Minhas posses materiais são poucas e eu deixo tudo para vocês... Uma coleira mastigada em uma das extremidades, uma desajeitada cama de cachorro feita de jornal velho e uma vasilha de água que se encontra bem suja e rachada na borda.
Desde a minha infância sempre fui um cachorro morador de rua, apesar de não ter tido um dono, as pessoas de bom coração sempre me ajudavam, dando comida, ração, água e carinho. Nunca usei uma roupinha ou tomei banho no "pet shop", afinal eu era um vira latas, como muitos diziam, um cão SRD sem raça definida, as pessoas preferem os que têm "pedigree", os mais bonitinhos, e eu tão simplesinho, mas mesmo humilhado inúmeras vezes por pessoas más, e até chutado em certas ocasiões, nunca fui agressivo, nunca deixei de abanar meu rabinho pra ninguém, nunca guardei qualquer mágoa.
Vivia ao meu modo simples, feliz, cercado por pessoas que de uma forma ou de outra zelavam e se preocupavam por mim, eu era o que chamam de cachorro comunitário, as quais deixo a memória, que, aliás, são muitas.
Deixo para vocês que conviveram comigo a memória de dois enormes e meigos olhos, marrons e de um nariz molhado. De latidos de alegria que vão ecoar eternamente na memória dos que me conheceram.
Deixo para vocês um esconderijo que fiz no terreno baldio debaixo dos arbustos, onde eu encontrava asilo durante aqueles dias de inverno. Ele deve estar cheio de folhas agora no outono e por isso talvez vocês tenham dificuldades em encontrá-lo. Sinto muito!
Deixo também só para vocês, o barulho que eu fazia ao sair correndo para encontrar meus amiguinhos peludos do bairro. Eu tinha algumas paquerinhas. Que felicidade encontrá-los. Deixo ainda, a lembrança de momentos felizes quando as pessoas vinham me trazer guloseimas ou até mesmo um simples afago, um olhar terno e carinhoso de que eu tanto precisava. Deixo-lhes como herança minha devoção, minha simpatia, meu apoio quando as coisas não iam bem, meus latidos quando algo de estranho acontecia nas redondezas do Jardim Terra Branca e minha frustração por vocês terem ralhado algumas vezes comigo. Eu nunca fui à igreja e nunca escutei um sermão. No entanto, mesmo sem haver falado sequer uma palavra em toda a minha vida, deixo para vocês o exemplo de paciência, amor e compreensão.
Suas vidas foram mais alegres, porque eu estive sempre ao lado de vocês.
Quanto à pessoa que me esfaqueou, que tirou a minha vida abruptamente agindo com tanta covardia e crueldade eu, por mais que tente, não consigo entender, senti uma dor imensa lancinante que se repetiu por três vezes sucessivamente, o sangue jorrando, uma dificuldade imensa em respirar, percebi a morte iminente, cambaleante e agonizante ainda tentei dar alguns passos ... Mas também não guardo mágoa, meu coraçãozinho de vira latas não tem espaço para mágoas, pois certamente trata-se de uma pessoa profundamente doente, perturbada, possessa de espíritos malignos e que precisa na verdade de muitas orações, apoio e perdão incondicional.
Vou agora para os braços de São Francisco, que já me espera e deixo o meu adeus com uma grata lambida a todos aqueles que souberam me amar.
-Assinado: Cãozinho vira latas e sem nome, assassinado cruelmente na data de 27.03.2015, em Bauru (a cidade verdadeiramente "sem limites" para a crueldade contra os animais).
Fátima Schroeder (ONG Naturae Vitae)