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Epidemia de sífilis desponta em Bauru

Rita de Cássia Cornélio
| Tempo de leitura: 8 min

Aceituno Jr.

Médica infectologista Renata Toledo Masoti diz que o número de sífilis em Bauru aumentou muito

Uma epidemia silenciosa de sífilis está despontando em Bauru em adultos e crianças. Segundo os registros da Secretaria Municipal de Saúde, a doença aumenta em todas as frentes. No caso de sífilis congênita (bebês que pegam das mães), foi de 71 em 2013 para 106 em 2014. Já sífilis em gestante aumentou de 57 em 2013 para 72 em 2014; e sífilis em adultos foi de 300 em 2013 para 325 em 2014. Os dados referentes ao ano passado foram computados até novembro.

Na comparação com o primeiro dos cinco anos analisados, os números são ainda mais impactantes: sífilis congênita saltou de 11 em 2010 – para os já citados 106 de 2014. Vale pontuar que mulheres viciadas em crack se prostituem para sustentar o vício, o que aumenta o risco de contaminação por sífilis.

Os casos em gestantes foram de 30 para 72. E, em adultos, de quatro registros em 2010 para os assustadores 325 em 2014.

Embora os números sejam  suficientes para preocupar autoridades de saúde, a promiscuidade e a diminuição do uso de preservativos nas relações sexuais são a “bola da vez”, segundo a médica infectologista infantil do Departamento de Saúde Coletiva, Renata Toledo Masoti Arcelis. “O problema é que a sífilis está voltando na população geral, de novo. O pessoal relaxou no uso de preservativos. Temia-se o HIV e as pessoas perderam o medo da Aids. Elas não assistem mais o sofrimento dos infectados, dos vizinhos, do amigo, do tio morrendo como antigamente, a doença tem tratamento.  Eles só assustam  se receberem o diagnóstico, naquela hora, depois relaxam.” 

A médica acrescenta: “Para nós esses números são muitos. A meta do Estado de São Paulo de chegar a menos de meio caso de sífilis congênita por mil nascidos vivos nunca alcançamos. Já diminuímos bem, mas atualmente os casos são crescentes.”

Agravantes

Da mesma maneira que os casos de HIV positivos aumentaram, a sífilis caminha a passos largos. “A transmissão é maior e mais rápida. Tem muito doente e eles estão transmitindo. A transmissão da mãe para o bebê na gravidez é alta mais do que no parto. Essas mães até tratam na gravidez, mas o parceiro não se trata  ou fazem o tratamento inadequado.  Se elas tratam e o parceiro não ou elas têm mais de um parceiro ou ainda o parceiro tem outras parceiras, elas voltam a se contaminar, mesmo durante a gravidez.”

Para que a situação volte ao controle, a saúde municipal tem  realizados inúmeras reuniões com os clínicos e ginecologistas que trabalham com o  pré-natal nas unidades de saúde. “Estamos orientando os médicos para ficarem atentos”. A gente considera que estamos estancando a cadeia de transmissão para os bebês. Os outros casos, não.”  O teste rápido na maternidade na mãe e bebê auxilia no diagnóstico. “Fazemos os dois testes, sífilis e HIV na mãe e no filho.” Para agilizar o tratamento, os exames que eram feitos no Adolpho Lutz passaram para o Instituto Veritas. “Estamos conseguindo trazer a gestante para a unidade de saúde e agilizamos os exames. No Lutz o resultado demorava 20 dias. No Veritas, em torno de quatro.”


Mulheres podem não sentir

Os sintomas da sífilis seguem ou não uma ordem determinada, normalmente a doença evolui de estágio primário para secundário, latente e terciário. Na mulher a doença é mais silenciosa do que no homem. No primeiro estágio, as feridas são genitais, internas, não dói e não incomoda. A maioria não vê e nem sabe que tem.

No estágio secundário, pode provocar lesões na pele. Geralmente, nessa fase, a mulher procura um médico. Cerca de 33% daqueles que não trataram a doença no estágio primário evoluem para o segundo. O doente pode apresentar dores musculares, febre, dor de garganta e dificuldade para deglutir. Os sintomas somem sem tratamento e mais uma vez, a bactéria fica inativa.

No estágio latente, a doença não apresenta sintomas. Nessa fase, a doença não tem sintomas e pode perdurar por anos, sem que o doente sinta algo de anormal. A sífilis pode nunca mais se manifestar, mas pode ser que se desenvolva para o próximo estágio.

O terceiro estágio da doença é o final e o mais grave. Cerca de 30% das pessoas que não se trataram nas fases anteriores desenvolvem a sífilis terciária. Nela a infecção se espalha para áreas como cérebro, sistema nervoso, pele, ossos, articulações, olhos, artérias, fígado e até para o coração.


Você sabia?

