prática do desapego. Ainda está em tempo de eliminar o que não se usa, deixar espaço nos armários e gavetas, tornar o guarda-roupas mais clean e deixar tudo mais fácil de encontrar.  Além do que faz bem doar a alguém que não tem algo que não nos serve mais. 

 

A jornalista Maria América Ferreira, nos dias que antecederam o Natal,  levou – com o marido, músico e advogado Marco Bechir – doações a crianças carentes da periferia de Bauru com integrantes do grupo Esquadrão do Bem. Pratica que adota mais vezes ao longo do ano.  “Todas as pessoas precisariam pelo menos uma vez na vida ir até uma comunidade carente e ver de perto como é ser pobre e não ter chance de viver melhor”, diz ela. “Me revolta saber que tem pouca gente com tanto e muita gente sem nada ou quase nada. Enquanto os golpes são trilhardários, o povo sobrevive insistentemente dependendo de ajuda”, afirma. Fazer o bem, enfim, um bom começo para uma “faxina interior” – que, inclusive, vale para relações desgastadas, que “não têm mais jeito”.  

 

Isabela Freitas sabe do que estamos falando. Ah, primeiro é preciso apresentá-la ao leitor. A jovem é escritora, blogueira, e se diz “exagerada, louca por histórias de amor, desenhos animados e bichinhos de rua”. Prega o desapego às coisas que não lhe fazem bem, e acredita que o otimismo e palavras bonitas podem mudar vidas.  Isso aos 27 anos. E seu blog https://isabelafreitas.com.br/tag/desapego/ faz o maior sucesso. 

 

Ela diz : “Desapegar, deixar ir, permitir que o passado se vá e abra novos espaços para o presente. Esse é o meu lema, sempre foi. Quando se trata de relacionamentos, me desapego rápido. O amor próprio vem em primeiro lugar, e se a pessoa está indo embora, bem, que vá! Não vou implorar para que fique”. Mas, e quando o desapego precisa ser do material? “Sempre digo que o desapego emocional é muito mais fácil, só basta você querer. Porém, o desapego material requer um desprendimento maior, e logo eu, tão apegada a coisas e lembranças!  

 

Menos é mais

 

O empreiteiro, engenheiro e empresário Maurício (sobrenome preservado a pedidos) sabe o que é trabalhar duro e amealhar um bom patrimônio. Deu duro para criar os dois casais de filhos que tiveram, o melhor em termos de escola e já estão fora de casa. Tem só um neto, por enquanto. Mas espera ter no futuro a casa cheia de outros, netos e talvez volte a ter o grande burburinho que teve no passado na mansão que mora no Jardim Estoril. São quase mil metros de área construída, com oito suítes e uma piscina enorme.

 

“O Maurício trabalhava muito, passava dias e dias no Paraná, no Mato Grosso tocando obras e eu ficava aqui com as crianças”, lembra Maria que tinha na mansão seu grande sonho de consumo. Hoje, reavaliaram tudo. “Não que não tenha valido a pena, pelo contrário, tenho um bom patrimônio, mas sejamos conscientes: quem precisa de uma casa tão grande? Foi uma loucura”, admite ele. “Houve períodos em que a Maria precisava de cinco ajudantes para dar conta das crianças e da casa”. 

 

Após ter um  problema cardíaco, ver a morte de perto ele começou a reavaliar o estilo de vida. Hoje os dois moram sozinhos na mansão, que só tem 20% de sua área utilizada. O engenheiro mandou executar uma obra de adaptação, e desfrutam muito bem obrigado de dois quatros espaçosos, sala com dois ambientes, cozinha ampla que fica onde outrora era a lavanderia da mansão. Até a entrada hoje é pela área de serviço. 

 

Até a saúde deles melhorou. Maria cozinha a própria comida do casal e conta apenas com uma faxineira duas vezes por semana.  Hoje em dia doméstica é artigo de luxo, reconhece.

