Não muito tempo atrás, assisti a uma matéria na TV que chamava atenção para o fato da Kombi ser artigo de museu na Alemanha há mais de 30 anos. Um veículo obsoleto para os padrões europeus, mas que até o ano passado ainda estava na linha de produção de nossa indústria. Lembrei-me dessa reportagem quando li, com satisfação, que um projeto de lei pretende banir de nossas ruas veículos tracionados por animais ? as populares carroças. O projeto, de autoria do vereador Renato Purini, deve ser muito bem recebido pela comunidade bauruense. Os benefícios da futura lei são muitos e se estendem para a população em geral, para os condutores de carroças e, principalmente, para os animais. Nosso trânsito caótico e com veículos cada vez mais rápidos não combina mais com a presença delas. Condutores, em geral pessoas de baixa renda, terão oportunidade, segundo o projeto, de se recolocar no mercado de trabalho em uma atividade que lhes dê mais renda e dignidade. Vale ressaltar que há veículos em alumínio tracionados por pedais ou motor elétrico que substituem perfeitamente nossas velhas carroças. Não será difícil para o município subsidiar a compra desses veículos, visto que o número de carroceiros não deve passar de trinta. Basta empenho do Poder Público.
Mas quero me ater à questão que, para algumas pessoas, é de menor importância: o bem-estar dos animais. Uma parcela da sociedade pode se voltar contra o projeto de lei por entender que o uso da tração animal ? uma prática medieval ? é o único meio de sustento de famílias de baixo poder aquisitivo, e que se os cavalos recebessem "tratamento adequado" não haveria porque proibir sua circulação. Em parte, essa premissa é verdadeira: a maioria absoluta dos usuários desse transporte é composta por famílias pobres. O problema, entretanto, está no que se entende por "tratamento adequado".
Não há tratamento adequado possível para um animal com as características inatas do cavalo quando este é submetido ao trabalho diário de puxar uma carroça. Em seu hábitat natural, os cavalos vivem em grupos e em campos abertos. Seus membros, construídos para as planícies macias e secas, foram especialmente desenvolvidos para assumir altas velocidades. Tudo o que os cavalos precisavam fazer para sobreviver era comer, dormir, reproduzir e seguir o comportamento do líder, de maneira a se protegerem de predadores naturais. (https://defensoresdosanimais.wordpress.com/).
Cavalos usados para tração de veículos, principalmente na área urbana, são obrigados a enfrentar uma forma de vida totalmente diferente, e se adaptar a ambiente e alimentação bem diversos daqueles naturais, frequentemente inadequados a sua anatomia e fisiologia. Também precisam desenvolver atividades e condutas que em nada se assemelham ao que sua natureza primitiva os preparou. Isso gera graves problemas de bem-estar para esses animais.
Imagino que alguns leitores, nesse momento, estejam pensando: "Com tanta miséria humana no mundo, com tantas crianças passando por dificuldades, esse cidadão está preocupado com... cavalos?" A resposta é "sim", mas não exclusivamente. Preocupar-se com a qualidade de vida de animais não implica, por óbvio, deixar de lado os problemas sociais. Entretanto, a defesa dos animais também se faz necessária por pertencerem eles a um grupo que não tem voz, não se organiza em partidos políticos nem em sindicatos, não tem poder para realizar greves, não grita por seus direitos em redes sociais. Por serem pacatos e domesticados, aceitam a submissão e apenas aguardam pelo pior. Animais nunca devem ser vistos como objetos a serviço do homem.
É nítido que nos últimos anos tem aumentado a indignação das pessoas contra abusos e maus-tratos contra animais. O Jornal da Cidade publica notícias relacionadas a esse tema com bastante frequência, e em espaços cada vez maiores. Já lemos sobre cães enterrados vivos, gatos envenenados em campus universitário, porco que morreu de sede amarrado pela boca, entre tantos outros absurdos. A imagem de um animal como o cavalo ? que aparenta muita força mas que sente angústia, dor e cansaço como qualquer um de nós ? puxando centenas de quilos debaixo de chuva ou de sol escaldante deve estar, em um futuro não muito distante, apenas e exclusivamente em nossa memória. E ser vista, como a Kombi, apenas em museus.
O autor é biólogo, com doutoramento pela Universidade de Campinas.