Sífilis congênita é aquela que a mãe infectada transmite para o bebê, na gestação ou por meio da placenta, na hora do parto. A maioria dos bebês que nascem com sífilis não apresentam qualquer sintoma. Se não tratado, mais tarde essa criança pode desenvolver sintomas mais graves como surdez e deformidades.


Homens têm feridas

No homem a sífilis “mostra a cara” logo nas primeiras semanas pós transmissão. Uma ferida pequena sobre o pênis aparece e eles procuram o médico. Segundo ela, todas as pessoas que tiveram, em algum momento, relações sexuais sem preservativo, devem fazer o teste, porque a doença pode ficar quietinha de

10 a 20 anos.  


Transmissão

A sífilis é uma doença infectocontagiosa, sexualmente transmissível. Pode ser transmitida verticalmente, da mãe para o feto, por transfusão de sangue ou por contato direto com sangue contaminado. Se não for tratada precocemente, pode comprometer vários órgãos como olhos, pele, ossos, coração, cérebro e sistema nervoso. O período de incubação, em média, é de três semanas, mas pode variar de 10 a 90 dias.


Mais diagnóstico

Na opinião da médica pediatra intensivista Natalie Camillo Amaral a sífilis congênita é uma doença antiga e que com a melhora do diagnóstico aumentou as notificações. “Os exames laboratoriais ficaram mais sensíveis e aparece mais. Ela tem aparecido em todas as classes sociais. Nós temos atendido pessoas da classe menos privilegiada, mas aparece da classe média e alta.”  O Projeto Cegonha faz o teste rápido. “Aqui na maternidade Santa Isabel nós seguimos um protocolo da Organização Mundial de Saúde. Se a doença for tratada não deixará sequelas posteriores.”


Usuárias de crack impulsionam doença

Nos meses de setembro, outubro e novembro de 2014, das 20 crianças que foram abrigadas pela Vara de Infância e Juventude, 12 estavam com sífilis congênita ao nascer.  Os números assustaram o titular da vara, juiz Ubirajara Maintinguer e o departamento municipal de saúde coletiva, que recebeu 20 notificações no mesmo período e reconheceu que as mães doentes não são só as usuárias de drogas, mas a população de modo geral. 

A doença silenciosa, especialmente na mulher somada à promiscuidade dos casais tem feito com que os números extrapolem os considerados normais. No ano de 2013 todo nasceram 71 bebês portando sífilis congênita. Em 2014, até novembro, os dados constatam 106 casos, ou seja, 35 a mais, 49% acima do que foi notificado no ano inteiro de 2013.

O mês de maio de 2014 foi o que teve mais casos notificados, 20 no total contra 9 do ano anterior. De janeiro a novembro, só em novembro é que os casos diminuíram de sete para quatro. A sífilis em gestante também foi numa escalda crescente de 2013 até novembro de 2014 de 57 para 72.

Para o juiz, o número de bebês que nascem com a doença preocupa porque significa uma “realidade viciada”.  O bebê nasce com a doença é sinônimo que a mulher que deu a luz está doente e que ela pode, caso tenha uma vida promíscua, estar transmitindo. E mesmo que ela seja tratada, ela pode estar sendo novamente infectada.

Muitas dessas mulheres se prostituem para conseguir sustentar o vício da droga ou trocam sexo por pedra. Elas transmitem a doença e, depois de tratadas, são reinfectadas.


Doença tem cura se for tratada adequadamente, diz infectologista

A sífilis é de fácil constatação. Um exame de sangue pode comprovar se o bebê é portador da doença ou não. “Esses bebês não oferecem risco algum no abrigo porque são medicados. Recebem medicamentos na maternidade. O problema é que os pretendentes não querem assumir um compromisso tão grande. É uma missão. Alguns ficam receosos de que a sífilis possa voltar.”

A doença tem cura, garante a infectologista pediatra do departamento de saúde coletiva,  Renata Toledo Masotti Argelis.

“As chances são maiores quando a mãe é tratada na gravidez. Tratando a mãe o bebê vai ser tratado. Interrompe a cadeia de dano tratando na gravidez. Os danos são graves, inclui má formação, atraso no desenvolvimento neurológico e motor do bebê. Pode ocorrer comprometimento que gerem convulsões,  calcificação cerebral . O tratamento na gestação  consegue evitar tudo isso. Essa é a ideia de fazer um pré-natal. Fazer com que a mulher adote a camisinha e o parceiro se trate.”

Quando a mulher não trata a sífilis na gestação,  o ideal é tratar o bebê na maternidade. “Porque tratando ele vai ser curado e há um bloqueio da má formação e do atraso neurológico que ocorrerá ao longo do tempo. A doença não vai continuar agindo no bebê, consegue- se interromper , vai dar vida melhor a criança.”

A médica lembra que muito vai depender do grau de comprometimento que o bebê nasce. “O acompanhamento é por dois anos, mesmo que a mãe tenha feito tudo certinho  e não não transmitiu para ele.”

 

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