 

“Ninguém precisa mais do que isso. Quando vejo jovens querendo comprar apartamentos de 400/ 500 metros quadrados, digo logo, você vai virar escravo. Ninguém precisa mais do que 100 ou 150 metros para viver. E ainda é bem grande”, garante Maurício com conhecimento de causa. E não é questão financeira, não.  É de otimização. Sabedoria adquirida pelo tempo.

 

Um símbolo para marcar 

 

Isabela Freitas dá seu testemunho: - “Esses dias estava arrumando meu guarda roupas e notei que não tenho espaço para mais nada. São tantas coisas pedindo por um desapego, pedindo por um novo dono. Foi então que tomei uma decisão drástica. Eu precisava me desapegar de alguma coisa que fosse realmente importante para mim, e que significasse bastante. Só assim talvez eu aprenderia me desprender de coisas que me mantinham no passado. O que eu escolhi?  

 

O quadro do desapego que tem o símbolo do meu blog e livro. Achei que vocês gostariam de ter ele, quem comprar, e que seria um item legal para o desapego. Desapegar do desapego. Adorei o trocadinho” conta ela. E não é que como ela só tinha esse quadro quem arrematou o original ou a réplica dele se deu bem? O quadro com o símbolo já está virando um cult nas redes sociais e tem até camisetas com os símbolos.

 

Dica: não é preciso envelhecer para adotar uma existência mais simples

 

É o caso da professora Vania A. K. Camargo. Antes de se casar, há dois anos, ela e o marido chegaram à conclusão que deveriam deixar a grande São Paulo. O marido é mecânico especializado em diesel, trabalhava longe, moravam em Arujá e só o trânsito os deixava estressados demais. 

 

Já Vânia, pedagoga, não via futuro em passar a maior parte de sua vida “no inferno de uma cidade grande demais cheia de problemas”.  Casaram e vieram para Bauru. Resultado: estão felizes da vida. “Foi melhor assim”.

 

Ainda não se estabilizaram profissionalmente, mas não se arrependem do que fizeram. E olha como o universo conspirou a favor deles. A escolha de Bauru foi só porque um amigo tinha um imóvel desocupado aqui. E ofereceu. Não tem maior desapego do que esse: permitir que os outros usem o que estava parado? Vânia agradece: “E acreditando em dias melhores.”

 

Que tal positivismo até dezembro?

 

Pare e responda: como nós, brasileiros, estávamos no início de 2014? Com grandes perspectivas! A despeito dos protestos por todo o País, que tínhamos vivido alguns meses antes, por mais que fôssemos pessimistas (algo que definitivamente, no fundo, no fundo, brasileiro não é) 2014 seria um ano diferente. Brasil teria novas eleições, Copa do Mundo...

 

O tom de otimismo imperava entre praticamente todos os brasileiros. E quem estava pessimista, estava bem mais confiante do que agora, nos primeiros dias de 2015. Afinal, todos estão esperando por um ano de crise, de cinto apertado, economias e privações. No final do ano passado, mais de 20% dos brasileiros responderam a uma pesquisa nacional e disseram que não iriam gastar o 13º. Por quê? Para poupar . Mas será que o pior virá mesmo?  E que pior é esse? 

 

Cientistas econômicos afirmam, categoricamente, que, passados os primeiros dez dias do ano, a hora é de fazer um balanço: pensar em como renovar-se, reinventar-se e fazer deste o grande ano de sua vida. 

 

A seguir, os bauruenses Luciano Dias Pires Filho, Davison de Lucas e Átila e Rose falam sobre a importância de sempre enxergar o copo “meio cheio” e nunca “meio vazio”, como fazem os mais pessimistas. 

 

E o amor? 

 

Átila e Rosi são bastante conhecidos pelos seus shows de mágica. E usam suas habilidades manuais e truques de mágica também em shows/palestras para funcionários de grandes empresas, especialmente em treinamento, em palestras de reforço de ações empresariais.

 

“Quando nossos clientes precisam ter uma decisão importante que significa ganhar dinheiro, melhorar relacionamentos, vender mais e trazer mais resultados com sustentabilidade, nossa missão é fazê-los achar facilmente em suas mentes, as soluções necessárias para agirem com eficiência nessa hora, praticando uma sequência de ações corretas e eficazes” explica Átila. 

