Sofri por algum tempo quando o colega Sr. Joaquim, presidente da Academia Bauruense de Letras, me assegurou que meu ex-professor de Português Gino Crês havia falecido. Após constatar que quem realmente havia passado era seu irmão gêmeo, folguei, não pela morte do seu mano, mas por saber da boa saúde de meu mestre.
Fim dos anos 70, a garotada acorria a Bauru para se instruir melhor, de maneira a concorrer a uma vaga nos vestibulares de então, que desde sempre causaram arrepios nos jovens estudantes. Saindo do Ginásio em Pederneiras, ensino público que ainda continha qualidade em seus quadros, me deparei com muitos professores diferenciados em Bauru, bons mesmo, na Cussy Junior ou na Bandeirantes. Dentre eles, o professor Gino Crês, de excepcional verve e desenvoltura especial numa sala de aula.
Hoje percebo o preparo ímpar destes senhores, à época muitos na meia idade, uns hoje falecidos, mas muitos ainda compartilhando nosso tempo, o que me causa muito orgulho. Orgulho de ter passado da categoria de aluno para um hoje profissional, pai, filho, empresário e atuando em atividades que levam as tintas e influência daquilo que eles passaram com giz e garganta para uma cambada de ignaros infantes que ali chegavam. Os professores que amo - percebi isso numa conversa com uma ex-professora minha de Matemática - têm entre si uma característica fundamental: eles eram competentes, ensinavam muito bem e levavam em seus alforjes o dom de ser professor.
E o professor Gino Crês, que logo na segunda aula do primeiro colegial me chamou para a lousa, fazendo uma chamada oral inesperada sobre acentuação gráfica, era o melhor deles e vou explicar por quê. Após minha boa performance, que o surpreendeu, ele generosamente tascou um elogio, dizendo que "era muito bom lidar com quem sabe a língua", fazendo-me crer que eu sabia português. Suas palavras tiveram tanta força e poder que eu acreditei. Saiba disso, professor.
E destampei a ler livros que meu pai copiosamente me ofertava, absorvendo Lobatos, Machados e Clarices, lendo o que me fosse possível ler. Creio que não li nada em matéria de quantidade, porém consegui adquirir o gosto pela luta com as palavras, da qual fala bem melhor o poeta Drummond. Defini meu viver e ser pela poesia que a vida e a natureza nos oferece, decidindo por observar os acontecimentos, degluti-los e devolvê-los ao mundo sob a forma de textos.
Esta que é uma maldição benigna: querer transformar tudo em texto, história, comparações e analogias distantes que se unem por mágica. Forjar sempre uma linha de raciocínio que prenda o leitor, como cronista ou como autor de contos. Procurando sempre a frase perfeita, filosofal ou angular, que sempre me arremessa para o fundo sem fim da poesia, na prosa que me persegue. E disso já surgiram três livros. Aqui vai um "olá" bem afetuoso ao senhor, Professor Gino.
É por isso este manifesto: garanto a todos que o professor Gino "está muito bem vivo", não rumo a Santa Cruz de La Sierra, como Almir Satter canta em Trem do Pantanal. O senhor vive e viverá pra sempre nas minhas mal traçadas linhas, escritas sob a égide desta última Flor do Lácio, inculta e bela de Bilac, porque és o único responsável por esse estopim ter sido alcançado pelo vital e inspirado rastilho de pólvora que acendeste.
Marcondes Serotini