As trampolinagens heterodoxas causaram danos de grande monta às economias de países emergentes, tais como Brasil, Argentina, Venezuela, Equador e Rússia. O receituário de maluquices nunca esgota-se, porém, uma séria delas já é velha conhecida de experientes economistas e populações em geral, a saber: congelamentos de preços, uso da "contabilidade criativa", perseguição a empresários, tentativas fracassadas de calar a imprensa, manipulação de índices econômicos, desqualificação de análises econômicas feitas pelos odiados ortodoxos, subsídios absurdos aos preços de combustíveis, energia elétrica e alimentos, além da já desgastada e ridicularizada prática de demonizar as potências estrangeiras pelos infortúnios causados por incompetência, arrogância e ignorância a respeito do funcionamento dos grandes mercados.
Os incompetentes sempre culpam os outros por seus próprios fracassos! O resultado de tudo isso é sempre o mesmo, após o surgimento de sérios problemas nas economias, esses governos passam sempre pela humilhação de terem de chamar os ortodoxos para, usando linguagem popular: "Matar os leões e limpar a jaula". Simples assim! Os convites a Joaquim Levy (Fazenda), Nelson Barbosa (Planejamento) e manutenção de Tombini no BC trouxeram certo conforto ao empresariado, analistas e investidores do mercado financeiro. Porém, houve grave frustração quando foram divulgados os nomes dos outros ministros, já que a maioria deles não tem nenhuma afinidade com o trabalho a ser desenvolvido nas respectivas pastas, pois são políticos de carreira. Portanto, foram para os cargos somente para acomodar conveniências políticas. Nunca é demais lembrar que a conquista de votos não capacita ninguém a nada. O que mais encontra-se no caso brasileiro são políticos dotados de currículos risíveis, com baixa qualificação acadêmica e desempenhos profissionais pífios. Enfim, anti-exemplos de pessoas ideais para gerenciar empresas públicas. Poderiam ser comparados a "dinossauros vagando pelo século 21".
Em 3/12/13, o conceituado Banco Credit Suisse publicou um denso estudo intitulado "Brasil 2014/15, Crescimento Moderado, Inflação Alta e Risco Fiscal Elevado", de autoria de conceituados econometristas e estrategistas da instituição, onde foram utilizadas técnicas matemáticas no estado da arte, como Modelos de Vetores Autoregressivos (VAR),para projetar e correlacionar taxas de inflação, câmbio e níveis de SELIC. Foi estimado que para uma cotação de R$2,80/dólar, para a inflação atingir o patamar de 5,4%AA, a SELIC deveria ter sido elevada a 17%AA já no primeiro tri/14 e mantida nesse patamar até o fim de dez/14.Já para 2015,se a SELIC tivesse sido mantida a 17%AA desde o primeiro tri/14,provavelmente em dez/15 a inflação atingiria 4,2%AA (portanto abaixo da meta de 4,5%). Como a inflação não foi combatida com o rigor necessário à época, agora será necessário usar um poderoso torniquete fiscal e monetário para tal. Na convivência cotidiana com operadores do mercado financeiro é de fácil constatação a descrença na nova política econômica, pois as medidas saneadoras até agora divulgadas são muito tímidas em relação às necessidades atuais da economia. São pessoas com alta qualificação acadêmica, tendo estudado em universidades norte-americanas e europeias de primeira linha, ocuparam cargos de extrema importância em grandes centros financeiros mundiais e com grande capacidade de analisar rapidamente o macroambiente global, visando tomar decisões de alto risco, operando 24hs/dia. São exímios operadores de derivativos cambiais, instrumentos financeiros que podem detonar a qualquer momento uma acentuada fuga de capitais, como ocorreu na Rússia recentemente, demolindo uma boa parte das reservas cambiais do país. Portanto, estão permanentemente "com os dedos nos gatilhos" para alvejar os BCs, pois movimentam quantias astronômicas. (Só a praça de Londres movimentou no ano passado uma média de U$ 7 trilhões/dia em derivativos cambiais). Afrontar o grande capital estrangeiro e nacional é caminho certo para punições severas.
Que o diga a Argentina, tentando inutilmente esquivar-se dos chamados "fundos abutres" e com a justiça norte-americana "nos calcanhares". Produzir instabilidade nas economias provoca uma concentração de renda tremenda, pois os pobres não sabem operar em ambientes caóticos. A riqueza sempre migra para as pessoas que "navegam bem em águas turbulentas", enriquecendo cada vez mais quem já é muito rico. Resta-nos esperar que o rumo à ortodoxia seja definitivo, porém, por prudência, seria bom continuar mantendo as reservas financeiras em investimentos de alta liquidez (CDI).
O autor é economista