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"Viagem a Marte é inviável", diz astronauta Pontes

Tisa Moraes
| Tempo de leitura: 4 min

Aceituno Jr.

Marcos Pontes esteve em Bauru, na quarta-feira (4), para a aula magna que recepcionou calouros da USC e falou sobre a polêmica viagem a Marte

“As chances de acabar em tragédia são acima de 95%”, sentencia o astronauta brasileiro Marcos Pontes sobre o projeto Mars One, que pretende estabelecer vida humana permanente em Marte a partir de 2024. Assim como ele, a única candidata brasileira que ainda está sendo testada para participar da expedição, a professora universitária Sandra Maria Feliciano, 51 anos, também é bauruense.


Astronauta graduado pela Nasa, Pontes esteve nesta quarta-feira (4) na cidade para a aula magna da Universidade Sagrado Coração (USC), que marca a recepção aos estudantes calouros de 2015. Em entrevista ao Jornal da Cidade, ele revelou suas impressões sobre a missão holandesa, que, segundo ele, foi considerada inviável pela agência espacial norte-americana.

 

JC - Um estudo do Instituto Tecnológico de Massachusetts (MIT) apontou que o projeto Mars One não será bem-sucedido, porque os colonos começariam a morrer no 68.º dia de missão. Qual a sua visão sobre esta expedição?

Marcos Pontes - Colonizar Marte é um desafio grande de tecnologia. As condições de lá são bastante adversas à vida humana, em uma atmosfera basicamente formada por CO2 (dióxido de carbono), com temperaturas extremas, poeira, radiação intensa. A sobrevivência, portanto, dependerá muito dos equipamentos disponíveis para preservar a vida. Não é fácil fazer isso.


JC - Acredita que essas pessoas possam morrer?

Pontes - Sou um otimista e gosto de acreditar no que as tecnologias espaciais podem oferecer. Mas, como engenheiro, tenho de considerar os pontos que são factíveis e os que são baseados em suposições ou sonhos. É importante lembrar que uma missão como esta envolve a vida das pessoas e as consequências aqui na Terra. O transporte de seres humanos para outro planeta precisa ser feito com eficiência e segurança. A perda da tripulação no transporte ou na chegada, numa primeira missão ao planeta, pode atrapalhar investimentos e o desenvolvimento de projetos futuros.


JC - A Nasa chegou a avaliar o projeto em questão, o Mars One?

Pontes - Ele foi apresentado e analisado pela Nasa há mais de uma década e foi considerado inviável da maneira como foi proposto, foi tecnicamente recusado. Havia muitos valores subdimensionados quanto à capacidade das espaçonaves para transporte e outros superestimados em relação à resistência dos seres humanos no planeta. Não dá para contar com a sorte quando se fala em uma missão espacial. Seria arriscar demais uma tripulação, ainda mais em se tratando de pessoas inexperientes. As chances de uma missão como esta acabar em tragédia são acima de 95%.


JC - O projeto deveria ser abortado, então?

Pontes - Acho o projeto ruim e não gostaria de ver pessoas morrendo inutilmente. Espero que mais estudos possam ser realizados para que o trabalho seja mais completo.


JC - A Nasa também tem planos para enviar uma tripulação a Marte?

Pontes - Sim, a partir de 2033, mas não com o objetivo de permanecer lá. Seria enviada uma tripulação formada por astronautas profissionais, que conhecem mais os riscos e como lidar com eles. A gente treina muitos anos para lidar com situações de crise.


JC - Qual a importância de levar seres humanos a Marte?

Pontes - A Nasa tem três rovers (sondas) na superfície do planeta, mas ainda há muitos pontos a serem explorados. E o ser humano faz falta nesta exploração, porque conseguiria tomar decisões mais rápidas e procurar melhor evidências de vidas no passado.


JC - Você acredita que a colonização de outros planetas seja uma questão de tempo e dinheiro?

Pontes - De tempo, dinheiro, novas tecnologias a serem desenvolvidas e de boa gestão. Acredito que seja uma possibilidade para o futuro, mas não para o que temos agora.


JC - E viagens espaciais podem se tornar corriqueiras para pessoas comuns?

Pontes - Daqui a 20 a 50 anos, as possibilidades existem. Mas é importante considerar que as distâncias são muito grandes e o corpo humano é muito frágil. Há problemas em relação à microgravidade, que pode afetar o funcionamento do organismo como um todo. Há que se considerar, ainda, a radiação e os efeitos emocionais que uma viagem muito longa pode provocar. Há muitos fatores ainda a serem estudados.


JC - Quais planetas próximos para onde o ser humano teria condições de viajar?

Pontes - Vênus, nem pensar, pelas temperaturas e pressão extremas. Europa, uma das luas de Júpiter, seria uma possibilidade, mas, com a propulsão que a gente tem hoje, uma vida inteira seria comprometida para chegar lá. Para se ter uma ideia, para Marte, seriam seis meses de viagem, no mínimo. Quem sabe, no futuro, a gente consiga criar um mecanismo para viajar mais rápido ou preservar o corpo humano por mais tempo.


JC - O espaço gera um fascínio grande na humanidade, tanto é que, para o Mars One, que projeta uma viagem sem volta a Marte, mais de 200 mil pessoas se inscreveram...

Pontes - Tem muita gente que se candidata sem se dar conta do segundo final. Como astronauta, já passei por muitas situações de risco. Uma pessoa que não é treinada pode ter muita coragem, mas quando se vê diante dos últimos segundos de vida, quando a situação foge do controle, toda essa coragem desaparece.

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