Fernanda Pires Bichuette, 20 anos, trouxe na bagagem de sua passagem de 45 dias pela Índia encantamento. Apesar dos níveis de pobreza, de denúncias de violência contra a mulher em escala por lá e de uma organização urbana caótica, mantida muito na base do improviso, foram a espontaneidade na convivência entre os seus e os forasteiros e a generosidade com a fé do outro que surpreenderam o coração da jovem. Ela viajou como voluntária da Aiesec, maior organização jovem do mundo.
Deslumbramento capaz de fazê-la mirar, assim que possível, em retorno. Na bagagem do recente retorno ao Brasil, Fernanda conta que também trouxe mais do que qualquer monografia disponível em bibliotecas da universidade sobre relações públicas, do ponto de vista humano.
“Eu volto encantada com uma Índia que é muito, muito maior que qualquer dificuldade em relação ao estado de pobreza e de dificuldade que eles possam enfrentar por lá. Pensar que é possível você rezar, ou meditar, em um mesmo tempo, com pessoas de todas as religiões, inclusive as mais fanáticas, sem qualquer problema, resume o que eu senti por lá”, diz.
O voluntariado para a Aiesec é para quem está em curso superior ou, no máximo, concluiu graduação há dois anos. O intercâmbio universitário pode ser voluntário ou corporativo. A bauruense está entre os 40 cadastros locais da organização. O que a fez optar por Nova Déli, entre opções em mais de uma centena de países? “Ao saber das riquezas das histórias, da diversidade religiosa e da tolerância religiosa”, conta.
No segundo ano de RP da Unesp em Bauru, Fernanda não havia viajado de avião e sequer deixado a cidade sem os pais antes. “Eu morro de medo de avião. E ao chegar lá tive um choque enorme. Comecei a chorar e liguei para minha mãe. No contato com a Aiesec arrumei um apartamento, onde pagava uma parte. Eu comia na escola pública, onde fui para dar aulas de inglês básico e de matemática para crianças de 4 a 13 anos. Sofri com a pimenta, que tem em tudo, mas logo nos primeiros dias me adaptei. Foi fantástico”, acrescenta.
A jovem cita que recebeu orientação de integrantes da ação voluntária na Índia sobre a vestimenta, o comportamento conservador sobretudo para as mulheres e ao risco de violência. “Mas eu andei sozinha nas ruas, não usei só roupas largas como orientaram, tomava cuidado com os decotes claro, mas não tive problema algum. Andei também à noite e não vi sinal de violência contra a mulher, apesar das notícias a respeito”, fala.
Os indianos são, sim, curiosos com a diversidade visual da mulher brasileira, atesta a estudante.
“Eles ficam, sim, olhando, porque somos muito diferentes no corpo, nos formatos, em cabelo, tipos. Mas é normal, por curiosidade. Eu tomei cuidado com questões como não ir abraçando nem beijando as pessoas, porque eles não são assim. Voltei muito apaixonada pela Índia, pela generosidade e a forma humana como eles convivem, apesar de todas as dificuldades, da pobreza”.
O trânsito é maluco, segundo Fernanda. “É uma bagunça imensa, muitos andando na contramão, gente pendurada no tuk tuk (um carrinho muito utilizado como ‘táxi’), mas eles se entendem. Não tem nem semáforo, mas raramente tem acidente. Eu fiquei lá 45 dias e não vi nenhum. Nova Deli é uma bagunça, mas funciona”.
A comida tem pimenta e fritura em tudo. “A exemplo do trânsito, comer na rua também é muito sem regra. Mas tudo tem pimenta e fritura em excesso. É barato. Para comparar o transporte, uma corrida de 15 minutos de duração em um tuk tuk fica o equivalente a R$ 2,00”.
A jovem também ficou fascinada com os templos. “Tem templos para todas as religiões e é possível estar todos em uma mesma sala, cada um rezando em sua religião. Tem muitos templos e maravilhosos, encantadores”, opina.
Por lá, Fernanda não teve somente dificuldades em se adaptar com a cultura e a comida. “Tive indisposições, diarreia por causa da água e dos temperos. Lá se come carne somente de frango, nada de bovino. Mas tem porco e carneiro na dieta”, menciona. Na escola, outra distinção do modelo brasileiro: “Eles separam as crianças por nível de conhecimento e não por idade, como no Brasil. Na sala de aula, todos sentam no chão”.
As surpresas e o encantamento deixaram marcas, positivas. “Eu quero voltar pra lá. Achei um país encantador, apesar de tudo diferente daqui. Até no banheiro, onde não há papel, mas apenas uma caneca e uma torneirinha para a higiene pessoal”, finaliza.
O que é a Aiesec
A Aiesec é reconhecida pela Unesco como a maior rede global, sem fins lucrativos, gerida por jovens que impactam o mundo através do desenvolvimento de experiências de liderança. Seu objetivo é o alcance da paz mundial e o preenchimento das potencialidades humanas. O jovem se desenvolve por meio de experiências de intercâmbios social, profissional e de trabalho voluntário na própria organização. Além de tudo, está há mais de 65 anos promovendo um ambiente global de aprendizado em mais de 124 países e territórios.
Em Bauru, a Aiesec foi fundada em setembro de 2011 e atualmente é composta por mais de 40 jovens universitários que atuam nas seguintes áreas: Marketing, Gestão de Talentos, Finanças, Intercâmbios Sociais para Organizações, Intercâmbios Sociais para Estudantes, Intercâmbios Corporativos para Organizações. A organização já enviou e recebeu mais de 100 intercambistas.