Jazia ali o corpo sem vida do carrasco. Raízes de bétulas lhe entremeavam os poucos restos ósseos amontoados. Sua tarja pilosa labial mal se reconhecia. Era o fim de seus crimes hediondos contra a humanidade. O sonho e a sanha do poder pelo poder já não lhe pertenciam. Somente os insetos subterrâneos lhe acompanhavam, num crepitar de asas, num frenesi sombrio, e mais alguns seixos o escoravam.
Nem mesmo suas vítimas, milhares delas, haviam experimentado tamanha solidão, creio. Hoje, no mundo neoliberal, nossos carrascos são outros. Sua sanha pelo poder é a mesma. Sua fúria indômita no iludir, ludibriar, e macular a justiça é que se aprimorou. Acompanhando a evolução da história foram se infiltrando e amealhando a cada dia mais poder. E nós, definhando.
Somos seu produto. Sua mercadoria mais frágil. Manipulados pela ignorância nos acomodamos. Apenas assistimos, com vergonha, seus atos de improbidade, suas políticas econômicas equivocadas e o seu voraz apetite fiscal.
Estamos todos no mesmo barco, à deriva. Guiados por mãos carrascas e maléficas. Contudo, a natureza que é sábia, e jamais se desvia de suas leis imutáveis, já os aguarda, com a paciência de quem foi criada no princípio verbal dos tempos.
Ela sim, os receberá em seus casulos, pávidos sepulcros, onde enfim darão paz ao mundo. Isolados, esquecidos, desvanecidos de força e destituídos de seu tão sonhado poder. Somente os seixos lhes sustentarão. E as bétulas lhes abraçarão. E os insetos lhes farão companhia. Já ouço um crepitar de asas.
Carlos Bramonte