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A reflexão diante da dor

Vítor Peruch
| Tempo de leitura: 3 min

Quando um jovem de 23 anos, estudante do quarto ano de Engenharia Elétrica da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (Unesp), morre, em uma festa, após o uso excessivo de bebidas alcoólicas, o que se pode fazer é lamentar. Além de chorar, claro.

Lamentamos e choramos pela dor de perder um amigo, por nos sensibilizarmos com uma família prestes a realizar sonhos e comemorar unida, assim como almejamos para que aconteça com as nossas, por pensarmos em um irmão mais velho que perde um grande amigo e admirador em seus dias, por pensarmos nos amigos que estudavam e festejavam junto ao colega ou nos companheiros de academia, que traçavam objetivos e aprendiam juntos. Choramos por pensarmos nele e em como ele era cativante. Ou por pensar que poderia ser qualquer um.

Humberto Moura Fonseca, ou Lombada, ou Tibetão, não era qualquer um. Era muito educado, falante, companheiro, leal aos seus amigos, determinado e amava muito sua família e o lugar de onde veio. Era mineiro, bem mineiro, bem engraçado. Estudioso, dedicado e se divertia com seus amigos. Aos finais de semana ia às festas com os amigos, como a imensa maioria dos estudantes universitários fazem.

Faleceu em uma "brincadeira" organizada em uma "festa" para ver quem bebia mais. Junto com ele, dezenas de pessoas passaram mal após consumir exageradamente bebidas alcoólicas. Três delas, duas garotas de 19 e 23 anos, e outro jovem estudante de Engenharia Elétrica permaneceram a madrugada seguinte em coma, entubados, em estado grave.

A festa não possuía os alvarás necessários para ser realizada. Não havia uma unidade do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) presente no local ou uma Unidade de Resgate do Corpo de Bombeiro desde o momento inicial da festa, possivelmente por não haver os alvarás necessários e por não terem sido solicitados. Os horários do início da competição e da festa se confundem. Humberto teria passado mal durante uma brincadeira da competição. Com isso, o sentimento de respostas por parte dos órgãos públicos e dos organizadores do evento é imediato, para que toda a tragédia seja explicada.

Ainda há a inacreditável dúvida do porquê da festa ter continuado, durante pelo menos quatro horas, depois da notícia da morte do Lombada. Mais de quatro horas depois houve o aviso de que "aquilo" estaria encerrado. Uma banda ainda tocou no local e alguns ingressantes da festa reclamaram e chegaram a pedir o dinheiro de volta. Mas não, a festa acabou.

Pois bem, um jovem faleceu. Em uma festa que incentiva a competitividade junto ao uso do álcool, uma droga legal, que se vende em qualquer lugar, seja cerveja, pinga, conhaque, vodca ou um uísque importado. Ele faz mais uma vítima.

Humberto não é o primeiro, outros jovens, estudantes de universidades públicas ou particulares, já morreram pelo Brasil em festas parecidas, em mortes acarretadas pelo uso excessivo de álcool. Outros estão mais sujeitos a ter um final trágico como o de Humberto, mas uma tragédia acontece e a gente nem vê. E quem está perto sempre vai pensar que aquele menino não merecia e não vai entender.

Enquanto a ficha do amigo perdido não cai, é certo que o uso excessivo de álcool é corriqueiro e mata, não só em universidades públicas e particulares, mas em famílias, homens e mulheres, pais e mães, filhos, jovens e crianças. Banalidade social.

Quando pensar nas irresponsabilidades cometidas em festas, sobre os absurdos do excesso de doses de vodca por minuto, na infantilidade de jovens competindo em uma roleta russa, nas regras desse jogo, em que pensou e criou o regulamento e dividiu os grupos, pense também na nossa irresponsabilidade e por que não entendemos como chegamos até aqui.


O autor integra o portal de notícias JCNET,

é estudante da Unesp Bauru, bebe apenas
cerveja e gostava muito do Lombada

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