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Trans: será que somos visíveis?

Victoria Rodrigues
| Tempo de leitura: 3 min

Quinta-feira passada, 29 de janeiro, comemorou-se, em todo Brasil, o Dia da Visibilidade Trans. Dia de colocar em pauta a invisibilidade que ainda afeta travestis e transexuais do ponto de vista do respeito aos direitos e da dignidade da pessoa humana. Infelizmente, ainda não temos muito a comemorar. Afinal, que políticas públicas voltadas para a questão da transexualidade foram realmente implantadas até hoje?

A transexualidade, segundo definição ainda aceita pela Organização Mundial de Saúde (OMS), é um tipo de transtorno de identidade de gênero, mas que deve ser considerada apenas como um extremo do espectro deste transtorno. Ou seja, refere-se à condição do indivíduo que se identifica de forma diferente ao gênero designado no nascimento, tendo o desejo de viver e de ser aceito como sendo do sexo oposto.

Mas voltemos ao que realmente interessa neste momento. Ser transexual não é nada fácil. Os homens e as mulheres transexuais apresentam, normalmente, sensação ininterrupta de desconforto ou de impropriedade em relação ao seu próprio corpo. Daí o desejo em fazer uma transição por meio de ajuda médica (terapia de reatribuição de gênero).

Travestis e transexuais sofrem 24 horas por dia o martírio de ser quem não é, ou ser desmascarada a qualquer momento por qualquer pessoa.

A visibilidade e a empregabilidade dos trans ainda esbarram no preconceito. A sociedade ainda não aceita e acolhe o diferente, que acaba quase sempre marginalizado, salvo algumas exceções.

A maioria ainda discrimina e lembra-se dos travestis e transexuais de forma a criminalizá-los ou patologizar, exotificar, ridicularizar e desumanizar essas pessoas. Sim, pessoas!

Somos invisíveis nas festas de graduação, porque muitos e muitas abandonam a escola pelo bullying; somos invisíveis nas universidades, já que pouquíssimos conseguem ingressar; somos invisíveis na maioria das profissões. E somos invisíveis do ponto de vista legal e, por isso, estamos condenados a sofrer com as injustiças.

No Brasil, a expectativa de vida de uma travesti ou transexual é de 30 anos, no restante da população é de 73 anos.

Somos o país campeão em mortes de travestis e transexuais. E 90% dessa população está se prostituindo por falta de oportunidade.

Em Bauru não é diferente. Não temos políticas públicas voltadas ao segmento. Por hora, apenas podemos contar com a Lei do Uso do Nome Social nos registros municipais, mas que, fora do papel, ainda não funciona!

Recebo, com frequência, relatos de meninas e meninos trans que tiveram dificuldade em ser chamados pelo nome social em repartições públicas da cidade, tais como hospitais, postos de saúde e escolas.

Devemos receber tratamento, segundo o gênero ao qual nos identificamos e utilizar o banheiro dos nossos respectivos gêneros, independentemente do sexo biológico.

Tendo em vista essas dificuldades, estamos criando uma ONG em Bauru voltada exclusivamente para travestis e transgêneros, a Trans- Bauru, que está em fase de elaboração do estatuto e logo prosseguirá com seu registro.

Que em um futuro próximo as travestis e transexuais possam trabalhar em qualquer cargo e ou profissão e em qualquer empresa, não apenas no salão de cabeleireiro, como atendente de telemarketing ou se prostituindo.

Somente assim haverá uma sociedade justa e igualitária, pluralista e sem preconceitos, como rege a Constituição Federal de 1988.

A autora é transexual, 33 anos, casada, membro da Comissão da Diversidade Sexual da OAB de Bauru, membro do Conselho Municipal de Atenção a Diversidade Sexual na cidade de Bauru e coordenadora da ONG TransBauru.

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