 

Como estão casados há anos é natural também que enveredem pelo campo das expectativas emotivas e emocionais. Afinal, nem sempre a queixa é só de crise financeira, de falta de estabilidade no emprego, de ausência de perspectiva. Há também a crise amorosa - aquela que deixa as relações sem cor, sem vibração, ou até solitária, sem ninguém.

 

E é Rosi, com sua visão feminina, que explica como  manter a chama acesa da paixão. Aliás, uma ideia que ajuda em todos os relacionamentos de forma geral. “Hoje vejo que um ponto fundamental para aprender a amar é aprender a enxergar qualidades.

 

Perdemos as pessoas que amamos quando deixamos de enxergar as suas qualidades.

 

Perdemos nosso trabalho quando deixamos de enxergar as qualidades que existem nele.

 

Perdemos o amor, a nossa própria vida quando deixamos de enxergar nossas próprias qualidades. Quando deixamos de enxergar qualidades começamos a ver tudo com defeito: as pessoas, a vida, o mundo. E como fica difícil...” exemplifica ela.

 

Respeito 

 

A dupla de mágicos, Átila e Rosi conclui que “quando enxergamos as qualidades aprendemos a respeitar as diferenças e os limites de cada ser humano e consequentemente aprendemos a amar. Devemos colocar na balança as qualidades e os defeitos, mas, sobretudo valorizar e dar um peso maior às qualidades, pois cada qualidade deve ter o peso de um chumbo e cada defeito o peso de uma pena”. Quer receita melhor do que essa para viver bem suas relações? Colocando essa máxima em vigor alguém tem dúvida de que passará pelo Brasil da crise de 2015 muito melhor? Isso se essa crise vier, não é mesmo?

 

Davison de Lucas procura ‘estudos sobre a alegria’

 

Davison de Lucas já proferiu mais de mil palestras pelo Brasil afora. Em um dos seus mais recentes escritos, ele alerta para as pessoas que estão mergulhadas na negatividade. “Isso faz a diferença para saber como será nosso novo ano, como será o futuro.” Davison está atento para o fato de  que Martin Seligman, ex-presidente da Associação Americana de Psicologia, recentemente, contabilizou mais de 40 mil estudos sobre  depressão e somente 40 sobre alegria, felicidade ou auto-realização.

 

“Indiscutivelmente, isso comprova que estamos mergulhados na negatividade. Equivoquei-me, pois sempre achei que tínhamos pelo menos a cabeça para fora. Mas não, estamos realmente imersos na ausência de positividade. Se não bastassem as novelas de televisão, que geralmente apelam demais para a negatividade visando audiência, e os noticiários da mídia tendenciosa que pouco divulga notícias positivas, com o maior respeito à realidade que está aí, ver o mundo acadêmico, formado principalmente por países do primeiro mundo, também rendido a negatividade é surpreendente”.

 

Para a gente entender o que acontece na mente humana, vale lembrar que somos resultado da evolução ao longo da história, que ainda apresenta necessidades fictícias, como a sede de homenagens, inveja, ciúme, entre outras, mas principalmente o medo exagerado. “Sim, nós sabemos que aqui não é o paraíso. Mas até quando isso se manterá. Chegou a hora de mudar. A realidade do dia a dia é uma teia de complexidade, cujo desmembramento só é possível mediante as nossas escolhas inteligentes”, lembra o consultor. 

 

Os pensamentos e falas negativas geram energias mentais negativas, que atraem mais negatividades e contaminam quem estiver ao redor. Essas energias são campos elétricos e magnéticos variáveis com determinado poder. Por não serem visualizados, são subestimados. Quando alguém perceptivo diz que o ambiente está pesado, geralmente tem sentido.

