Tribuna do Leitor

Retrato da realidade


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Sexta-feira, ao assistir um trecho do #ConexãoRepórter sobre o polêmico tema homofobia, cheguei a desligar a TV pois, ao ver alguns comentários, causou-me tamanha revolta e me entristeceu. Mas daí vejo no Facebook uma senhora dizendo que se gays querem respeito, deviam "respeitar" locais públicos não se beijando, pois se estivesse com uma criança presente, viraria o rosto dessa por não saber o que explicar a ela. Aí o campo da psicanálise é muito rico, isso nos leva a crer que se eu assistir séries americanas de ação, o meu desejo de sair atirando nos outros será estimulado ou se um hetero ver um casal gay beijando, reproduzira o mesmo desejo. Então... não funciona assim.

Ao meu ver, uma mãe tapar os olhos de uma criança para a realidade só contribui para manter o preconceito e o pensamento de que isso é anormal! Fazendo com que a criança, se for hétero, cresça tão ignorante quanto a mãe. Se achando no direito de rebaixar, menosprezar, ofender ou até agredir o próximo apenas por ser diferente. Que, aliás, ser diferente é absolutamente normal. Temos que parar com essa era "Vitoriana" em que condenou o escritor Irlandês Oscar Wilde, em julgar o próximo. Pois devemos seguir padrões impostos pela sociedade como o "certo". Foi ensinada a acreditar que seu pensamento é certo e defender tal opinião, porque a do outro está errada! E se essa criança for homossexual (sim, se nasce assim e aposto que todos já viram uma criança com tendências homossexuais e concordam que a maioria faz vista grossa pra isso) poderá crescer infeliz como tantas outras, por viver numa sociedade que não a aceita como é, restringe seus direitos e segrega seus iguais... Pois sua própria mãe o ensinou que aquilo é uma aberração que nem deve ser vista.

Eu poderia ter sido essa criança, pois ao crescer me descobri sendo algo que não escolhi; mas tive a sorte de ter o apoio que precisei. Quando finalmente me aceitei, contei e expliquei o que era ser gay a um irmão mais novo (de apenas 12 anos, na época) que hoje me agradece por tê-lo feito conviver com as diferenças desde pequeno, pois sabe que do contrário poderia ter se tornado preconceituoso e ignorante como a maioria dos colegas de sua idade! Conviver com isso não fez dele gay também, pelo contrário, acredito que fez dele um homem muito melhor que tantos por aí... Afinal, sexualidade não se influencia, não é mesmo? Até porque todo gay cresce vendo relacionamentos hétero e nem por isso me torna um... Imagino que todos já deviam saber disso, mas é sempre bom reforçar. Enfim, meu conselho é: ao presenciar troca de afeto entre pessoas do mesmo sexo (e não estou falando de pegação em público, até porque vemos muito mais isso entre casais héteros) com uma criança junto e questionar, basta responder que nem todas as pessoas são iguais e algumas amam de forma diferente. Um beijo não é falta de respeito, falta de respeito é você querer impedir os outros dos mesmos direitos que você, só por não ser igual ou como você quer.

David Mantovani

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