Amanhã, domingo, em quase todas as cidades haverá aglomeração, que se deseja pacífica, de pessoas de todas as idades, profissões e crenças no exercício legítimo do direito de reunião e de expressão portando bandeiras, faixas, cartazes, camisetas especiais e muito mais dependendo da criatividade de cada uma delas. As aglomerações todas, sem vinculação político-partidária visível, têm motivação geral e comum, composta por imensa série de motivações individuais quase inimagináveis. Difícil enfocá-las.
De modo geral as pessoas têm se aglomerado para manifestar insatisfação alastrada por quase todo o ambiente nacional abrangendo ações, omissões e fracassos visíveis nos três níveis federativos. Incorreto supor que apenas a União e a Presidente é que estão na berlinda. A carapuça diante do estado de coisas que vivenciamos e padecemos parece atingir todos os governos indistintamente e não ressalva governante algum. Evidente, pois, a co-responsabilidade política em todos os níveis federativos.
Ainda que não se consiga identificar com precisão as motivações individuais de cada manifestante ou de cada grupo de manifestantes elas podem ter imensa e inesgotável variação. Inflação, custo de vida, arrocho salarial, desemprego, má qualidade dos serviços públicos com centenas de variações tópicas, corrupção, impunidade, insegurança, reforma agrária, reforma política, discriminações pessoais, meio ambiente deteriorado, proteção dos animais, descumprimentos de promessas governamentais, desperdícios de recursos públicos e, ilimitadamente, muito mais dependendo da visão de cada pessoa, como diziam os antigos, dona de cada pé que o calo aperta.
Até o presente, aliás até hoje, governos e governantes disfarçam sensibilidade, fogem de testes de audiometria que poderiam afinar audição dos barulhos de rua e fingem propor iniciativas vazias e esfumaceantes que não se realizam para mínimo arejamento de expectativas. Já se vão quase dois anos de aglomerações populares sem reflexos práticos, apenas evidenciada amarga e monótona repetição de chavões desconectados da realidade que mais aumentam o nível geral de insatisfação.
Depois daquilo que acontecer amanhã - e devemos torcer para que não ocorram atos de vandalismo ou para que não se tenha algum cadáver - se persistir o comportamento omissivo dos governos e governantes a insatisfação mais se agravará e do barulho das ruas que ainda hoje parecem inaudíveis surgirão demonstrações concretas de desespero e perda de esperança que podem ser antevéspera do caos em que tudo pode acontecer variando de muito mal para ainda pior. Então será muito mais dificultoso, quase impossível, reagir e agir.
Logo depois da promulgação da Constituição Norte-Americana, Aléxis Tocqueville, interessado em conhecê-la de corpo presente, deixou Paris e foi para os Estados Unidos em visita a Thomas Jefferson para recolher elementos que lhe permitiram escrever o clássico "A democracia na América". Narra Tocqueville que enquanto conversavam na agradável varanda da casa sulina do presidente americano, um pequeno leitão enroscado numa cerca guinchava de dor e de desespero cada vez com mais força e intensidade perturbando a conversação.
Jefferson pediu licença, afastou-se para libertar o atormentado leitão que fugiu aliviado e ao retornar ponderou ao ilustre visitante que seu gesto não era ato de misericórdia, mas reação instintiva e sensível porque quando o barulho torna-se insuportável é preciso enfrentá-lo com rapidez. Isso é lição sadia de boa prática democrática para uso rápido de nossos governantes, antes que seja muito tarde.
O autor é advogado e articulista do JC