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Trânsito mais seguro?

Archimedes Raia Jr.
| Tempo de leitura: 3 min

Matérias na mídia, ultimamente, tem tornado difícil a compreensão da realidade do trânsito brasileiro. A Folha trouxe, em 10.11.2014, a manchete "Número de mortes no trânsito tem a maior queda desde 1998", sobre os últimos dados do Ministério da Saúde. À época, externávamos desconfiança em artigo, no JC: "Mesmo comemorando as muitas vidas preservadas, é preciso cautela e esperar por uma sequencia declinante de dados".

A Rede Globo anunciaria, em 02.01.2015, que "Balanço da PRF aponta queda nos acidentes nas rodovias [federais] no fim de ano", em 10%. O site da Agência Brasil/EBC, de 19.02.2015, informou que o "Carnaval deste ano teve menos acidentes e mortes nas estradas federais".

Em nível regional, o JC de 06.01.2015 estampou a manchete "Ano Novo: mais mortes e embriaguez", com aumento de 50% nos óbitos e de 54% em vítimas graves. Pouco depois, com o fim dos festejos de Momo, a nova manchete do JC: "Número de mortes nas estradas paulistas cai 47,5%". Enfim, o que se observa nas várias esferas e nos diferentes momentos é que os números variam de maneira quase que aleatória.

Transcorrida já quase metade do Programa da ONU Década Mundial de Ações para a Segurança do Trânsito 2011-20, com o tema "Juntos Podemos Salvar Milhões de Vidas", constata-se que o país não tem ainda uma política de segurança viária. A Década foi criada para países com pífios desempenhos no trânsito, com meta de redução de 50% das mortes.

Vários países signatários do Programa têm auferido bons resultados (Grécia, Irlanda, Israel, Grã-Bretanha, dentre outros). As ações voltadas ao aumento da segurança se fundamentam basicamente em: redução de velocidade, leis/fiscalização contra a embriaguez ao volante, uso de cinto de segurança, capacete e cadeirinhas para as crianças, tudo isso suportado por estratégias consistentes para a seguridade viária.

W. Thompson explicita com uma frase a importância de se ter um quadro de indicadores para se medir a gestão: "Se você for competente em medir o que está pretendendo e expressar isso em números, então conheces algo a esse respeito; mas se você não tem essa capacidade, seu conhecimento é deficiente e insatisfatório." A importância da gestão fica evidente nas palavras de outros grandes mestres, tais como W. E. Deming ("quem não mede não gerencia") e J. M. Juran ("quem não gerencia, não melhora"). A utilização de indicadores setoriais de desempenho para o trânsito nacional ajudaria a atingir a meta global de redução de 50% nas mortes.

A evolução da gestão de trânsito ao longo da Década só pode comprovada e o resultado final obtido por meio de medidas de desempenho, envolvendo diversos usuários, os modos de transportes, diversas regiões, etc. A complexa realidade do trânsito não pode ser compreendida por meio de um único objetivo (redução de 50%). Seria desejável a formação de um arcabouço adequado de mensuração e o inter-relacionamento das informações, o que permitiria a interpretação e compreensão dos resultados parciais no atingimento do objetivo global. Estamos bastante distante disso. Por isso mesmo, continuamos a afirmar que não se pode acreditar em Papai Noel.

O autor é engenheiro, coautor do livro Segurança Viária, professor das cadeiras de Trânsito e Transportes da UFSCar, diretor de Mobilidade da Assenag e articulista do JC.

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