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Vida de aposentada

Katya Sette
| Tempo de leitura: 3 min

Parece ontem. O despertador tocando, os filhos levantando, a casa se agitando, alguns reclamando, outros com dificuldade de levantar, bola pra frente, o dia vai começar. Nossa, esqueci que não tem açúcar, e agora? Será que dá tempo de ir à padaria? Parece ontem que, jovem, tirava da vida tudo que ela podia oferecer e queria sempre mais na ânsia de aproveitar os momentos bons. Tão jovem (21 anos): casamento, marido, filhos e mais a profissão que marcou a trajetória profissional: professora de Educação Infantil. Às vezes as coisas se misturavam e formavam um bolo só: professora, mãe, esposa.

O tempo passou ou não? Parece que foi ontem que as voltas com o grupo de crianças havia que se pensar no planejamento adequado, para aqueles pequenos que traziam suas individualidades. Ou para os "especiais" ou mesmo para aqueles que choravam no início do ano, ufa, que difícil. Desafio de um educador, proporcionar atividades prazerosas para vencer o "chororô" e as diferenças. Difícil, mas possível quando se olha com os olhos do coração. E a adaptação era de todos: pais, crianças, a escola como um todo. Tudo vencido, o ano corria e no final a sensação de vazio por perder aquela "turminha".

Mas esse tempo passou e veio a direção de uma escola. Nossa, o grupo agora era de adultos, diferentes também entre si também. Novos desafios, novos medos, medo do conflito, do "outro": Onde estou? Quem são meus pares? Como construir a identidade desse novo grupo a partir de uma liderança democrática? Esse era o sonho, mas instrumentalizar as ações é sempre uma tarefa árdua e contínua. Foi bom, muito bom.

Passou também e veio um grupo maior ainda, pelo grau de desafios, diretora de Divisão de Creches. Agora será que vou conseguir? Eram 28 coordenadoras de diferentes creches em diferentes pontos da cidade. Estavam sendo passadas para a Educação, após muitos anos de Sebes (Secretaria do Bem-Estar Social). A busca para viver intensamente essa nova "missão" no papel de líder de um grupo de coordenadoras de Creche foi instigante, revolucionário, inovador. Era preciso construir uma identidade educacional, além de inovar em toda a burocracia para que pudéssemos nos incluir na Rede Municipal de Ensino. E foi doloroso, mas prazeroso. Entre choros, erros e também acertos, foi cumprido o desafio inicial. Fiz a minha história e deixei um legado. Sem holofotes, no trabalho, na ação.

E agora? O que dizer de uma mulher de 58 anos de idade que saiu de cena no trabalho? Saiu de cena (aparentemente) dos filhos, que voaram para seus ninhos. Às vezes eles voltam, mas sempre retornam para suas toquinhas. E vem um novo desafio: o que fazer agora? Os amigos perguntam: o que você vai "fazer" agora?... Por que é preciso "fazer" alguma coisa? Será que não dá para simplesmente "viver"? Viver para poder olhar o mundo com olhos mais suaves. Tempo para aproveitar o que a vida pode dar sem pressa e sem a angústia de sair correndo do supermercado para dar conta de tudo? Sem falar em poder sentir o cheiro gostoso da flor, o pôr do sol nas caminhadas, a música bem ouvida, o bom filme, ah, que prazer poder assistir a um filme com direito a pipoca e sala vazia, e tem a convivência com os amigos, e ainda o bom e velho livro. Sem falar nos novos lugares para conhecer pessoas diferentes para compartilhar ideias, sonhos. Agora, é tempo de sermos donos do próprio nariz, das vontades não vividas, de saborear novos perfumes até esgotar e se orgulhar de ser como todas as mulheres: guerreira, apesar de tão "frágil" (será?)

Aposentadoria é isso: poder estar consigo mesma sem pressa e essencialmente ter tempo para se conhecer melhor. E deixar as portas abertas para se desnudar na hora mais quieta e deixar o vento entrar para saborear o prazer da brisa no rosto. Aposentadoria é isso! Lembranças de um tempo bom que já foi e exercício de ser "pessoa" cada vez mais e melhor. Cuidar do corpo e da alma (segredinho da medicina). Que bom que é estar viva para saborear esse momento mágico!

A autora é assistente social e pedagoga

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