O ser humano, mesmo sabedor de que em algum momento terá desagradável encontro com a morte, detém no ciclo de sua vida extraordinária higidez física e mental. O homem é um forte que, por circunstâncias que lhe são exteriores, convive com situações de fragilidade e diante delas algumas vezes pode sucumbir. Isso deixa certa e exposta sua necessidade de proteção para que não sucumba por antecipação, num mundo em que, cada vez mais, somos carentes de abrigos e dependentes de serviços.
A casa, garante a Constituição (art. 5º, XI), é abrigo que nos protege de quase tudo. Desde de eventos da natureza, de vândalos, de ladrões, de perturbados "voyeurs", de governos e agentes seus que se disponham a bisbilhotice. Fechada a porta da casa ninguém perturbará, espionará ou invadirá nosso sagrado território durante a noite ou durante o dia sem mandado judicial. Certo que uma campainha estridente perturba o sossego e é invasiva, mas se a instalamos e a mantemos ligada é porque em benefício da comunicação aceitamos um mínimo de perturbação. De qualquer forma, na casa estamos protegidos e confortáveis, embora submetidos a riscos imprevisíveis ainda que remotos, como a queda de um avião, de uma árvore, de um raio ou da ousadia de um meliante, sem esquecer a modernidade de mecanismos técnicos de espionagem. Afinal, a segurança nem sempre é total e nem plena.
A casa, própria ou alugada, humilde ou luxuosa, grande ou pequena é ilha de segurança e conforto que exige serviços essenciais para manter mínima condição de vida. Sem energia elétrica e sem rede de água a casa se transforma em insuportável caverna sem iluminação, sem banho, sem latrina, sem meios para conservação e preparação de alimentos, sem acesso aos modernos mecanismos de comunicação. Quase tudo, principalmente os equipamentos de moderna tecnologia, quando ineficientes e inoperantes tornam a casa desconfortável, imprestável e chocha.
A momentânea interrupção de um ou outro daqueles serviços essenciais retira conforto, agride rotinas e, até, pode provocar compulsória expulsão para as ruas, nas quais, graças à liberdade de locomoção (Constituição, art. 5º, XV) estamos livres e soltos para perambular, embora expostos a incertos riscos, que podem variar desde forte enxurrada agravada por bueiros entupidos até para ações de ladroagem, sem olvidar os perigos gerados por motoristas, embriagados ou inconseqüentes, que podem transformar veículos em maquinas de combate com elevado potencial para matar.
A casa é ambiente agradável que protege e dá conforto. E as ruas pelas quais transitamos quando expulsos de nossas casas nos deixam desprotegidos e expostos a situações de riscos, menores durante o dia e bem maiores durante a noite, até porque nas noites todos os gatos são pardos, facilitadas gatunagens.
Nestes intranqüilos tempos, infelizmente, com irritante freqüência temos convivido com apagões e torneiras secas e com momentos alongados de inoperância de serviços essenciais, suprimidas ou reduzidas condições de conforto que podem nos expulsar para nossas inseguras ruas com seu elevado potencial de riscos. Aqueles que deveriam evitar esses transtornos estão inacessíveis e são insensíveis. Praticamente surdos. Nesses casos mesmo diante da Constituição e de todas as leis e, até da onipresente proteção divina deve prevalecer a virtude da paciência, evitadas imprecações e reações apoplécticas porque inúteis diante da insensível e surda tecnocracia e porque, sem vantagem, apenas prejudica nossa própria saúde,. Pouco se pode fazer. O descaso e a surdez que atinge os serviços públicos inoperantes e ineficientes pela falta de alternativas deve ser enfrentada com resignação e paciência, mantida como consolo justa expectativa de que nos fins dos tempos e no acerto final de contas realmente existirá choro e ranger de dentes afligindo insensíveis e surdos.
O autor é advogado e articulista do JC