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Entrevista da semana: Padre Milton César Carraschi

Ana Paula Pessoto
| Tempo de leitura: 7 min

Fotos: Arquivo pessoal

Padre Milton é o responsável pela Paróquia São José Trabalhador desde sua criação, em 1994

É possível dizer que a trajetória de Milton César Carraschi como padre é paralela à da criação da sua paróquia, a São José Trabalhador. “A paróquia foi criada em 25 de dezembro de 1994 e eu fui ordenado no dia 2 de dezembro do mesmo ano”, lembra.

Padre Milton nasceu em Itápolis, onde brincou nas ruas e se machucou com as peraltices de menino. Mas foi na adolescência que surgiram os primeiros indícios da vocação religiosa, que foi amadurecendo com o tempo. “Eu tinha uns 15 anos e trabalhava no Fórum da cidade, onde conheci um amigo bastante católico. Passei a participar da igreja e me vi padre”, resume.

Entre as paixões e hobbies do entrevistado de hoje, estão o cinema, a culinária e viagens. “E eu cozinho de tudo, desde doces a salgados”, garante. Leia mais, a seguir.

Jornal da Cidade - Quais são as lembranças do menino Milton?

Padre Milton César Carraschi - Eu nasci em Itápolis e, há 50 anos, a infância se desenvolvia de maneira mais saudável, penso eu, sem excesso de tecnologia. Brinquei muito e me machuquei bastante (risos). Gostava de estudar e brincar, dobradinha muito saudável.

JC – Foi nessa época que descobriu o sacerdócio?

Padre Milton – Não nasci em uma família muito religiosa. Éramos católicos, mas não íamos muito à igreja. Comecei a trabalhar aos 14 anos no Fórum de Itápolis. Aos 15, já era escrevente. E foi lá que eu conheci um amigo: Artista Puzzi Júnior, uma pessoa fantástica, simples e humilde que eu aprendi a admirar muito. Ele era muito católico e sonhava em ser padre (mas não se ordenou). Hoje está casado. Ele não podia ser padre porque precisava ajudar a mãe com as despesas da casa. Ele me chamou para a igreja e eu fui. 

Padre Milton César Carraschi completou 20 anos de ordenação

JC – A vocação veio de imediato?

Padre Milton – Eu fui para a igreja e passei a participar de um grupo de jovens chamado CLC. Antes, fiz um curso de três dias para entrar. Saí muito sensível do curso e achei que queria ser padre. Não falei com ninguém e comecei a participar mais da igreja. Aos 17 para 18 anos, passei a fazer encontros vocacionais. Fiz tudo escondido e na dúvida. Eu tinha namorada e pensava em casamento.

JC – Uma difícil decisão?

Padre Milton – Sim. Eu falava para todos que estava indo para encontro de jovens. Fiz a prova para o seminário, passei e precisava dar uma resposta. Foi aí que caiu a ficha. Eu disse “sim”. Fui para casa e contei para meus pais, que não aceitaram muito bem. Meu pai pensava que o nome da família acabaria porque eu não teria filhos, aquela coisa de família tradicional. Contei para a moça que eu namorava. Enfim, foi uma decisão muito difícil, especialmente pela minha idade.

JC – Sofreu preconceito?

Padre Milton – Sempre vai ser assim. Tive o apoio de muitas pessoas, e muitas outras disseram que eu só queria fazer faculdade de graça. Entrei no seminário em São Carlos, onde fiz filosofia, e fui para Campinas estudar teologia.

JC – De Campinas para Bauru?

Padre Milton – Quase formado, eu tive um estranhamento com a Diocese de São Carlos por ter simpatia pelos movimentos sociais da igreja. E o bispo de lá era extremamente tradicional. Deixei a Diocese. Fiquei um ano e meio morando com uma ordem religiosa, em Campinas, os Padres Somascos. Ajudei a organizar um curso de teologia para leigos que, hoje, é vinculado à Pontifícia Universidade Católica (PUC). Terminei a teologia e vim para Bauru.

 Viagens são paixões pessoais de Padre Milton; nas fotos, ele na Grécia (acima) e em Bonito, no Mato Grosso do Sul

JC – Também se voltou para a área acadêmica?

Padre Milton – Já em Bauru, fui até a Universidade Sagrado Coração (USC) com o desejo de cursar letras e a reitora me propôs pagar o curso dando aulas de filosofia. Eu ainda era seminarista. Parei de lecionar há quatro anos por falta de tempo, mas ainda continuo envolvido com o mundo acadêmico. Coordeno um curso de teologia, em Bauru, que é vinculado a Faculdade João Paulo II de Marília. Assumo algumas aulas presenciais do curso por aqui. Fora isso, sou do Comitê de Ética e Bioética da Universidade de São Paulo (USP) há 13 ou 14 anos.     

