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Mergulhos

João Pedro Feza
| Tempo de leitura: 2 min

Você já ouviu falar de Assis Valente? Ele é autor de sucessos como "Boas Festas" (aquela do "Eu pensei que todo mundo fosse filho de Papai Noel") e "Brasil Pandeiro" ("Chegou a hora dessa gente bronzeada mostrar seu valor"). Eu também não lembrava de Assis Valente. Ele saltou à minha memória logo após a revelação de que um copiloto de 28 anos derrubou o avião que deveria ajudar a manter em voo seguro na terça-feira. Como se sabe, 150 pessoas morreram após impacto em montanhas nos Alpes franceses. O que o baiano Assis Valente tem em comum com o alemão Andreas Lubitz? Igualmente num março, só que dia 11, de 1958, Assis tirou a própria vida. Já havia tentado quatro outras vezes ? inclusive se jogando de ponto altíssimo do Corcovado, segundo o escritor Gonçalo Júnior ? autor de "Quem Samba Tem Alegria - A Vida e o Tempo de Assis Valente (editora Civilização Brasileira).
Solitário, Assis (em seu sozinho contexto) tomou veneno em uma praça do Rio de Janeiro e saiu de cena aos 49 anos. Lubitz vivia cercado por muita gente ? e assim, como era o contexto de sua vida, agiu no derradeiro mergulho. Em ambos os episódios, separados no tempo e no espaço, e até que se prove o contrário, presente está a sorrateira depressão. Lubitz, conforme noticiado, tinha um atestado médico de dispensa de trabalho no dia da tragédia. Assis Valente deixava bilhetes antes de seus impulsos suicidas ? o primeiro de que se tem notícia, conforme li, em 1941. E Assis teve sérios problemas no campo afetivo, que culminaram com separação ? assim como se comenta sobre Lubitz. Segundo amigos, o temperamento do copiloto era "afável? ? da mesma forma que, embora um tanto exibicionista, era Assis.
Psiquiatras, como José Manoel Bertolote, garantem ser possível prevenir suicídio. Corte-se a depressão e será uma forma de evitá-lo. Não caia em drogas ilícitas (e no lideradíssimo álcool) e também reduzirá chances de puxar a própria tomada. Ocorre que há transtornos mentais de tantas espécies e colorações que fica difícil para leigos, como eu, arriscar qualquer explicação sobre um ato tão amalucado. Ainda mais quando outras 149 pessoas estão no mesmo barco (ou avião ou carro ou casa) que você. Já escrevi aqui que um tio, a caminho firme dos 90 anos, respondeu a um sobrinho (eu) sobre como chegar tão longe e tão bem. "É gostar da vida". Resposta tão simples e tão verdadeira. "Gostar da vida". Pena que, para tanta gente, como na letra da música "Boas Festas", de Assis Valente, "felicidade é brinquedo que não tem".

O autor é editor executivo do JC

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