Carnaval 2015

Bloco de rua une crítica social e humor

Marcele Tonelli
| Tempo de leitura: 3 min

Malavolta Jr.

Com pau de selfie caseiro, multidão embalou as críticas entoadas pelo Bauru Sem Tomate é Mixto

Um mar de paus de selfies tomou o Calçadão da Batista de Carvalho no sábado (15) de manhã. Mas, ao contrário do conceito de autorretrato, os integrantes do bloco carnavalesco informal “Bauru Sem Tomate é Mixto” usaram os exemplares caseiros do tal equipamento (que acopla celulares para bater foto e caiu no gosto popular dos brasileiros nos últimos meses) como forma de retratar, literalmente, a realidade e os problemas enfrentados por Bauru recentemente.


A falta d’água que provocou dois rodízios no ano passado, a ausência de médicos nas Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) de Bauru e o aumento da tarifa do transporte coletivo. Foram estes os temas que ganharam espaço em meio à marchinha carnavalesca “Pau faz selfie?”, entoada por aproximadamente 100 integrantes do bloco, que marcharam e agitaram o público e comerciantes do Calçadão por quase duas horas.


A cantiga que embalou a 3ª. edição do desfile do bloco informal é uma paródia da marchinha “Cachaça”, de Mirabeau Pinheiro, Lúcio de Castro e Héber Lobato, que foi adaptada por Silvio Selva, um dos idealizadores do bloco.


Batuque


A marcha teve início por volta das 12h na Praça Rui Barbosa e terminou com a chegada dos integrantes na Praça Machado de Mello.


O grupo seguiu pelas oito quadras do complexo comercial com um carro móvel de som de pequeno porte, cedido pela Central Única de Trabalhadores (CUT) e mais sete músicos no batuque, que eram puxados pela voz de Tatiana Calmon, esposa do vereador Roque Ferreira, que também participava da marcha.


Ao final de cada quadra do Calçadão, a marcha “Pau faz selfie?” se misturava a outras marchinhas carnavalescas populares.


“Carnaval é bagunça”, disparou Tatiana, “protestamos porque vários problemas em Bauru parecem nunca ter solução, assim como acontece com o viaduto inacabado. Não existe UPA sem médico. E o transporte? A tarifa sobe mais que a inflação e não temos licitação. Rodízio? Antes era só de pizza e churrasco. Agora, é de balde!”, criticou a puxadora do bloco.


Conhecida pelas frases de protestos contra a dengue nos muros de sua própria casa, Maria Inês Faneco foi a musa homenageada pelo bloco. “Tô feliz demais. ‘Bora’ protestar, o povo tem que fazer sua parte”, bradou Faneco.  


O bloco teve como mestre-sala Geraldo Inhesta e a porta-bandeira foi a Rosana Melleo. Eles marcharam acompanhados dos reis e rainhas do Carnaval Bauru 2015.


‘Cozinhando’


A mesma crítica era feita pelo decorador  Adilson Jorge, que se vestiu de cozinheiro em referência ao nome do bloco. “Estou cozinhando o tomate, assim como o poder público vem cozinhando os problemas da cidade”, pontuou.


Advogado e integrante do bloco, Gilberto Truijo, que já desfila pelo terceiro ano com o grupo, tirou do armário o jaleco e equipamentos da esposa, já falecida, que atuava como enfermeira na prefeitura, para protestar contra a falta de médicos no município. “A situação está feia e só vai piorar. Duvido que a Fundação da Saúde resolva algo”, afirma. “A Saúde do município está quebrada, assim como meu estetoscópio”, concluiu o carnavalesco.


Protesto de uma onça só


Vestido de onça, o artista plástico Esso Maciel protestou solitário no Calçadão da Batista no Carnaval deste ano. Perambulando entre as oito quadras do complexo de lojas, ele carregava um cartaz em protesto contra os maus-tratos de animais, os estupros e ruídos urbanos.


O documento também solicitava à prefeitura o não corte dos vales-alimentação dos funcionários aposentados.  “Sou a onça do bloco ‘eu sozinho’ e protesto contra a pequenez do ser humano, que vive dominado pela ambição e destrói o mundo vivendo em função da testosterona”, disparou o artista à reportagem.


Esso participará do desfile no Sambódromo junto à Mocidade Unida da Vila Falcão, que, neste ano, prestará homenagem a Paulo Keller, artista bauruense e idealizador da “Onça De Morená”, interpretada por Maciel.

 

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