JC – Quais são os atuais desafios do sacerdócio?

Padre Milton – Viver é desafiante, cada um com suas particularidades. O desafio de ser padre, hoje, deve ser analisado considerando a modernidade, a velocidade da informação e da desinformação e a crise de valores que vivemos. Os valores são questionados a todo momento e, apesar de válidos, ferem os princípios cristãos. É difícil fechar a soma neste mundo tão múltiplo. Por exemplo: como cristão, eu tenho que ser favorável ao casamento entre homem e mulher que gera filhos. Perfeito! Mas e se você me perguntar se essa é a única forma de relacionamento conjugal que existe hoje? Não é. E só vem até a igreja quem vive este padrão de casamento? Não. Muitos outros vêm à igreja e nós temos que acolher todo mundo e, com muito jeito, sem ofender e sem afastar as pessoas, precisamos colocar certas coisas. E há, então, um grande desafio. O Papa fala de uma igreja em saída, ou seja, uma igreja que vai ao encontro das pessoas e as acolhe. Eu não estou aqui para julgar ninguém. Estou aqui apenas para amar. Quem julga é Deus. 

JC – E a nova Campanha da Fraternidade?

Padre Milton – A Páscoa é a festa mais importante no calendário cristão. Toda a nossa fé se pauta no fato de Jesus ter ressuscitado. O período de 40 dias que antecede a Páscoa é chamado de Quaresma e é a nossa preparação. Paralelamente a isso, desde a década de 60, a igreja brasileira propõe a Campanha da Fraternidade como um projeto de conversão que te leva à santidade, porque um fiel comprometido com a sociedade é um fiel que está dando passos na sua santidade. Este ano, o tema é bastante abrangente: “Fraternidade, Igreja e Sociedade” e o lema é “Eu vim para servir”.

JC – Vida pessoal: as panelas são suas amigas (risos)?

Padre Milton – Eu gosto muito de cozinhar. E faço muito bem doces e salgados (risos). Sempre que viajo, eu trago comigo uma receita ou algo típico daquele lugar para cozinhar para meus amigos. Quando estive na Grécia, por exemplo, aprendi um prato típico e fiz quando aqui cheguei.

JC – Quais são as outras paixões do Padre Milton?

Padre Milton – Eu gosto muito de viajar. Não que eu viaje tanto (risos). Conheço alguns países e já bati pernas por alguns lugares no Brasil. Recentemente, eu conheci Bonito, no Mato Grosso do Sul, que é o lugar mais belo que eu conheço no País. A Ilha do Padre, ao meu ver, é um paraíso na terra. A natureza e a preservação são indescritíveis. Mas o cinema é outra paixão.

Éder Azevedo

Além de sua dedicação à causa de Deus, padre Milton é bom cozinheiro e gosta de cinema e viagens

JC – Qual tipo de filmes?

Padre Milton – Gosto muito de filmes antigos, mas há filmes que me encantam pelo visual, pelas cores... Por exemplo, fiquei encantado quando vi Avatar. Gosto de ir ao cinema e sair leve, feliz. Filmes baseados em histórias reais, para chamar a minha atenção, não podem ser pesados. Filme para mim é arte e entretenimento. Porém, embora eu prefira filmes leves, eu vejo de tudo (risos).

JC – O padre Milton tem medos?

Padre Milton – Tenho dois grandes medos: de envelhecer e de adoecer. Isso porque vivemos em um mundo onde o idoso não recebe valor, é abandonado e visto como um problema. E o sistema de saúde brasileiro é muito precário, até mesmo para quem tem planos de saúde. Por aqui, a doença, ou melhor, a saúde, é comercializada de forma absurda.

Perfil

Nome: Milton César Carraschi

Idade: 50 anos

Local de Nascimento: Itápolis/SP

Signo: Capricórnio

Livro de cabeceira: Um livro que me marcou foi “A Cabana”

Hobby: Cozinhar, viajar e ir ao cinema

Filme preferido: Gosto de filmes antigos, como “A Malvada”, da década de 1950

Time de futebol: Palmeiras

Estilo musical predileto: Eclético

Para quem dá nota 10: Para o Papa Francisco, que está abrindo a Igreja para o mundo e fala a partir do amor 

Para quem dá nota 0: Para a corrupção

E-mail: m.carraschi@uol.com.br  

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