 

Se cada um por si só cuidasse do seu mundo mental, fazendo esforço para estar na positividade, teríamos um mundo bem melhor. Como fazer isso? Uma alternativa inteligente é orar e vigiar. A oração faz você elevar os padrões de pensamentos. A vigilância faz você ficar de olho em si mesmo. Gosto de lembrar constantemente que seremos cobrados pelo bem que deixamos de fazer. Pensar e falar no positivo faz bem.

 

Um homem que só viveu em tempo de crise. E daí?

 

Já imaginou viver num país constantemente em crise? Pois já parou para pensar que você está vivendo em um? Luciano Dias Pires Filho já. No artigo a seguir, ele analisa sobre como e onde vivemos e chega a uma conclusão: talvez estejamos reclamando de “barriga cheia”.

 

“Nasci no dia 25 de junho de 1956. O Brasil estava em estado de sítio e, para piorar, nasci corintiano. Levei mais de 20 anos pra ver meu time ganhar um título. Em 1959, os militares tentam derrubar JK. Em 1961, Jânio toma um porre e renuncia. Em 1962, a crise dos mísseis em Cuba quase descamba numa guerra nuclear. Em 1964, o golpe militar, a revolução, que impõe ao País duas décadas de ditadura. Em 1968 vem o AI-5, o ato institucional que acaba de vez com os direitos individuais. Em 1969 tivemos o auge da guerrilha urbana, assustando a todos com os roubos, sequestros e assassinatos. Em 1972 tem início a guerrilha do Araguaia, que acontece longe de nossos olhos. Mas acontece. Em 1973 vem a crise do petróleo, que muda de vez a história da humanidade. Em 1975 Vladimir Herzog morre, torturado nos porões da repressão. E o regime militar começa a balançar. Em 1977 o presidente Geisel fecha o Congresso. Quem é que se lembra disso? Em 1978 acontecem as greves do ABC, com os metalúrgicos se mobilizando. Surge o Lula. Em 1981 a bomba do Riocentro gera um escândalo que prenuncia o fim do regime militar. Em 1984 o povo vai às ruas pelas Diretas Já, que não são aprovadas pelo Congresso. Em 1985, finalmente a volta, ainda meia-boca, da democracia. Tancredo Neves é eleito presidente e morre…

 

Entre 1980 e 1994 vivemos uma superinflação crônica, uma moratória externa, um confisco monetário, duas recessões, dois colapsos cambiais, cinco planos econômicos, seis moedas e uma quase moeda. O Brasil teve onze ministros da Economia e quatorze presidentes do Banco Central! E tivemos também o Plano Cruzado. As eleições diretas. O Plano Collor e aquela tungada em nosso dinheiro. Tivemos o impeachment, o Plano Real, as crises asiática e russa. O apagão. A eleição de Lula. O mensalão…

 

Muito prazer, esta é a história de minha vida. Me pergunto: como será viver num país sem crise? Não sei. Desde que nasci, vivo de crise em crise, nunca vi o Brasil em paz, tranquilo, sereno. Sempre enrolado, atrapalhado, desorientado, enganado, roubado, ameaçado… Cara, como é difícil ser brasileiro!

 

Fui falar com meu pai pra perguntar como era antes e ele veio com as histórias da guerra. Acredite, era uma sucessão de crises! Muito bem. Cheguei aos 50 anos melhor que meu pai ou meu avô estavam quando tinham a mesma idade, com uma aparência mais jovem, mais viajado, mais estudado. E meus filhos, que estão melhores do que eu estava na idade deles, provavelmente estarão melhores do que estou hoje, quando chegarem aos 50. Sou um privilegiado. Tem gente que acha que sou “sortudo”. Sou, sim… Isso me lembra a frase de Thomas Jefferson: ‘Creio bastante na sorte. E tenho constatado que, quanto mais eu trabalho, mais sorte tenho’.

 

Então é isso. No dia em que completei 50 anos abri um vinho e, enquanto tomava um gole saboroso, meu pensamento estava concentrado numa questão intrigante: como estaria eu, aliás, como estaríamos nós, se nos últimos 50 anos o Brasil não estivesse permanentemente em crise?”

 

 

 

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